Da literatura indianista à literatura indígena

Custou muito tempo para que a representação literária dos povos indígenas superasse aquela formalizada no “indianismo” brasileiro. Trata-se, a bem da verdade, de um processo ainda não concluído. Não é que Gonçalves Dias e José de Alencar tenham sido irrepreensíveis em seu trabalho, mas a marginalização das identidades indígenas brasileiras por mais de um século competiu na manutenção de uma visão estereotipada da realidade e condições de vida dos povos originários. Nesse julgamento, de certo modo fosse mais correto inocentar os autores românticos e denunciar, talvez, o interesse pitoresco da sociedade brasileira para com uma população que, a despeito das mais variadas investidas e violências, atravessou os séculos garantindo sua sobrevivência e autonomia cultural.

Desde a conclusão de O Guarani, provavelmente a obra máxima do indianismo brasileiro, quando a insólita união de um indígena com a filha dos colonizadores acontece de forma mirabolante, parece que certo caráter imobilista veio encerrando (ou encarcerando) a imaginação literária brasileira em respeito ao índio enquanto motivo literário. Seja como tentativa de concretização artificial de certa visão iluminista, seja como pretensão de desvencilhar os povos indígenas de qualquer relação com a sociedade contemporânea e, nesse sentido, corroborar seu estatuto civil de “incapazes”, desde as últimas décadas do séc. XX esta composição passou paulatinamente a perder força e sentido. Foi com a insurgência de um novo movimento social indígena gestado desde a conformação da chamada Nova República, ou seja, do Brasil a partir da Constituição Federal de 1988, que os povos indígenas passaram a integrar e atuar politicamente de forma mais decisiva e, consequentemente, sua literatura ganhou novos contornos. O marco editorial deste período é o livro Antes o Mundo não Existia, de Umúsin Panlõn & Tolamãn Kenhíri, pertencentes ao povo Desâna, do Alto Rio Negro/AM, considerado o primeiro livro editado de autoria indígena.

A partir desse momento histórico do qual emergem os primeiros cursos interculturais de formação entre os povos indígenas e o letramento em português começa a possibilitar-se o registro das tradições orais, cerimoniais, narrativas tradicionais e todo o repertório identitário que vai constituindo aos poucos o que hoje se entende por “literatura indígena”. A consolidação do termo, todavia, ainda é muito debatida e a percepção de mais de 300 idiomas particulares dificulta a tarefa, sobretudo quando se torna possível apenas denominá-la aquele escrita em português, ou seja, aquela acessível ao povo não-índio.

Antes que se fizessem notar pela própria produção cultural, grande parte dos saberes tradicionais dos povos indígenas foi transcriada pelo etnografia e também pelos estudiosos do folclore brasileiro, como Silvio Romero e Câmara Cascudo, no passado, e, mais recentemente, com Claude Lévi-Strauss e Darcy Ribeiro. Na literatura brasileira, desde o período romântico passando-se pelo modernismo e chegando nas manifestações mais contemporâneas, a presença do indígena é quase toda ela meramente incidental. Com exceção de alguns poucos autores, como Mário de Andrade em Macunaíma e Guimarães Rosa com Meu tio o Iauaretê, sempre havia sido necessária a transfiguração do mundo indígena pelo mundo branco, como aponta Luzia Aparecida Oliva dos Santos, no trabalho de doutorado que resultou no livro O percurso da indianidade na literatura brasileira : matizes da figuração, editado pela UNESP no ano de 2009.

Para a pesquisadora, não é por acaso que o indígena compõe os fundamentos da incipiente literatura nacional do séc. XIX, mas por garantir-lhe uma noção de pureza original, fundacional, na qual não cabe a representação da realidade violenta da conquista, mas a cristalização do mito selvagem e da inauguração de uma unidade histórica pacífica idealizada a partir da ótica exclusiva do colonizador português e as escolhas pontuais de uma imagem projetada para ser justamente seminal:

“Ao lado do aparato histórico, marcado pela Independência política do país, o romantismo brasileiro relê a infância da literatura pelo viés histórico-nacionalista, apontando para o futuro da nação a partir de suas raízes, recuperadas nas lendas indígenas e em seus mitos, que deslocam para o eixo tríplice natureza, etnia e língua o espaço de construção do princípio regulador, capaz de instaurar a literatura nacional.” (SANTOS, 2009, p. 149)

Ainda que seja também um livro da tradição etnográfica, A queda do céu, de David Kopenawa e Bruce Albert é um trabalho sem precedentes para o campo antropológico brasileiro dos estudos indígenas e também do literário. Primeiramente escrito em francês e depois traduzido para o português, o livro é a transcriação de um convívio de muitas décadas entre o antropólogo francês e o xamã yanomani no qual é apanhada toda a cosmogonia indígena. Nas três seções e oito capítulos do livro são desveladas a iniciação do xamã, o contato destrutivo com o “povo da mercadoria”, isto é, o homem branco, e as impressões dele a respeito do destino do seu povo e de toda a civilização.

Dentro da emergência de um discurso político indígena, o trabalho de Kopenawa e Albert, além de situar a continuidade social e histórica dá relação povos indígenas e não-indígenas, instaura um campo de subversão simbólica. Nas palavras de Albert, o que se revela é “todo um processo político-cultural de adaptação criativa que gera as condições de possibilidade de um campo de negociação interétnica onde o discurso colonial possa ser contornado ou subvertido” (ALBERT, 1995, p. 4). Toda essa negociação passa, evidentemente, pela superação de qualquer noção teatral do modo de vida da população yanomani. Pelo contrário, o livro é um registro incomparável das formas de resistência subjetiva de uma comunidade tradicional que não apenas não percebe ganhos na relação com a civilização ocidental como ela é vendida, como ousa confrontá-la na sua dimensão destruidora, representada principalmente na persistência de um modelo econômico extrativista de relação com a floresta e os recursos naturais.

Ao passo em que se multiplicaram os estudos antropológicos e literários em torno da obra de Kopenawa e Albert, muitos outros autores indígenas ganharam nitidez no mercado editorial e estudos acadêmicos[1]. Além de Kopenawa, outros autores indígenas têm publicado seus livros com grande repercussão na crítica e no mercado editorial. Dentre muitos, pode-se citar Daniel Munduruku, Cristino Wapichana e Eliane Potiguara. No entanto, poucos como Ailton Krenak têm estado tão evidentes.

Líder político dos krenak de Minas Gerais, povo recém vitimado pelo desastre da barragem de Mariana, Ailton Krenak é jornalista e ambientalista de longa data. Ficou conhecido nacionalmente ao defender os direitos indígenas na Assembleia Constituinte de 1988, pintando o rosto com tinta jenipapo ao tempo em que discursava. Seu mais recente livro, editado pela Companhia das Letras e intitulado Ideias para adiar o fim do mundo, também busca fazer uma tentativa de alerta para toda a sociedade brasileira quanto ao risco ambiental. Em um vídeo gravado para o Itaú Cultural há poucos anos, Krenak realiza um questionamento vital a respeito da literatura indígena. Para Krenak, até aqui o interesse social em torno da temática indígena tem sido muito semelhante àquele indianista, do período romântico, idealizado e inocente. Para ele, é chegado o momento de desafiar a história e a contemporaneidade com dados mais realistas a respeito dos povos indígenas e descolonizar (sic) a cultura nacional.

Se a literatura é um campo simbólico privilegiado no qual traços culturais e valores são contrabalanceados, tendo em vista que a própria sobrevivência de tribos e nações inteiras está sempre em jogo, a presença indígena consegue ser no tempo atual das mais impactantes. Mais do que isso, segundo palavras do próprio Krenak, os indígenas não procuram lutar por sua terra, mas pela terra e pela sobrevivência de todos, de todas as dimensões da natureza. A despeito da história brutalizante de violência sobre violência, a literatura indígena é um sopro de vitalidade e esperança em meio a um tempo que se anuncia cada vez mais breve, antes que o céu desabe, como diz Kopenawa. Na ausência de um consenso sobre o bem estar da sociedade, é imprescindível conhecer a literatura indígena e não por uma questão de identidade, mas cada vez mais pela necessidade de aprendizado para a sobrevivência.

Referências

ALBERT, Bruce. O ouro canibal e a queda do céu: uma crítica xamânica da economia política da natureza. Série Antropologia, 174. Brasília: UNB, 1995. 33 p.

CASTRO, Eduardo Viveiros de Castro. Perspectivismo e multinaturalismo na América indígena. In: A inconstância da alma selvagem., p. 301-346.

KOPENAWA, David; ALBERT, Bruce. A queda do céu. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 729 p.

KRENAK, Ailton. Ecologia Política. Ethnoscientia, [S.l.], v. 3, n. 2, ago. 2018. ISSN 2448-1998. Disponível em: <http://www.ethnoscientia.com/index.php/revista/article/view/193>. Acesso em: 17 Jul. 2019. doi:http://dx.doi.org/10.22276/ethnoscientia.v3i2.193.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo : Companhia das Letras, 2019. 98 p.

Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção [recurso eletrônico] / Julie Dorrico; Leno Francisco Danner; Heloisa Helena Siqueira Correia; Fernando Danner (Orgs.) – Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2018. 424 p.

SANTOS, Luzia Aparecida Oliva dos. O percurso da indianidade na literatura brasileira: matizes da figuração. São Paulo : UNESP, 2009. 447 p.

[1] Uma boa ideia dessa produção literária e ao mesmo tempo militante pode ser obtida no livro Literatura indígena brasileira contemporânea: criação crítica e recepção, publicação da Editora Fi/Acesso aberto, de 2018.

Anúncios

Dez contos (ou crônicas) para uma playlist

Não foi tarefa fácil a que escolhi. Em primeiro porque a música popular brasileira é, na minha memória afetiva, predominante. Um hábito familiar do qual jamais declinei em favor de outros estilos e que aprecio desde que me entendo escutador, e isso é mesmo bem remoto no meu caso. Não é difícil explicar: embora nunca profissionalmente, minha mãe tem sempre cantado e cantarolado na sua vida. Creio que, como os demais nascidos no apogeu da era do rádio, a música popular lhe ensinou do mundo até mais que os livros. No interior mais interno do interior, na sua época, só o mesmo o rádio tinha esse poder.

É importante dizer que esta escolha não obedece a nenhum critério de preferência, classificatório, mas apenas elenca, dentro muitos, dez exemplos de quando a música popular brasileira foi literária para além do poético que lhe é comum. De quando foi narrativa da mesma forma de um conto, breve e contundente, e também de quando foi, como crônica, mais calcada na revelação do espírito de um tempo qualquer. Esse, variável por natureza.

Mas não será da sua memória que fiz minhas escolhas, mas da minha própria e de como fui identificando aqui e ali os traços que me permitiram distinguir entre a vertente mais poética da música popular e onde ela se embrenhou, por outro lado, nos meandros da narratividade.

Os exemplos são incalculáveis, em se tratando da música brasileira. No entanto, é preciso aqui traçar um recorte e não será casual, mas escolhido entre os mais de centenas de milhares de registros da música brasileira. Esses dados aproximados são do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, que reúne informações de mais de 5.000 compositores brasileiros.

Foi uma aventura das mais agradáveis, afirmo e confirmo, mas precisei me deter naquelas composições que estavam mesmo registradas na minha memória afetiva. Seja pelo impacto ou pela percepção de uma voz narrativa, o que mais este trabalho me mostrou é uma grande vocação do povo brasileiro em contar-se, isso de um modo mais historicista ou constituído pela expressão de quem deseja registrar uma experiência comum, de todos os homens, configurando-se no que talvez se pudesse chamar de “crônica”.

Pois a música popular brasileira tem muito conto, mas também muita crônica. Para mim, pessoa nascida e desenvolvida em meio aos anos 70 e 80 do séc. XX, foi como rever momentos em que entendi muito do meu país, das suas peculiaridades locais e talvez até a certo espírito (às vezes mais recalcado, às vezes mais evidente) de nacionalidade. Hoje seria bem difícil, creio eu, para quem começa a ouvir música popular identificar elementos assim, mas a música tem, para além de uma facilidade em ultrapassar fronteiras formais da expressão, uma potência comunicativa incrível. Nesse território, não convém mesmo duvidar de nada.

Abaixo, não me alongando mais, relaciono alguns destes momentos nos quais a experiência estética literária me parece ter se fundido incomparavelmente à sinestesia da música popular brasileira. E, se me cabe esse tipo de consideração (se não, desculpem-me), a mais impressionante de todo o mundo, como certa vez afirmou o “bruxo” Hermeto Paschoal.

Minha playlist começa duas músicas com temática rural. Parecem-me contos em sua capacidade de deter a atenção do ouvinte do começo ao desfecho e da riqueza entre esses dois extremos. Por primeiro, a voz mais do coração que já pude ouvir, Milton Nascimento. A canção chama-se “Morro Velho” e é um conto (desculpe professor, não tenho dúvida disso) daqueles que fazem um torção na alma da gente, ainda que seja “correndo atrás de passarinho”. Em seguida, na mesma toada, já fui colocando o menestrel Elomar Figueira de Mello. A sua “Arrumação” o que é senão um desafio a entender a linguagem do povo do sertão na sua própria maneira de dizer? De um povo que conta e espera a chuva para “plantar feijão no pó”? É só danos… Aqui, se a lista fosse ainda maior, sem dúvida encontraria desde o mais popular cantor do Rio Grande do Sul, Teixeirinha, exemplos formidáveis de contos. Todavia, como a lista é curta e o tempo também, vou adiante.

Minha próxima parada é a boa Bahia. Em Gilberto Gil, como não notar a mão oculta do narrador naquele “Domingo no Parque“, no qual Juliana se via triangulando, igual aos pés dos capoeiristas? Foi que ele viu… No segundo ponto, mesma parada, vejo o mano de Bethânia, Caetano, reconstituindo em prosa, como um redivivo Homero, a história de ninguém menos que Alexandre, cujo pai “foi um raio que veio do céu”. Pobre Felipe, também não resistiu à concorrência do glorioso Zeus…

Numa mudança radical, porque o Brasil é mesmo radical, encontro certo poeta, Luiz Gonzaga Jr, carioca de nascença e brasileiro em essência, uma perda precoce e absurda, e que deu vida ao “filho da Dina“… Passado é um pé no chão e um sabiá.

Só que não para. Ainda tem no caminho certo Luiz Melodia dizendo como deveria ser lhe matar de amor no Holly Estácio, certa Pérola Negra, numa crônica absoluta e definitiva do Brasil negro de 1973. Mas tente esquecer em que ano estamos.

Alguns aventam (eu tenho quase certeza) que os períodos mais difíceis, mais duros da história também são os mais criativos. Quem melhor atestaria isso que a dupla João Bosco e Aldir Blanc, com um flagrante “De frente pro crime“, ou com a história épica de um menino, um Deus de bermuda e pé-de-chinelo, que nem os Orixás livraram da barbaridade de um “Tiro de Misericórdia” (por que mesmo nos abandonamos em cada cruz?)…

Um longa estadia se poderia fazer com aquele que tirou do anonimato Geni, o guri e tantos outros, incontáveis.

Mas já ficaria demais e não daria tempo de dizer dos meninos que, com guitarras, lá nos anos 80, escolheram não ficar de costas pro Brasil, como dizia Fernando Brant, e botaram pra quebrar porque, afinal, isso é rock and roll.

Estou falando claro, das histórias de Eduardo e Mônica, de certo interminável Faroeste Caboclo, de Bete Balanço por aí e mais uma enormidade de personagens e situações marcadas pelo capítulo da história da música brasileira que atende por rock nacional.

Como não há epílogo na história, ainda há que não esquecer-se do fenômeno do rap, Racionais MC’s e a saga de Guina, o que não tinha dó, em “Tô ouvindo alguém chamar meu nome?”. Aqueles manos são foda…

Já passam de dez (é um excesso), acho que posso parar aqui. As vozes de todos continuam. São como as nossas. De certo modo, dizem muito por nós. E como dizem… E, como dizia o já citado Gonzaguinha, o futuro é o que virá.

A terra inabitável

O twitter de David Wallace-Wells nunca mais foi o mesmo depois de 09 de julho de 2017. Nesse dia, na New York Magazine, onde é editor-assistente e articulista, ele publicou um artigo desconcertante a respeito das mudanças climáticas em curso no mundo contemporâneo. Além do título assustador, A terra inabitável, digno dos clássicos filmes do gênero catástrofe, no artigo Wallace-Wells fazia o apanhado visionário distópico mais aterrador sobre as condições climáticas e ambientais do planeta desde que o ex-vice-presidente Al Gore lançou em 2006 o seu documentário Uma verdade inconveniente.

Desde então, o jornalista se tornou um dos grandes protagonistas da retomada das discussões em torno dos impactos imediatos que cercam a questão ambiental, absorvendo tanto o pânico da população quanto críticas severas de setores que tentam minorar sua advertência e converter seu livro apenas numa indigesta presença entre os bests-sellers de cabeceira lançados no início deste século. A estratégia de esfumaçamento seria mais eficiente se Wallace-Wells estivesse mal informado, usando de má-fé ou escrevesse mal. Nada disso acontece. Seu livro consegue ser um trabalho de reportagem de primeira linha e obra de não ficção que não se consegue largar desde a primeira frase.

“É pior, muito pior do que você imagina”, ele adverte a seus leitores para que deitem fora de imediato suas ilusões quanto aos efeitos perniciosos e devastadores das mudanças climáticas não serem tão sérios assim. Neste ponto do livro, em sua primeira frase, talvez as pessoas mais amedrontadas já desistam de encarar a série de evidências que ele vai descortinar num livro que o premiado jornalista Andrew Solomon classificou como “um meteoro”. Não fosse uma metáfora do desastre que possivelmente levou à extinção no passado remoto do planeta os grandes répteis e as primeiras formas de vida, talvez se pudesse dizer que seu livro tem a pretensão de evitar que efeito semelhante àquele possa ocorrer novamente, mas agora por obra exclusiva dos seres humanos e suas opções de produção e sobrevivência.

Cerca de dois anos após a publicação do artigo, Wallace-Wells o expandiu e aprimorou até transformá-lo no livro que a Companhia das Letras está lançando agora no Brasil. Acrescido do subtítulo sugestivo “uma história do futuro”, ele inicialmente parece seguir a linha de outros autores que têm se dedicado a perscrutar o futuro iminente. Ocorre que, diferentemente de historiadores como o israelense Yuval Noah Harari, autor de Sapiens e 21 lições para o século XXI, Wallace-Wells especula calcado na realidade presente e demonstra com clareza científica suas teses para lá de desconfortáveis. Em seu livro não há, portanto, suposições, mas constatações documentadas. É o tipo de exigência que todo jornalista científico, aliás, deveria fazer antes de provocar estardalhaço ou, da mesma forma, quando visa amortecer narrativamente a realidade. As razões de sua preocupação, se não fossem comuns ao interesse de sobrevivência da humanidade, poderiam ser descartadas solenemente. Seria o mesmo que legar às gerações futuras (não as remotíssimas, mas as que já estão aí) mais do mesmo descaso ambiental que nos trouxe ao colapso da vida marinha, ao esgotamento da camada de proteção à radiação ionizante, ao comprometimento da potabilidade dos mananciais de água e até mesmo das condições atmosféricas.

Nesse desdobrar de capítulos que não permite descanso, consolo ou desculpas, Wallace-Wells desbarata as camadas de coragem que qualquer pessoa minimamente consciente consegue ter quanto à realidade das condições ambientais do planeta. Este efeito é evidentemente por ele pretendido ao dar forma e conteúdo ao seu livro, mas consegue ser ainda mais eficaz pela capacidade de não aliviar nem por um instante os temores mais singelos em relação ao breve futuro ou, ainda mais grave, ao próprio tempo presente. Explica-se sua estratégia argumentativa: a todo o tempo Wallace-Wells lembra que a capacidade adaptativa dos seres humanos é muito grande e, por essa razão, a margem de tolerabilidade com condições degradadas vem ampliando-se na mesma proporção em que se deterioram as condições de vida do planeta decorrentes da atividade econômica e da imprudência humana.

Uma das mais contundentes críticas que A terra inabitável vem recebendo diz respeito justamente a um suposto enfrentamento das condições de produção capitalistas. Não é para tanto, pois Wallace-Wells guarda algumas de suas apostas em medidas de contenção e, principalmente, reorganização produtiva. Apesar de que ele não deixe de apontar soluções políticas e medidas de enfrentamento para situações críticas, é natural que seu livro venha a conflitar com projetos políticos calcados no extrativismo, na economia baseada em alto consumo e taxas de emissão de carbono e numa industrialização inconsequente. Em sua defesa, Wallace-Wells tem dito que privilegiou o enfoque na problemática sem deixar de lado o trabalho já existente em prol da sustentabilidade. Apenas este aspecto não foi mais explorado em seu livro, segundo ele, porque os investimentos irresponsáveis têm sido cada vez mais agressivos e atingido sobremaneira os países menos comprometidos em educar a sociedade para o desafio de iminentes – ou já presentes – pequenos colapsos que, se não freados, conduzirão o século 21 a um momento verdadeiramente dramático na história da humanidade.

Ainda que a pecha de alarmismo seja de difícil remoção, é interessante lembrar que o livro de Wallace-Wells foi publicado nos EUA (segundo suas palavras, o país mais negacionista do planeta) poucos meses após a divulgação do relatório especial do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas de 2018 (IPCC). Taxado por ambientalistas mais radicais como um relatório conservador, pela primeira vez o tom emitido pelas Nações Unidas valeu-se de termos como, por exemplo, “catástrofe”. Isso ocorreria, segundo os levantamentos globais, caso não se obtenha a limitação de aumento de temperatura global em torno de 1,5 graus Celsius, a fim de que se preservem condições mínimas para a atividade agrícola e integridade da saúde humana. Isso é menos que o limite convencionado em 2 graus e Wallace-Wells prevê que sem uma transição rápida nos modelos de transporte e consumo de combustíveis fósseis, em 2050 provavelmente já se terá alcançado um incremento de 3 graus centígrados na temperatura do planeta.

2050, aliás, é uma data que os autores dedicados a pensar o futuro da humanidade costumam valer-se para traçar um limite. Enquanto Wallace-Wells aponta que será o ano em que haverá a mesma proporção de água e plástico nos oceanos, Yuval Harari diz, por exemplo, que a data coincidirá com estágio no qual o desenvolvimento de inteligência artificial terá superado a capacidade de gestão humana e passará a depender cada vez mais de si própria. Mesmo que as questões ambientais muitas vezes se confundam a séries ou filmes distópicos, é difícil de acreditar que por um passe de mágica haverá uma tomada de consciência global e mudanças efetivas no encaminhamento de soluções para os seres humanos que viverão ou atravessarão este século para o próximo. O desafio, segundo o autor de A terra inabitável, não poderia ser mais tremendo. E como os advogados das soluções estritamente tecnológicas não têm obtido melhores indicadores ou empregado recursos suficientes em prol de sanar os problemas já presentes, o livro de Wallace-Wells cumpre muito adequadamente a função de alertar a sociedade global quanto à gravidade da situação ambiental. Melhor seria se não houvesse razão para alarme, mas, havendo, não é nada mau que seja de forma tão consistente e arrebatadora quanto ele faz.

Eu perdi algo nas montanhas

Sibylle Baier
trad. do inglês

Nos últimos tempos
Eu sempre choro
Quando passo pelas montanhas
Oh, o que as imagens me trazem
Oh, eu espero tanto
Pelas raízes da floresta
A origem das minhas brutalidades

Eu perdi algo nas montanhas
Eu perdi algo..

Eu cresci na montanha
Outros crescem nas cidades
Onde primeiro o amor e a alma surgem
Lá vão os tempos da minha vida
Quando me sentia doida, desvairada
E somente a campina me dava esperança

Quando minha perna passar da grama alta, eu morrerei
Eu vou morrer sob o jasmineiro
Sob a árvore mais velha
Então eu não preciso estar preparada
Eu vou morrer sob o jasmineiro
E sob uma velha árvore
Eu não preciso me preparar para um novo dia
Onde vou preencher a profundidade do que sinto?
Você vai dizer que eu não sou Robin na floresta
Mas como eu poderia não deixar sinais
De que perdi algo na montanha?

Eu perdi alguma coisa na montanha
Oh, eu perdi algo nas montanhas..

Agora eu me inclino no peitoril da janela
E eu choro, embora seja bobagem
E eu estou sonhando completamente..
Oh eu sei, mais a oeste existem estas montanhas
Marcadas por macieiras, sulcadas pela corredeira
Isso me leva aonde eu quiser
Bem, eu perdi algo nas montanhas
Eu perdi algo nas montanhas..
Oh, eu perdi algo..

Mamífera

Domingo à noitinha, quase beiradinha do finalzinho do dia mais melancólico da semana, acho que respondendo a um quiz ou teste no celular, minha filha me embretou numa pergunta das mais complicadas: “Qual foi o momento mais feliz da tua vida?”, perguntou assim, à queima roupa.

É o quê? Deus, mas que pergunta pra pegar a gente desavisado..

De imediato me ocorreu o óbvio, que seria usar de demagogia e encerrar o assunto dizendo que foi o do nascimento dela. Contive-me antes de lançar a mentira, porque o dia em que nasceu seu irmão foi igualmente feliz, sem diferença de escala, sem melhor nem pior. Pensei então que poderia ter sido o dia em que encontrei a sua mãe, quem me propiciou ambos os momentos. E, por extensão, fui pensando que os momentos felizes da vida são aqueles em que a gente se encontra com a experiência amorosa. E que são coisas quase sinônimas, não são? Talvez sejam. Idealmente seriam, é o que se acalenta por aí.

Mas então olhei fixamente pro nada, naquela vertigem em que o passado se desdobra na memória, e então percebi com mais nitidez a imagem e a resposta que pra mim faziam mais sentido: dei num entresono muito antigo, muito remoto, no qual acho que me encontrava febril (ainda que possa ser estranho estar febril e feliz ao mesmo tempo), sem idade certa, mas certamente criança, convalescente, quase dormindo na cama dos meus pais enquanto eles conversam bem baixinho qualquer coisa e eu apenas distinguia o rumor das palavras, mas nada do seu sentido.

Na verdade, não sei dizer se aquele instante de semi vigília foi ou não o momento mais feliz da minha vida, mas ali eu me contentava tanto com a sensação sem necessidade nenhuma de explicação ou compreensão e essa sensação mamífera, comum à natureza, mas estranha, muito estranha à racionalidade e razoabilidade adultas, acho que foi o que me definiu, in vivo, pela primeira vez o estado.

Depois pensei que o mais certo talvez fosse lançar mão de uma vulgarização da relatividade, teoria que acomoda tudo e todos, cada um de acordo com suas referências. Cada um, afinal, experimenta a felicidade como pode. Desde o jardineiro ao cocainômano, desde o compositor de sinfonias ao psicopata. Cada qual vai saciar sua busca por prazer como consegue, ainda que isso extravase muitas vezes o pacto social. Pessoas mais racionais, matemáticas, talvez sejam mais exigentes quanto à felicidade que aquelas mais simples e que pensam com mais simplicidade e aleatoriedade. Isso demonstra muita coisa, menos que exista um modo certo e uma explicação para, por exemplo, existir colunas de auto-ajuda no El Pais Brasil, jornal com o qual implico.

Pra mim, a coisa toda se parece mais a um estado físico, orgânico e biológico. Mais ou menos o oposto da angústia, que se define quase sempre por um aperto no peito. O estado de felicidade eu defino, pelo contrário, como uma sensação de expansão toráxica. No fundo, é como o contraste às más sensações, bem como Freud queria, mas aí já racionalizando a sensação.. E também existe a felicidade intelectual, do esclarecimento, dos insights nos quais tudo se esclarece e pode ser entendido. E também a felicidade da criação, que muitos artistas definem como a um estalo da intuição, ou inspiração.

Seja como for, eu ainda acho que o estado infantil, de despreocupação total, é o mais duradouro dos estados de felicidade. Dura mais ou menos o quanto não seja necessário pensar a seu respeito. E, por indefinível, a gente mal o perceba, mas guarde a sensação como uma experiência, memória e comparativo.

Claramente esse texto é um mix aleatório de parágrafos plagiados da Monja Coen, do Pe. Fabio de Melo, Rubem Alves, et al., com os devidos créditos.

O berro de fera

Foi através da música popular, não da literatura, que por primeiro tomei conhecimento do tensionamento existente entre a expressão cultural negra e sua receptividade social amplo senso no Brasil. A polêmica encarada frontalmente entre as figuras de Noel Rosa e Wilson Batista, nos anos 30, ainda hoje é demonstrativa da dificuldade de trânsito social das manifestações culturais entre a população, desmistificando em muito a noção freyreana de democracia racial e de nação mestiça. Não é curioso, portanto, que este tensionamento tenha persistido e volte a expressar-se na contemporaneidade mesmo sob manifestações culturais não necessariamente originadas no Brasil, como é o caso do rap (rythm and poetry). O fenômeno vem ocorrendo através das décadas, desde o surgimento de Gabriel o Pensador, passando por Marcelo D2 e desembocando em artistas mais recentes, tais como os grupos Haikaiss e Costa Gold, integrados exclusivamente por compositores e cantores brancos.

Por esbarrar ou mesmo adentrar o território das ciências sociais e da política, é muito difícil analisar-se a produção e recepção cultural do trabalho destes compositores sem tomar em consideração critérios sociológicos atualmente muito presentes nos debates públicos nos quais a questão étnico-racial do negro é entrevista. O que ocorre hoje, no entanto, não resulta diretamente da interposição de uma interpretação deslocada, mas da continuidade de discussões anteriores propostas por intelectuais negros e interessados nas questões raciais, tais como as noções de emparedamento, embranquecimento, eugenia e dissimulação. Trata-se de conceitos trabalhados mais ou menos desde os anos 50 do séc. XX e que, na atualidade, parecem ter desembocado numa concepção mais abrangente da vida social, envolvendo desde as práticas culturais até as políticas e micropolíticas.

Desde esse ponto de vista mais sociológico é que tem sido possível analisar em perspectiva a obra literária de nomes que fazem parte de todo o legado cultural brasileiro, como Machado de Assis, Lima Barreto e Cruz e Sousa, para ficar nos mais conhecidos. Seria, em minha opinião, uma miopia, uma espécie de deslocamento, a atribuição de um caráter premeditadamente político na obra desses escritores. Pelo contrário, a mim parece que se trata de processos criativos que ocorreram naturalmente a partir das condições e do desenrolar da própria vida (e também da visão de mundo) dos autores. Além disso, há que considerar a realidade política em que viveram e na qual cada um deles experimentou o drama da distinção racial e a tomada de consciência quanto a isso.

Mesmo que se quisesse, hoje seria impossível reconstituir as condições culturais do princípio do período republicano no Brasil. Por documentos e pela literatura pode-se ter uma noção aproximada do quanto a questão abolicionista mobilizou a vida política e cotidiana daquela época, mas, quanto a compreender-se a intensidade do tensionamento e do trânsito das ideias no âmbito das subjetividades, esta parece ser uma ponderação das mais complexas. Seja como for, a obra destes autores em sua época parece ter ocorrido muito mais por um movimento em direção ao universo hegemônico branco do que pelo contrário. Todos os elementos africanos, aliás, permaneceram marginais à cultura letrada e somente mesmo na música popular e no apogeu da era do rádio se fez notar pelo reconhecimento da musicalidade de origem negra, como o maxixe, o choro e principalmente o samba. Voltamos, dessa forma, ao pugilato verbal e musical entre Noel Rosa e Wilson Batista recentemente reencenado pelas discussões em torno da primazia dos negros no rap e do embranquecimento do estilo por artistas brancos.

Se desde um ponto de vista ideológico e contemporâneo a produção cultural dos autores negros da virada do séc XIX e princípios do séc. XX parece ter ocorrido sob uma tendência inexorável de modernização política, por outro parece muito claro que a legitimação dos elementos culturais negros no Brasil tem historicamente passado pelo crivo de intérpretes brancos. Não se trata de culpabilizar nem mesmo justificar a expressão discriminatória através do complexo contexto histórico de um mundo dominado pelas ideias eugenistas de superioridade racial, no entanto a manutenção dessas condições atesta em muito a falência do mito da democracia racial em horizontalizar as condições materiais e culturais de uma imensa parcela da população identificada como negra.

O fato notório de desperceber-se deliberadamente tais condições – como expressas atualmente em outros campos culturais -, apenas corrobora, portanto, a percepção de uma sociedade alicerçada nas distinções de classe, mas também raça, também gênero e também relevância política. É daí, penso eu, que a cultura literária negra ou afrobrasileira, não pretendo me deter aqui nessa distinção, aferre-se como patrimônio de uma identidade fragmentada, de um país que não hesita em vender-se externamente como exemplo mais-que-perfeito de convívio solidário, mas internamente sobrevive pela manutenção do status quo da discriminação e do preconceito.

Dessa forma, pelo menos em meu ponto de vista, penso com muita consideração na literatura e manifestações culturais contemporâneas de cunho mais militante, engajado. Não penso realmente que toda a literatura deva ser militante direta ou indiretamente, mas que se reconheça que este não é um fenômeno gratuito e que decorre da necessidade de denúncia e reconhecimento público de uma realidade constantemente sonegada: o racismo em suas diferentes formas. Discordo, todavia, que toda a arte produzida pelos negros deva necessariamente reivindicar este papel político e que não tenha por sua conta outros atrativos estéticos, porém reconheço a necessidade de que assim se manifeste sempre que desejar. É que simplesmente é intolerável que ainda hoje exista quem pretenda transformar a cultura negra e seus traços peculiares num “feitiço decente”, como desejava Noel Rosa e insistir em domesticar o tão salutar e necessário “berro de fera” “que vem de longe pra nos fazer companhia”, como cantou Milton Nascimento. É que estar junto, no mundo social, implica em muito em ouvirmos uns aos outros. Eliminando-se isso, o reconhecimento dessa necessidade, como poderíamos coletivamente nos entender e evoluir socialmente? Fica a dúvida. E é bom que fique.

O canto dos helenos

No que mais é estranho (e ao mesmo tempo familiar) na ancestralidade greco-latina da cultura ocidental, a poesia, comparando-a a outras manifestações tais como a arquitetura ou a escultura, exibe-se ao observador contemporâneo inexperiente como a mais incomparável das artes. Resultante de uma musicalidade inaudita, da confluência de diversos idiomas, dialetos e de um apuro técnico-performático que ainda hoje, dadas as condições materiais da antiguidade, parece exageradamente elaborado, a poesia grega chama a atenção pela abrangência temática e, simultaneamente, por sua dadivosidade formal. É possível que possa situar-se no repertório, no conjunto de ideias mitológicas e históricas e também numa muito peculiar forma do humano perceber e lidar com o seu destino terreno a maior identificação que o sujeito contemporâneo pode estabelecer com esta poesia que, ao ouvido despreparado, soa incomum e pouco familiar, muito embora a partir e através dela tenham ocorrido as mais duradouras contribuições gregas ao mundo ocidental desde as obras de Homero e dele para as demais derivações da poesia grega como hoje pode ser concebida e estudada.

Se a difusão e fixação da cultura grega letrada derivaram diretamente da larga influência militar que Alexandre estabeleceu ao dominar um imenso território que compreendia desde o Egito até as fronteiras indianas, foi na culminância da Biblioteca de Alexandria, com o trabalho de Zenódoto de Éfeso (325 a.C. – 260 a.C.) que a Ilíada ganhou o que parece ter sido a sua primeira edição comentada. Além do trabalho do próprio Zenódoto, muitos outros estudiosos trabalhavam em Alexandria e, portanto, foi apenas em meio ao período helenístico que foram consolidadas, por escrito, as mais diversas contribuições épicas, líricas e elegíacas que formavam o grande conjunto a que se pode denominar por “poesia grega”. Infordunamente, apenas uma pequena parcela de todo esse conjunto de papiros e pergaminhos restou após os muitos saques e incêndios que acabaram por destruir completamente a Biblioteca e quase completamente suas coleções, conservando-se apenas aquela parte preservada no templo de Serápis, como a obra de Aristóteles, por exemplo, e cópias que a Biblioteca fornecia para coleções particulares.

O que se pode depreender, dada a extensão e qualidade deste pequeno legado que chegou ao tempo presente é que, incomparavelmente a outras civilizações, a cultura grega no seu apogeu chegou a contar com registros de qualidade formidável que tanto serviam para a educação dos cidadãos quanto como fonte de estudo para intelectuais. No entanto a circunstância histórica (e religiosa) acabou por sobrepujar e sufocar no ocidente a expressão de todo aquele arcabouço, permanecendo em estado de latência até a Renascença, sobretudo graças aos estudiosos bizantinos que o conservaram em meio ao período medieval.

Muito antes disso, isto é, desde Homero e Hesíodo, os dois principais nomes da épica no período jônico e dos poetas líricos do mesmo período que a diversificaram em suas formas mais conhecidas, como a elegia, a ode e os iambos, a poesia grega floresceu quase toda se valendo da tradição oral. Isto apenas foi possível porque então o que hoje se denomina por “poesia” integrava um conjunto de práticas performáticas que, aliadas à dança e a execução musical, consistiam no principal meio de propagação cultural e entretenimento de que os gregos dispunham. Grosso modo (muito grosso modo), equivale a afirmar que neste período da história grega, de paz militar, prosperidade econômica e efervescência cultural, os eventos públicos, competições e simpósios multiplicavam-se e, dessa forma, foram consolidando-se os nomes dos aedos que perduraram, principalmente no período de maior efervescência da tradição lírica, chegando mais tarde à performance teatral mais complexa na encenação das tragédias e comédias do período ático.

Muito embora atualmente seja bem mais simples para os estudiosos a identificação e sistematização de nomes, gêneros, estilos e tendências, em seu tempo a proliferação literária ocorria muitas vezes de modo simultâneo e os autores de que hoje restam versos e bustos provavelmente privaram uns dos outros, o que por si só parece fabuloso. Todavia nem por isso houve um florescimento absolutamente espontâneo, e a poesia grega deriva e reflete diretamente o espírito histórico das experiências políticas, militares, filosóficas, até lançar-se propriamente à expressão lírica, na autoafirmação individual que consiste no ideal de liberdade como ainda hoje é concebido no ocidente. Apesar do caráter paidêutico e da sofisticação social que os gregos aspiravam para a sua cultura, foi a poesia que restou como testemunho direto daquele modo de vida que repercutirá, por certo, até os estertores da vida terrena.

Neste intervalo, o eco duradouro da poesia grega, com seu metro estranhamente musical e peculiaridades formais e temáticas, será sempre uma oferta ao futuro do que o homem já pode fazer de si mesmo enquanto indivíduo e experiência histórica. Cada qual a seu modo, seja nos cantos de honra de Calino de Éfeso, no chamado militar de Tirteu, na vida aristocrática de Teógnis de Mégara, nos iambos satíricos de Arquíloco, nas odes de Safo, Alceu e Anacreonte, na lírica coral ou na magnificência da representação teatral, há muito mais que a mera conquista e elaboração de uma marca pessoal de cada um deles. Há, por outro lado, a noção irrefutável (e irrecusável) de que o “cadinho” da poesia grega clássica ainda nos pertence e, como nos é possível, continuamo-la.

Algo em mente

Karen Dalton (1937-1993)
trad. do inglês

Ontem
De qualquer modo você o fez, está tudo bem
Eu vi você transformar seus dias em noites
Você não sabia
Você não pode fazer isso se não tentar
E algo está em sua mente, não é assim?
Um dia desses você vai ver que estava quebrando a cabeça
Deixando todos os seus sonhos para trás
Você não viu
Você não pode fazer isso se não tentar
E você tem algo em mente, não é?
Talvez num outro dia você vai querer sentir de outra maneira
Mas você não pode parar de chorar
E você não tem uma só coisa a dizer
E sente que quer fugir
Mas não adianta tentar, de qualquer jeito
Eu vi o que está escrito na parede
Quem não puder se manter sempre irá cair
Você não sabia?
Você não pode fazer isso se não tentar
E você tem algo mente, não é assim?
Você tem algo em mente, não tem?