Baldio

A voz melíflua das águias
pousa bem antes das garras.

O vento tépido de Gobi
em Pequim, antes de Polo.

O sorriso do búfalo
navega na lama, baldio.

Em detalhe
nunca nada é o que parece

e só mesmo os loucos esperariam
o preenchimento nulo da noite.

Outbox

Há uns dia recebi um e-mail (há quem ainda o use) de uma pessoa que nunca me viu e eu nunca vi e que, mesmo assim, dizia sentir falta de mim. Não, não se trata de uma paixão platônica, nada disso.. Trata-se de alguém que se acostumara a ler textos que até há pouco eu costumava escrever sobre um assunto que me é ainda muito caro: a inclusão social e educacional das pessoas com deficiência.

Assim como eu, ela tem um filho com síndrome de Down e disse que eu sempre a ajudara (sem saber) com as coisas que eu escrevia. Hoje, me parece um pouco incrível que alguém pudesse sentir-se apoiado pelas coisas que tenho escrito: implicâncias, epifanias e até mesmo ironias. Mas isso não está em quem escreve decidir, e sim em quem lê. Então se ela disse, não tenho razão para lhe contradizer. Falou, tá falado.

Só que a menor vaidade que eu possa sentir quanto a esse e-mail está soterrada por uma resposta que ainda não consegui redigir. Por que mesmo não escrevo mais sobre inclusão, se foi o tema que justamente me fez voltar a escrever após longos, longuíssimos anos de silêncio branco? Por quê? Por quê? Desculpem a repetição, é apenas eco. Reverberação. A pergunta martelando respostas como prego fraco em madeira de lei. Por quê?

Eu realmente não sei. Não tenho uma resposta exata. Tenho apenas suposições que, todavia, não me demovem desse distanciamento. Mas por que isso? Também não sei. Só mesmo suposições que não ajudam nem a mim mesmo, então não sinto que deva externalizá-las como se fossem conclusões. Só tenho a dizer sobre isso uns achismos. Achismos são pensamentos toscos, inacabados e muito particulares. Às vezes até incompreensíveis. Então pode ter muita bobagem misturada no que lhe diria. Com certeza teria..

O que eu acho, talvez em primeiro lugar, é que não tenho uma boa palavra nesse momento, para oferecer.. Acho que vivemos em tempo sectários e se há um antônimo para “inclusão” não é a mera oposição do termo “exclusão”, e sim o sectarismo. O mérito dessa definição não é meu, mas do filósofo chinês Confúcio. Isso está em algum trecho dos seus Analectos.

Superar o espírito sectário me parece muito mais difícil do que superar a exclusão, que é uma condição social. Não porque eu prefira, mas, na contemporaneidade, o tanto que se diz por aí a respeito de “inclusão” transformou-se em instruções formais amparadas em algumas leis e mediadas por relações comerciais. E mesmo quando as pessoas valem-se dos serviços públicos estão mediando suas relações pela contraparte do que o estado tem a oferecer em troca dos seus impostos. Então há uma relação comercial também nesse caso. A não ser numa vida autóctone, portanto, não me parece haver meios possíveis de superar essa condição. A onda homeschooling, claro, não tem nada a ver com isso, afinal não é uma modalidade gratuita. O assunto até tem alguma relação, mas acho que não nesse ponto.

Já integrei movimentos sectários na minha vida e não me fizeram bem. Também tenho certo caráter dissociativo, dissidente, que me dificulta acatar consensos quando me parecem equivocados ou mal intencionados. Acho que a transformação de uma situação real, vivida, numa disputa conceitual também implodiu com a noção de um discurso preciso, do qual abri mão porque também lá pelas tantas já não me fazia bem empunhar um discurso político, formalista, a despeito da situação real das pessoas, cada uma delas discordante em trajetória, condições materiais, cognitivas, de saúde, etc, etc, etc. Seria uma violência continuar participando dessa barganha (não política, mas moral) e embora não me arrependa das brigas que comprei e de nenhuma vírgula que redigi nessa década, comigo precisou ser assim.

Há também a questão de sombreamento de uma política pública de governo com um movimento em essência conflitivo. Nessa relação de forças, pelo menos no Brasil, sempre a política acaba submetendo a esfera pública e o conceito inclusivo aposto, explicativo, perde muito do seu elã (essa palavra eu tirei do arcabouço materno), fica meio fantoche. Na prática, não há muito protagonismo nem autonomia, mas pessoas sendo conduzidas por processos nem sempre transparentes e que move uma máquina de recursos púbicos (e também afetivos) que pouco ou nada destina-se a melhorar as condições de vida das pessoas. Muito mais à tecnocracia, mas isso também é outro assunto. Só que a politização da questão danificou terrivelmente seu caráter intrínseco, como status social por desejar. Então continuar essa busca é, para mim, como a busca por uma miragem, algo que tem a aparência da coisa mas nunca consegue ser a coisa que aparenta. E assim por diante. Isso reduziu um anseio social a um “faça como puder, você estará sozinho nessa de qualquer jeito”. O conceito revolucionário, o sonho, rendido e constrangido pela realidade. E mercantilizado também. Muito mercantilizado.

Fora isso, ainda há o balcão de negócios que políticos costumam fazer sem nem disfarçar, mesmo quando são práticas nocivas ao convívio democrático. Nada constrange esse pessoal. Não adianta gritar nas redes sociais. Há um muro aqui, um backwall, uma quarta margem intransponível ao cidadão comum. Você, amigo, que luta ou pensa lutar contra essa estrutura, acostume-se a ser uma aberração na matrix. Lá pelas tantas, foi assim que passei a me sentir, como alguém portador de dissonância. Portador aqui, aliás, no sentido exato do termo.

Eu não sei. Não ganhei um centavo só com ativismo. Pelo contrário, muito mais gastei e me gastei. Ganhei foram alguns e-mails que embrulham a garganta por dentro, mas isso não conta para nada nem ninguém a não ser eu mesmo. Não se trata de recompensa nem de reconhecimento, mas de não se sentir enganador, de me sentir um pouquinho verdadeiro, mais real do que posso ver ao espelho. Essa, sim, me parece uma boa sensação.

Tive a sorte de ter me envolvido com esse assunto com a radicalidade que o tempo exigia, de fazer valer pelo conteúdo mais até que pelo mérito. Mas todo esforço coletivo hoje foi pulverizado em projetos pessoais, em “compartilhamento” em redes sociais. Chega uma hora que a gente entende que gastou sola do sapato demais, só isso. Tem ainda a questão do preconceito social e a impressão que o mundo caminha mal não só por culpa da extrema-direita ascendente, mas que essa ascensão seja a irradiação de energia perigosa que passamos a compartilhar também, individualmente, mesmo que sem percebê-lo e mesmo que pareça sempre muito positiva. Viver no Brasil me parece ser, de certo modo, cada vez mais viver num estado de negação positivada, solarizada. É um não (ou nãos) valendo por sim, mas sem um sim correspondente. Ficou tudo muito estranho e difícil, mais fácil e simples dizer. Sinto também que é preciso agir, mas sob outros significados, outros contextos. Fazer nascer algo novo. Se for para dar parte nisso, nesse milagre, e não em reviver e continuar o que nos trouxe aqui, contem comigo.

Mas o certo, o adequado, seria dizer algo bem menos complicado. É uma pessoa muito simples, a minha interlocutora, não uma pensadora sofisticada. Ou uma acadêmica. É uma mãe, nem sei sua profissão, só que seu filho tem mais ou menos a idade do meu e que ela continua esperando de mim uma palavra que não sei se posso ainda dar. Nem um testemunho perfeito, um exemplo, tenho a lhe mostrar. Só uma tentativa que às vezes dá certo, às vezes não. O assunto, claro, será sempre caro para mim. E importante, sem dúvida. É bem por ser tão caro assim que não tenho mais escrito sobre. Seria o certo a dizer nessa resposta. E enviá-la. Mas ainda está faltando a coragem de apertar o botão “Enviar” e assumir que cheguei mesmo a esse ponto final.

02.07.2019

“Marrom e Amarelo” e o racismo no Brasil dos anos 10

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 11/01/2020.

O mais recente livro de Paulo Scott, Marrom e amarelo, publicado em 2019 pela Companhia das Letras/Alfaguara, é um livro que não deixa muitas dúvidas, mas deixa algumas (e é bom que as deixe). Desde o primeiro parágrafo, quase um libelo, logo se fica sabendo de sua intenção política: a denúncia da persistência do racismo estrutural no Brasil dos anos 10. É indubitável. Ainda assim, é dessa mesma certeza que provém o seu maior potencial de questionamento e que aos poucos prolifera em dúvidas dirigidas, por sua vez, aos leitores. É que é impossível deixar de pensar em como, ao final de um período político histórico em tese favorável às questões relacionadas aos direitos humanos, não se conseguiu debelar a semente dura, aparentemente inabalável, do racismo em sua forma brasileira.

Ambientado na Porto Alegre contemporânea, o romance é protagonizado por dois irmãos que se reúnem justamente em função de libertar a filha de um deles (sobrinha e afilhada de outro). Ela acaba de ser presa por envolver-se em manifestações políticas emergentes realizadas em torno à desocupação de um prédio no Centro Histórico de Porto Alegre e o responsável pela prisão é justamente um antigo conhecido e desafeto dos irmãos.

Contrapondo experiências de duas gerações de ativistas, o romance de Scott coloca em comparação momentos distintos da história brasileira e também do ativismo negro, apesar de que temporalmente bastante próximos. O primeiro, anterior, e que remonta à redemocratização e aos anos 80 e 90 do séc. XX; o outro, recente, forjado no Brasil pós-2013, no qual uma jovem ativista equipada tecnologicamente vê-se ainda às voltas com o drama inarredável do preconceito e da discriminação.

O romance, no entanto, diz muito mais do que o produto dessa justaposição e desse desconforto político. Lido assim parece resumir uma pedagogia que, de fato, não corresponde ao painel que indiretamente ele conta da vida de uma das capitais com menor distribuição étnico-racial do Brasil. De acordo com o IBGE, Porto Alegre é capital do estado brasileiro com o menor percentual de pessoas pardas em sua população, isto é, de pessoas com múltiplas ascendências étnicas (10,6%). O número de autodeclarados negros também está entre os menores da federação (5,5%). No Brasil inteiro, não poderia mesmo haver cenário mais favorável para um convívio social tão conflitivo.

No livro de Scott, essas diferenças falam da geografia dos bairros de uma cidade ocupada de forma radicalmente diferenciada, mas ainda mais de uma cultura cindida, pouco solidária e, por isso mesmo, violenta. De um lado, toda uma estrutura inacessível e refratária dos bairros ricos e de classe média, dos clubes, das instituições tradicionais da cidade. De outro, as ruas, as escolas precárias e vidas familiares permanentemente acossados por várias espécies de agressão, desde a violência casual, o tráfico, o permanente convite à delinquência e a violência institucional. É curioso, aliás, o modo pelo qual Scott nomeia insistentemente, ao longo do livro, nomes de siglas por extenso. É forma, talvez, que encontrou de imprimir no papel a certeza de que o racismo estrutural chama-se dessa forma justamente por agir muitas vezes desde e a partir das estruturas e instituições sociais e políticas.

Mesmo com um pano de fundo como este, resumi-lo como um livro de denúncia, no entanto, significaria apagar a intensa vitalidade conduzida pelo narrador/protagonista. Seja quando participa da burocracia estatal e manifesta sua crise para com as discussões políticas destinadas ao acesso por cotas ao ensino superior, seja quando retorna à cidade natal e percebe intocada a cultura discriminatória e o cotidiano de pequenas violências, Federico precisa reaver-se com o próprio passado e com as diferenças afetivas com o próprio irmão Lourenço. Não bastasse isso, os dois irmãos são também diferentes na cor da pele (enquanto Lourenço a tem mais escura, Federico é mais claro e tem cabelo liso) e, principalmente, na forma como encararam o drama do racismo individualmente.

Por meio de muitas idas e vindas ao passado, o romance chega a uma culminância muito mais afetiva do que política. É no seu reencontro com a família, os antigos amigos do Partenon e com a projeção das dificuldades enfrentadas agora pela sobrinha que ele precisa tomar a decisão de reirmanar-se aos seus e voltar ou não a viver em Porto Alegre. Até chegar a isso, Scott terá reconstruído uma história e um lugar para Federico que extrapola em muito a jornada pessoal e diz respeito ao destino comum daqueles com quem se importa. O impasse ético de Federico não poderia ser mais crucial. Dividido entre a possibilidade de fixar-se longe de todos, num ativismo cada vez mais anódino e burocratizado, ou a de estar disponível à sua família e comunidade, Federico é recolocado à força nos trilhos da história por problemas tão antigos quanto reincidentes. Suas dúvidas, apesar disso, são o que lhe fazem mais humano e, por tabela, resolvem o romance não numa equação previsível, mas por uma trama que se mostra convincente porque derivada da complexidade inerente às relações humanas e políticas quando tomadas honestamente.

 

Livros de viagem

Em 1910, muito antes que os primeiros youtubers e coaches literários pisassem sobre a terra, Robert Musil tinha os nervos quase em colapso após uma experiência que transcreveu mais tarde para o seu O homem sem qualidades. No que no livro ele chama de “hospício de livros”, Musil viveu a experiência real de ser um dos bibliotecários da Universidade Técnica de Viena, cargo obtido após o sucesso do biográfico O jovem Törless. Segundo seus biógrafos, parece que lá ele projetava ter o sossego necessário para desenvolver seus posteriores projetos literários. O trabalho, no entanto, acabou revelando-se exasperante em vista da segunda explosão bibliográfica ocorrida logo após a Revolução Industrial (a primeira ocorreu no séc. XVII com a popularização da prensa). Lendas contam que ele redigiu as mais de mil páginas de O homem sem qualidades também como vingança pela extenuante experiência laboral catalográfica na “bibliografia das bibliografias”.

Mais de um século após, e com a sobreposição da revolução tecnológica (sem que a industrial tenha jamais pausado), pense-se no quão exasperante pode ser a um ser humano dotado de apenas um cérebro e uma vida indicar, que seja, apenas um livro a alguém, não interessa quem. É uma tarefa efetivamente impossível e, dada a recente compulsão por listas de recomendações, às vezes parece que estamos todos a tentar compilar a “lista das listas” como se esta fosse a finalidade em si mesma da leitura ou, como em Musil, a única leitura possível.

Objetivamente, tudo se resume ao critério da ignorância, ou seja, todos reconhecem que é humanamente impossível ler todos os livros ou ter absoluta certeza de que o próximo da lista, qualquer que seja ela, não pudesse ser muito superior ao precedente. Como solução para o impasse que vem desde Alexandria, literatos costumam valer-se de recomendações canônicas enquanto que leitores comuns, por outro lado, parecem mesmo tentados a cada vez mais procurar outras fontes de lazer. É pelo menos o que tem demonstrado os achados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada numa parceria entre o IBOPE e o Instituto Pró-Livro e que deve ser reeditada no ano de 2020.

Nessa dissociação, todavia, todos conseguem decodificar rapidamente os males que se refletem na vida de cada um decorrentes da deterioração do hábito de leitura. Não raro se aponta que muitas dificuldades do mundo contemporâneo também possam ter alguma relação com as capacidades intelectivas obtidas (ou perdidas) pelo hábito e, especialmente de ficção e poesia, cujo efeito já foi equiparado por neurocientistas a terapias que retardariam o declínio das funções cognitivas e poderia ajudar a prevenir inclusive condições como ansiedade e depressão. Seja na aquisição de capital cultural ou no aprimoramento das capacidades interpretativas, também dificilmente alguém se oporia à ideia de que estimular a leitura é condição fundamental para a melhoria de toda a vida social. A constatação é das mais banais. Enfrentá-la é que são elas.

Uma das perspectivas em evidência obedece à lógica que o sociólogo francês Pierre Bourdieu denominou em seus livros por “distintiva”. Quase toda ela reside na vantagem social e simbólica decorrente do acúmulo de capital cultural, mesmo desconsiderando variáveis perspectivistas. Embora pareça ser a preferência entre literatos e adictos, não raro os leitores comuns a interpretam como afetação e objetificação, portanto há que se ponderar em seu uso com objetivos de convencimento. Em tempos de guerras culturais, a perspectiva compete muitas vezes mais na autoafirmação pessoal que num efetivo interesse de disseminação do hábito. E, considerando-se que a interpretação costuma ser a primeira baixa e a mútua incompreensão a principal moeda corrente das comunicações digitais, é relevante pelo menos que se tenha ciência dos limites “pedagógicos” interpessoais, mesmo em face dos melhores objetivos.

Outra perspectiva em questão, bibliófila, trata de um estímulo positivo e direcionado à difusão do hábito de leitura, revalorização das bibliotecas em detrimento da tecnologia e iniciativas mais convidativas que pedagógicas. Nos últimos tempos, talvez ninguém como o argentino Alberto Manguel, atual presidente da Biblioteca Nacional Argentina (cargo já ocupado por Jorge Luis Borges), encarne o papel de divulgador literário, principalmente depois da morte de Umberto Eco.

Uma ideia defendida por ele, de que muitas vezes os livros ensinam mais dos lugares e culturas remotas do que até mesmo podem fazer as viagens, pode servir de consolo para quem, em tempos difíceis, sequer pode viajar a lazer. Mas o que ele deseja dizer é que a espécie de viagem que sobretudo a leitura ficcional permite fazer é muito diferente da que é disponível em sua forma consumista.  Ou seja, viajar “estando” num outro mundo, não apenas “visitando-o” e “reportando-o”. Desse modo, e contrariando a tendência predominante que nos condena a estar na mesma posição em qualquer lugar, ou seja, consultando um smartphone, a leitura de ficção pode efetivamente transportar a mente, principalmente se por meio de histórias interessantes e, melhor de tudo, ciceroneada por pessoas habilidosas como são os bons escritores.

Por outro lado, é preciso lembrar que a leitura de literatura e ficção é apenas parte do conjunto de livros que há para ler e se o declínio do hábito de leitura se deve às exigências culturais cada vez mais indisponíveis, não se pode esquecer também do principal vilão evocado quando o brasileiro dá a conhecer sua média de três livros por ano: o tempo. Ao lado da irrefutável imensidão de oferta de títulos, é preciso igualmente usar de honestidade ao admitir a prevalência de outras leituras e fontes de lazer. Tudo a competir com o tempo e com as escolhas de cada um em gastá-lo.

Já o mundo não é o mesmo do crítico Émile Faguet, que recomendava que, para aprender a ler, “é preciso ler bem devagar, e em seguida é preciso ler bem devagar e, sempre, até o último livro que tiver a honra de ter sido lido por você, será preciso ler bem devagar”. No país que mais usa ansiolíticos no mundo, convenhamos que é uma recomendação para lá de inquietante. Embora o prazer da leitura venha sendo nitidamente substituído por outros prazeres e compulsões, talvez seja possível um exercício justamente de tempo para levar a efeito uma atividade que inicialmente possa ser assombrosa como, por exemplo, a leitura das mil e tantas páginas de O homem sem qualidades – ou qualquer outro livro.

Nesse exercício, é desnecessário realizar uma equação das recomendações de fim de ano das pessoas mais respeitáveis do ramo. Recomendável também ignorar as listas de mais vendidos ou livros premiados. E, mais importante que decidir por comprar, por tomar emprestado de um amigo ou de uma biblioteca ou mesmo de livros já lidos e relidos, importa aproveitar qualquer livro como passaporte para uma viagem na qual lhe podem acompanhar as mentes mais imaginativas e poéticas com que o mundo já contou, em direção a lugares do mundo que nunca se tenha pisado antes ou mesmo que já não existam mais, quer seja num país distante ou no bairro ao lado. Este privilégio impagável de tomar parte nos dramas e alegrias humanas requer o sacrifício de penhorar, quando possível, apenas o tempo que mais tarde seria lamentado como perdido.

Livros de vidro

Com o tempo branqueando em definitivo o que restou de minha cabeleira, vou concordando cada vez mais com Guimarães Rosa, que disse literalmente que “um autor jamais deveria falar de outros autores, mesmo que não os aprecie. Disto não resulta nada de razoável; penetra-se em mundos estranhos, e isto não conduz a nada.” Bem se vê que o escritor de Cordisburgo tentou sempre conservar a elegância interiorana, que reside praticamente toda no recato e na prudência.

Eu já cometi o deslize do elogio, mas agora o evito como o diabo foge da cruz. Nem por isso assumo o outro lado da moeda, de quem vive a perseguir a falha alheia, e apontá-la como um facho de luz em noites de lua nova, em público e tampouco em privado. Não faço isso porque sei dos meus muitos erros e fraquezas e já experimentei infelizmente o ruído do meu próprio telhado de vidro se espatifando. Não digo que seja a pior coisa do mundo (a autocrítica é muito pior), mas é, dos aprendizados, um dos mais desagradáveis.

Por essa razão, ainda como Guimarães Rosa, não acho mais possível falar da literatura dos contemporâneos. Melhor e menos comprometedor falar dos que já morreram e o tempo não pode dissolver. Ou então, como tenho tentado fazer, falar apenas de tendências ou de livros de não-ficção, ainda que custe estudá-los, mas, por isso mesmo, o que se pode revelar mais proveitoso.

Por agora, a se confirmar a tendência de uma literatura cada vez mais politizada, engajada, comprometida com ideias políticas, o terreno dos comentadores de livros (onde me insiro, lances de escada abaixo dos verdadeiros críticos) vai ficando cada vez mais movediço. Eu, pelo menos, assumo meus problemas com isso tudo.

O que eu quero dizer é que o meu problema com a literatura politizada, engajada, identitária e etc. é que, a meu ver, ela coloca um xeque-mate de partida a qualquer olhar crítico. Ou seja, ela não se coloca em jogo, mas confunde-se completamente em autoria, enredo e estilo. Essa opção autoral (que não questiono) torna impossível dissociar efeito formal e efeito político, mesmo que não signifique que seja a única ou a forma por excelência de abordar questões políticas na literatura.

Quer dizer: é impossível segmentar o olhar em direção ao objeto porque então o leitor ou se vê no impasse de comprar o livro como um pacote, ou parece escamotear uma interpretação política quando poderia (ou até deveria) ser apenas formal. Essa é a faca de dois gumes da literatura politizada e eu, embora sinta vontade de comentar bons livros que tenho lido nessa linha, penso que, sendo assim, é melhor evitá-lo. Apenas lamento que a crítica então se resuma a uma que só possa ser feita ao apanágio da simpatia ideológica (como equivalentes a likes das redes sociais, mas talvez seja essa espécie a única crítica literária possível), ou outra toda reunida na pecha de reacionária.

Se então foi-se mesmo o tempo em que se podia compreender a ficção como ficção, poesia como poesia, religião como religião, filosofia como filosofia e assim por diante, não é que os livros estão deixando de ser impressos em papel, mas gravados em vidro polido e repolido e repolido e assim por diante também. Bem dizia Rosa, é bem melhor falar de Flaubert, Dostoievski, Tolstoi ou dele mesmo e outros que já não são de vidro, mas de bronze mesmo. Pelo menos assim não resta dúvida de que não se vão quebrar.