Heterogêneses de Björk

Dos músicos em geral é costume dizer que estão preparando novos discos, mesmo que em boa parte dos casos trate-se, a bem da verdade, em coleções de singles que nem sempre guardam entre si uma sonoridade comum ou identidade. Já quando se fala que é Björk quem está preparando algo novo, não se pode pensar apenas num disco, deve-se alargar de imediato a expectativa sobre esse “algo”, além de procurar-se não classificá-lo prematuramente. Pois Björk está lançando seu novo algo em forma de álbum: é o décimo primeiro de sua discografia. Mesmo sem contar ainda com nome ou capa, a islandesa o anunciou recentemente, no começo de agosto, em suas redes sociais.

Desde o último equinócio de setembro (21/09/2016), ao mesmo tempo em que se preparava para iniciar na Somerset House, em Londres, uma exposição imersiva em realidade virtual de parte do seu repertório, entre 1 e 23 de outubro, Björk subiu ao palco do Royal Albert Hall, também em Londres, para o que talvez fosse melhor chamado por “aparição”, ao invés de um show. Foi quando começou a desenhar-se algumas das sonoridades que estão prestes a materializar-se neste seu novo álbum, ainda inominado.

Ali, como uma sacerdotisa que há tempos logrou por meio dos seus experimentos conceituais unir a um tempo só a mais avançada tecnologia e a mais recôndita biologia, usando uma máscara luminosa e vestindo o que pareceu a Neil McCormick, do Telegraph, uma flor ou uma anêmona marinha, ela cantou músicas do seu mais recente disco, Vulnicura (2015) e também apresentou inéditas acompanhada apenas pela orquestra de cordas “Aurora”, sem mais artefatos tecnológicos. Em Vulnicura, disco no qual registrou os momentos derradeiros de seu relacionamento com o cineasta e artista plástico Matthew Barney, há quase uma liturgia sentimental dando conta de uma experiência demasiadamente humana que colocou em evidência, bem mais que nos trabalhos anteriores, a pessoalidade intrínseca da islandesa. É como se a experiência tivesse minado um pouco do apelo quase extraterreno da estética da cantora e de sua obra.

Neste novo disco, por declarações em entrevistas e em suas redes sociais, Björk parece que investirá em sonoridades mais amenas e introspectivas, reflexo direto do seu novo momento de vida. Ainda assim, ela tem dito que seu processo criativo continua basicamente o mesmo, nascendo de longas caminhadas que empreende nas montanhas da Islândia, sua terra natal. Certo que, por isso mesmo, é possível contar-se desde já com melodias decompostas e tão estranhamente eficazes quanto as de seus discos anteriores. Também não se deve imaginar que ela repetirá no registro de estúdio a fórmula acústica de suas aparições ao vivo. Aliás, é dessa síntese ambiciosa entre a natureza mais intratável e a tecnologia mais virtual que ela consolidou ao longo das últimas décadas a sua peculiaridade sonora: insuportável para muitos e objeto de veneração para outros tantos.

Não é nenhuma novidade para seus admiradores diletos encontrar na paisagem sonora proposta por Björk argumentos comunicativos ao mesmo tempo áridos e biológicos. Eles estão presentes desde seus tempos mais ligados ao acid e ao trip-hop da banda Sugarcubes e que vão se encontrar, mais tarde, com o que se pode chamar de reestreia da cantora. É com Vespertine (2001) que ela finalmente consolida o casamento entre a sonoridade esdrúxula dos cânticos viscerais do folclore nórdico e as vertentes tecnológicas da música eletrônica no nascente século XXI, emplacando singles (e escândalos) com os clipes de Cocoon e Pagan Poetry (em função de cenas de nudez e de uma possível conotação sexual). Neste mesmo ano, ela e Matthew tiveram a filha Isadora, cuja guarda vêm sendo disputada pelo ex-casal desde a separação, em 2013.

Por outro lado, entre seus muitos detratores, há quem acuse a cantora de estar sempre buscando os holofotes da mídia. Isso principalmente desde que, na premiação do Oscar em 2001, surgiu no tapete vermelho trajando um vestido que mimetizava um cisne cujo longo pescoço enlaçava o seu. Também o uso de uma panaceia eletrônica de seus áudios e vídeos é motivo de recorrente simplificação, debitando-se a isso o que poderia ser uma clausura de estilo. Talvez por isso mesmo, para contrariar seus críticos, ela eventualmente lance-se em aparições inteiramente acústicas, como esta recente no Royal Albert Hall. Se há, de fato, uma fetichização do tecnológico em Björk, também é inegável que seu uso não é casual, mas cumpre diversos objetivos estéticos, como a fuga ao simples e a constituição de uma performance contínua, na qual às vezes ela consegue situar-se no futuro insondável, ao invés de simplesmente adotar a repetição de motivos desgastados e bem conhecidos pelo pop.

Nessa cruzada, muitas tecnologias passaram pelo seu olhar e pela sua manipulação. Desde filmagens obtidas no interior do seu corpo, como em Mouth Mantra, até a extensa materialização espacial de Oceania  sempre com o apoio de referências experimentais, como a poesia do norte-americano E. E. Cummings ou músicos da vanguarda hi-tech, ela agora parece querer ir desaguar seu arsenal criativo no terreno da realidade virtual. Na sua exposição, atualmente em Londres e que deve percorrer cidades da Europa e de outras partes do mundo, óculos de VR são distribuídos aos visitantes que são convidados a imergir hipersensorialmente no seu universo criativo. E, para além disso tudo, há sempre a sua musicalidade inconfundível.

Ao contrário de um tempo em que o avanço tecnológico é um tanto temido por ainda inconcebíveis que pareçam suas possibilidades, o gesto de atirar-se a ele sem freios vem mesmo conferindo cada vez mais a Björk o status de sacerdotisa da tekhnè. Como ela não o recusa, pelo contrário, consegue sempre renascer e ressurgir dentro dessa perspectiva, é como se ela concretizasse o que Pierre Levy chamou no seu Cibercultura de “heterogênese virtual”.

Como poucos outros artistas parecem conseguir, ela vem mantendo em paralelo as duas vidas, como se pertencendo a dois mundos, e conseguindo trazer ao insípido mundo dos bits tantos as dores humanas de uma separação quanto a certeza de que continuaremos sendo sempre seres biológicos. Este talvez seja o grande casamento que ela tem celebrado ao longo de sua prolífica e premiada carreira (além de inúmeros prêmios musicais, ela levou a Palma de Ouro de melhor atriz no ano de 2000, por sua atuação no filme Dançando no Escuro, de Lars Von Trier): o de uma natureza incorrigível e o de uma tecnologia sempre insatisfatória, daí sua permanente renovação.

Ainda que Björk não possa ser ela mesma a síntese dessa união, e é provável que nunca ninguém venha a conseguir isso de forma completa, ela deverá ser ainda por muito tempo o seu maior ícone. É de conferir o que seu próximo disco tem a dizer sobre isso. Como emissária de um tempo ainda mal compreendido e sem contornos precisos, não é necessário a ninguém ser um seu acólito para entender a relevância do seu trabalho para a cultura da virada do milênio, afinal poucos (enquanto muitos entraram em loop) como ela paginaram tão decididamente a inflexão que a tecnologia vem determinando ao mundo contemporâneo e, mesmo que pareça paradoxal, de forma cada vez mais indelével.

Agua escondida

Agua Escondida, sem acento, é o nome de um distrito da província de Mendoza, norte da Argentina, quase fronteira com o Chile, beirando o leste da Cordilheira dos Andes. É também o nome de uma zamba composta por uma mulher, Antonieta Paula Pepin Fitzpatrick, a Nenette, esposa do compositor Héctor Roberto Chavero Aranburu, mais conhecido pelo pseudônimo Atahualpa Yupanqui.

Numa época em que a presença feminina na música argentina, especialmente a de cunho folclórico, era impensável, a pianista e compositora Paula Pepin dividiu com o marido inúmeras composições que foram celebrizadas através de suas gravações e interpretações, além de seus muitos outros intérpretes. Luna tucumana, Chacarera de las piedras, El alazán, Guitarra dímelo tú entre outras zambas, vidalas e chacareras são obras de ambos, criadas a quatro mãos.

Paula Pepin, todavia, por vezes compôs sozinha também. Assinando sob o pseudônimo Pablo del Cerro (Cerro Colorado é o local onde viveram e hoje encontra-se a Fundación Atahualpa Yupanqui – o pseudônimo alude ao lugar), ela criou algumas composições que o marido gravou também, entre elas esta Agua escondida, zamba especialmente delicada, como costumam ser as zambas, em que é notável como o andamento e a harmonia parecem dar a entender a presença de uma melodia subjacente, exatamente como água escondida.

Originalmente, as zambas são ritmos de acompanhamento à dança folclórica e seu nome deriva do quéchua zamacueca. No Chile, o nome do estilo que permaneceu foi a cueca enquanto que norte argentino consolidou-se a zamba. Outra possibilidade de explicação para o nome estaria em que as composições eram dirigidas às mulheres do norte argentino, cuja pele matizada pela cor indígena remeteria ao jambo. As zambas poderiam ser, nesse caso, corruptelas do termo.

De um ou outro modo, o ritmo é um dos mais populares da Argentina. Yupanqui, sendo um dos principais recompiladores das tradições populares, teria em suas viagens pelo interior encontrado diversas delas cantadas popularmente. Além de recompilá-las, Yupanqui também criou outras tantas, contribuindo assim para imortalizar as tradições populares locais, como era seu objetivo.

Uma confusão bastante comum que se faz a respeito das zambas é traduzi-las como se fossem o samba argentino. Exceto pela popularidade, os ritmos são muito diferentes entre si. O que pode ser apontado de comum entre uma forma e outra talvez seja a delicadeza harmônica, os arpejos alongados e contrapontos silenciosos. Mas a semelhança, neste caso, é mais perceptível com o choro do que com o samba propriamente dito. Além do mais, o acento hispânico está muito marcado no estilo, assim como em todos os demais ritmos argentinos, gatos, malambos, estilos, milongas, habaneras… Ainda que um pouco menos que nas vidalas, mesmo assim é notável o silêncio entoado da música indígena, mal soprada em queñas ou cantadas quase a boca fechada.

As zambas, portanto, estabelecem uma espécie de confluência entre a música dos gauchos do pampa e a dos indígenas e seus descendentes moradores dos desertos de Tucumán, Santiago del Estero e Cachamarca, províncias onde o ritmo prolifera abundantemente. E também importa dizer que não são uma criação de Yupanqui, já que, além dele, inúmeros instrumentistas celebrizaram o estilo em solo argentino e mundo afora, notadamente com Abel Fleury, Roberto Lara, Tito Francia, Eduardo Falu, Cacho Tirao, entre tantos outros.

Sobre Paula Pepin, ou “Pablo del Cerro”, tudo indica que não compunha ao violão, mas ao piano. Sua formação, iniciada na França e completada na Argentina, aconteceu justamente em meio a uma época de florescimento da música folclórica, do qual o futuro marido viria a ser o principal expositor.

Ela mesma, sendo um tipo de “agua escondida” sob um nome masculino, criou por si própria músicas que viriam a fixar-se mais tarde como clássicos da música popular argentina. Esta Agua escondida, nesse caso, oculta-se entre suas muitas composições; embora, em minha opinião, é a mais notável delas, tanto se executada ao piano (neste link com Hilda Herrera) ou “a las seis cuerdas“, como se pode ver na execução do violonista Carlos Roldan.

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Pelo menos aparentemente, não há muitos pontos de contato entre as influências e matizes musicais dos dois países, Brasil e Argentina. Os gêneros pelos quais são mais conhecidos, por exemplo, não poderiam ser mais distantes e antagônicos. O samba, no caso brasileiro e o tango, do lado de lá do Rio da Prata, são quase como água e azeite. É quase impossível encontrar-se algum registro que unifique os estilos.

O baiano Caetano Veloso bem que tentou, em O samba e o tango, mas não chegou a deslocar-se do ritmo brasileiro e o resultado, se não foi completamente infeliz quanto seria una pareja de Maradona com Pelé, por exemplo, não chega a ser emocionante, apesar de ser uma bela homenagem.

Então talvez fosse melhor, desde já, impetrar uma divisória cultural arbitrária entre os dois países, da mesma forma pela qual a geográfica foi imposta através de tratados forjados em guerras de fronteira. Acontece que essa tentativa também seria arbitrária e impediria de antemão que se pudesse perceber alguns elementos coincidentes na música de lá e de cá.

No Rio Grande do Sul, pelo menos, a influência mútua dos países ocorreu de forma bem mais natural do que em estados mais acima, como seria previsível. Mesmo considerando que a faixa de fronteira é pequena, há um Uruguai entre ambos os paises que, ao mesmo tempo, unifica paisagem e cultura locais. Trata-se do pampa, a planura que se estende das encostas do planalto médio que divide o Rio Grande do Sul praticamente ao meio e vai até quase ao centro da Argentina, onde começa a apontar, mais ao sul, a Patagônia.

A fronteira do Brasil com a Argentina, portanto, se delimita ao norte do Rio Grande do Sul, no contato que se dá entre o estado e as províncias de Corrientes e Misiones. E a música, nesta região específica, tem outros matizes diferentes da música do pampa, remetendo mais às influências guaraníticas comuns também a um terceiro país que está mais ou menos nas mesmas latitudes, o Paraguai. A música do Paraná e do Mato Grosso, especialmente, guarda bem mais em comum com as guaranias e chamamés dos correntinos e paraguaios que a feita no Rio Grande do Sul.

Quando conheceu a Argentina, o multinstrumentista Hermeto Paschoal declarou que se tratava de um dos únicos países com tantas variedades e estilos musicais capaz de disputar quantitativamente com o Brasil. Evidentemente, a formação étnica de ambos os países é distinta e, ao passo em que o Brasil absorveu a intensa musicalidade da herança africana matizada com a música europeia, os argentinos obtiveram dos espanhóis e dos povos indígenas locais o fermento para a sua expressividade sonora, já que a presença africana por lá sempre foi reduzida, comparando-se ao Brasil.

Assim, de forma muito elementar, é possível dizer que é por essa razão, por essa influência diversa, que mesmo a música contemporânea dos dois países não costuma encontrar-se com frequência. Com exceção de alguns nomes internacionais como Fito Paez, Charly Garcia ou Pedro Aznar (ou de Mercedes Sosa, que gravou o repertório de muitos compositores da música popular brasileira nas décadas de 1970 e 1980 e tornou-se uma espécie de ícone continental), não é tarefa das mais fáceis constatar essa aproximação.

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Acompanhante preferencial da música popular, o violão conta, tanto lá quanto aqui, com excepcionais expositores e isso no que diz respeito tanto ao que se refere à execução como à composição, evidentemente que mantidas as diferenças estilísticas de cada um.

Se no Brasil foram o samba e o choro que notabilizaram o virtuosismo de gênios das seis cordas como Dilermando Reis, Baden Powell, Raphael Rabello e tantos outros, a guitarra criolla alcançou sua máxima expressividade, sobretudo nos gêneros folclóricos que, a partir da década de 1940, foram objeto de intenso trabalho de recompilação histórica. Isso aconteceu não somente na Argentina, mas também no Chile e Uruguai, chegando ao sul do Brasil mais ou menos na mesma época, mas não necessariamente com as mesmas influências.

A profusão de estilos folclóricos e as características geográficas e humanas argentinas fazem do país um imenso universo musical, apesar de que o tango portenho tenha sido alçado como exemplo por excelência de sua musicalidade. Acontece que mesmo o tango tem origem nos arrabaldes de Buenos Aires (e de Montevideo também), para onde foram  viver pessoas do interior do país, trazendo seus sotaques, motivos e sonoridades. A milonga, gênero tipicamente pampeano, pode-se até dizer que contribuiu em cerca de 70% na formação do tango. Os outros 30% talvez digam mais respeito à influência europeia, sobretudo a italiana, além das próprias transformações que o estilo sofreu ao transformar-se em símbolo internacional, principalmente pela voz e imagem de Carlos Gardel.

No tango, porém, a guitarra criolla é praticamente secundária, quando não ausente. Foram o bandoneon, o piano e até o violino que acabaram por definir sua entonação mais conhecida; principalmente o bandoneon, marca evidente da influência europeia, que universalizou-se em um segundo momento através da obra magistral de Astor Piazzolla. Apesar disso, em muitas composições, é o violão o instrumento de composição, principalmente naqueles tangos compostos popularmente.

Encontrar choros igualmente delicados como a zamba de Paula Pepin, Agua Escondida, também é tarefa de relativa simplicidade. Talvez o próprio Delicado, de Waldir Azevedo, seja o exemplo perfeito para isso, mas este foi criado para cavaquinho. Mas é facílimo lembrar também dos clássicos choros de Ernesto Nazareth, João Pernambuco, Garoto, Pixinguinha e a lista interminável de compositores do ritmo brasileiro. Mesmo que sejam ambas tradições musicais que se mantém através de novos instrumentistas, não são muitas as novas gravações, principalmente no caso do choro brasileiro.

Coincidentemente, é um gaúcho, o violonista Yamandu Costa, que vem fazendo a seu modo a ponte entre os estilos, mesclando tanto as influências platinas quanto o samba e o choro. O resultado nem sempre é suave e delicado, pois como se sabe, Yamandu é um instrumentista vigoroso. O que importa saber é que um violonista do seu porte está fazendo justamente o que me propunha a fazer pelas palavras, ou seja, a aproximação entre duas tradições musicais tão distintas quanto identificadas com as seis cordas.

No disco Mafuá, na faixa título, Yamandu mostra a exuberância de sua técnica em um choro desgovernado. Em outro mais recente, Continente, há inclusive uma homenagem a Atahualpa, na faixa Don Atahaulpa. Além de evidenciar uma influência já sabida, é um momento em que se pode perceber de onde vem a suavidade que há, também um pouco escondida, no violão de Yamandu. É quando ele deixa de ser um pouco violão e soa, talvez, um pouco mais como guitarra.

Não costumo fazer disputa entre minhas preferências musicais, como se gostasse “mais” disso que daquilo. Para mim, a graça da música é justamente a diversidade estilística e a proliferação de melodias e harmonias encontradas pela expressividade de compositores e instrumentistas. Resumir essa riqueza como se a uma disputa de seleções, mesmo que entre Brasil e Argentina, é o mesmo que fechar os olhos para a evidência de que tanto os hermanos compõem com delicadeza quanto os brasileiros exageram, às vezes, no riscado.

Só não deixa de ser curioso que a zamba Agua Escondida tenha sido composta por uma mulher que precisou inclusive ocultar-se em meio a uma cultura eminentemente masculina para divulgar seu trabalho. Evidentemente, não é essa a razão de sua preciosidade, mas isso serve, de certo modo, para demonstrar que, mesmo sob culturas dominantes, criam-se preciosidades. O violão ou a guitarra criolla, lá ou aqui, por ser o instrumento popular por excelência, parece mesmo talhado a entoar o inaudito e o secreto entre o intenso e inevitável ruído ao redor.

Down House, 1858: o inquérito de Arthur

Hoje me inscrevi na 2ª edição do Prêmio Kindle de Literatura, concorrendo com uma pequena novela histórico-biográfica sobre a qual me debrucei nos últimos 5 anos, mais ou menos, isso desde que comecei a pesquisar até sua conclusão. Chama-se “Down House, 1858: o inquérito de Arthur”.

Não é todo mundo que sabe que o décimo filho do naturalista inglês Charles Darwin tenha nascido com uma deficiência, provavelmente a síndrome de Down (e isso antes mesmo de que ela fosse descrita pela ciência). Embora ainda hoje haja algumas dúvidas em relação a esse diagnóstico, depois de conhecer a imagem de um daguerreótipo em que Emma Darwin aparece com o filho em seu colo e outros documentos e relatos, para mim ficou quase certo que realmente esta era a condição do bebê Charles Waring. O bebê Charlie morreu aos 18 meses de vida, justamente em meio à primeira divulgação de A Orígem das Espécies, em 1858, um período muito tumultuado na vida familiar dos Darwin.

Desde que vi aquela imagem, fui tomado de uma curiosidade que foi virando obstinação. Queria entender mais e mais a situação daquele bebê e, em decorrência disso, fui tomando conhecimento da biografia disponível a respeito de Darwin e de sua família, bem como da sua documentação, da ambientação histórica da Inglaterra naqueles dias e, sobretudo, do impacto emocional que o nascimento e a condição do bebê tiveram sobre sua família e, possivelmente, também sobre alguns de seus objetos de investigação. Como encontrei uma documentação lacunar em muitos aspectos biográficos, aos poucos fui mentalmente preenchendo estas lacunas a partir de situações reais, biográficas e documentadas com outras ficcionais, depois que consegui encontrar (talvez, isso nunca se sabe) uma voz narrativa competente.

Foi muito difícil para mim superar a primeira parte desta escrita porque me decidi começar pela parte mais difícil: a situação de falecimento do bebê. Depois desse primeiro momento, me dediquei a intensificar a pesquisa para só depois reorganizar o roteiro que imaginara e retomá-lo, refazendo-o a cada vez que me deparava com algum elemento que poderia integrar a narrativa. Este foi o processo mais custoso, porque precisei rever e rever e rever muitas vezes o texto, a fim de tentar torná-lo crível a partir do ponto de vista pelo qual optei.

Isso tudo e um pouco mais eu procurei explicar no prólogo do livro. Acho que são dúvidas que estão abordadas com a seriedade que se espera ao tratar da biografia (embora o livro seja ficção biográfica) de uma das pessoas mais decisivas na história da ciência e da humanidade. Assim espero eu, pelo menos.

Minha decisão em inscrever a novela nesta premiação se deve ao fato de que preciso, quero e sinto necessidade de retirar isso das minhas gavetas e achei a oportunidade interessante, mas sobretudo porque me permitiu finalmente tornar isso tudo público, de alguma forma. Minha paciência para lidar com o ramo editorial não é das maiores e então, de certa forma, a oportunidade me serviu para dar uma primeira forma ao livro, na forma exigida pelo concurso. Depois, se premiado ou não, vou tentar ver – se o livro sobreviver ao impacto que ele mesmo causa – se encontro outra forma de publicá-lo. Isso ainda não sei como será. Se premiado, ele sai pela Ed. Nova Fronteira, parceira da Amazon no certame, o que não seria nada ruim…

Então é isto. Quem desejar conhecer a minha versão ficcional (importante dizer isso pela terceira vez) da breve vida do bebê Charles Waring e de seu significado humano na vida de um dos maiores gênios da humanidade e de sua família, basta acessar o link abaixo e adquirir o livro na sua versão digital (infelizmente os patrocinadores não permitem que se inscreva na versão impressa). É possível lê-lo a partir do aparelho Kindle e das apps disponíveis para praticamente todas as plataforma digitais. O preço que coloquei foi o menor possível (mas era obrigatório colocá-lo), porque o objetivo do concurso é promover a plataforma e então ocorre inteiramente sob ela. Assinantes do Kindle Unlimited podem ler sem custo algum.

Se, após a leitura, desejarem qualificar o livro, acho que isso talvez pode ajudar a aumentar suas chances, eu não sei. Trata-se de um concurso aberto, sem uso de pseudônimo, então não entendo direito como isso pode afetar a avaliação. A mim interessou escrever essa história e o fiz com devoção ao tema e com o máximo de respeito e fidedignidade que pude. Tenho certo que há muitas limitações na abordagem que consegui, mas garanto que não há má-fé nem o desejo de explorar indevidamente a imagem de quem quer seja. Se resultará num livro aproveitável, isso não sou eu quem decide. Se alguém gostar e quiser ajudar a divulgar eu só posso agradecer a gentileza.

E antes que perguntem se é um acaso que o divulgue no dia dos pais, não é mesmo. De um gênio como Darwin, a honradez de sua percepção e do acolhimento para o bebê Charles Waring, assim como sua família toda, em 1858, repito, 1858, nada disso é casual. Descobrir e trabalhar nisso foi, de fato, impressionante e bastante emocionante para mim, além de ser uma aventura que eu compararia, talvez, a do Beagle…

Por fim, mas por fim mesmo, queria dizer que sei bem o quanto gênero “romance histórico” é bastante contestado tanto na literatura quanto nos estudos históricos. Há quem o considere um tipo de evasão ou uma tentativa de forjar-se fatos históricos com pseudoliteratura. Tudo isso é possível, mas nada disso foi suficiente para me fazer abandonar a ideia (outras coisas quase conseguiram). Para mim, o que aconteceu ontem já é história e não acredito em literatura sobre o presente contínuo, então não dou muita atenção a isso. Também não sou escritor profissional que venha fazendo ou queira fazer disso um ramo comercial, então estou muito tranquilo, até porque hoje estou me dedicando a projetos muito diferentes deste. Fiz porque a história me chamou e eu senti que podia interagir literariamente com ela e que o faria com o máximo de decência possível. Agora, já é sem volta. Minha parte está pronta. É bom dizer que isso já não é mais comigo…

Ex libris

Finalmente, graças ao belo trabalho do Paulo Pedott, da Exlibris Bookstamps, tenho meu Ex libris personalizado.

A frase é de Lúcio Aneu Sêneca e quer dizer “somente a sabedoria é liberdade”. A ilustração é a representação da sapientia entre as sete virtudes cardinais, esculpida na tumba do Papa Clemente II na Catedral de Bamberg, em 1047.

Não somos deuses (Lúcio Cardoso)

Hoje recebi pelos correios um livro em que revivi uma das primeiras leituras de poesia que fiz na minha vida, sabendo que se tratava de poesia. O livro era de um amigo que brincava pelo fato de que tínhamos praticamente o mesmo nome (até Lúcio Car) e não sossegou até que eu o lesse. Eu não imaginava que me ocorreria um tipo de experiência ali, naquele instante, porque nunca tinha reparado que se podia utilizar as palavras para escrever coisas como aquela, e daquela forma, mas ocorreu. Logo depois deste poema, que transcrevo abaixo, digitado por mim mesmo (sem Ctrl C + Ctrl V), nunca mais parei de ler poesia nem de comprar livros de poesia. Estas “Poesias Completas” do Lúcio Cardoso eu não tinha, mas é um livro maravilhoso. Nem é tão caro que pareça um investimento, mas é, de fato, um investimento. Lúcio Cardoso, este meu quase xará, nunca imaginaria que com sua poesia lírica e metafísica me comprometeria tanto até hoje de uma forma que eu na época não poderia imaginar. Reler um poema lindo e absoluto como este, hoje, depois de tantos anos, não é uma experiência como aquela, mas me explica a mim mesmo o que me causou ser o que sou.

[Não somos deuses,]
Lúcio Cardoso, Poesia Completa, EDUSP, 2011, p. 462-464

Não somos deuses,
nem criamos terras para o esquecimento
ou para a luz do sentimento.
Somos frágeis demais para não morrermos
desta grande aspiração de luto e ousadia
que é a nossa existência.

Não somos deuses
porque não somos puros como as plantas
nem nos damos ao vento como as flores,
nem somos música, como as águas.
Ai de nós, somos homens. Somos homens
na febre com que um dia pedimos ao amor
que nos desse um motivo para a luta.

Somos homens apenas,
e não morremos como os galhos esgotados
e renascemos outros, assim que o outono passa.
Não somos como os peixes e as estrelas,
não somos como as catedrais e o firmamento,
é a vertigem que nos mata.

Quando o dia nasce
o tempo aviva em nossos olhos a esperança
e amamos as formas pelo que elas são
como promessas à nossa fome.
Em nossas mãos o amor é como a vida,
e sabemos que em cada movimento
traçamos a história e o desejo,
alma secreta e longe que fitamos sempre
quando o infinito se abre
– azul sem terno ou céu sem nome.

E não poderíamos ter sido outros,
pois o que se misturou à nossa carne
foi a noite, o barro e o desespero.
Sabemos que a aventura é um caminho
– se voar é possível, só o sono
nos entrega à cantiga nua das estradas.

O sonho é possível – mas sonhos
de homens, de carne dilacerada e fria,
pensando a informe aspiração do vago.
E quanto sangue apunhalado e quente,
não jorra nestas searas de ousadia,
quando ousamos fugir?

Sim, não somos deuses,
nem criamos terras para o esquecimento.
Somos pequenos e tristes, somos
como os animais que fitam o mar iluminado,
sem compreender. Pagamos a nossa dívida
minuto por minuto – mas os deuses
já não sofrem senão com a paixão,
ai deles, que é humana.

E não somos então um pouco como deuses,
quando, por loucura, atiramos nesta febre
o que em nós resiste, o que de puro
constrói em nós a alma permanente?
Somos um pouco como deuses, talvez
sejamos deuses simplesmente, se com virtude
desvendamos a estrada.

Agora fica, inspiração: o nome que te dou
não é em vão que não possa recriá-lo.
Só eu te sei a flor informe e lenta
deste desespero – eco, sombra e murmúrio
da luta que me ergue sozinho neste céu,
corpo de pedra – e já me faz pensar um Deus.
___

Lúcio Cardoso, Poesia Completa, EDUSP, 2011, p. 462-464

Nunca mais

Essa leitura de Carlos Fernando C. Nogueira define por completo que a versão da tradução de Fernando Pessoa é muito superior ritmicamente a de Machado de Assis. Acho que essa polêmica acaba aqui. E nada mais..

O Corvo (Edgar Allan Poe – Trad. Fernando Pessoa)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais –
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais”.

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
“Senhor”, eu disse, “ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi…” E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais –
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
“Por certo”, disse eu, “aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.”
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
“É o vento, e nada mais.”

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome “Nunca mais”.

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, “Amigos, sonhos – mortais
Todos – todos já se foram. Amanhã também te vais”.
Disse o corvo, “Nunca mais”.

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
“Por certo”, disse eu, “são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais
Era este “Nunca mais”.

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele “Nunca mais”.

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
“Maldito!”, a mim disse, “deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, “Nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

“Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!”, eu disse. “Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
E a minhalma dessa sombra que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á… nunca mais!