A quinta da Boa Esperança

A Fulgência sabia meia dúzia de rezas, não mais que isso. Entre essas, melhor as que surtiam efeito. Entretanto, nunca ninguém a acompanhava nisso. Depois do anoitecer, quando precisava, ela se dirigia a uma taperinha no mato contíguo à fazenda, levando nas mãos um terço enrolado entre os dedos e uma bíblia velha. E de lá ninguém nunca se aproximava muito para entender o que ela dizia ou fazia.

Ela aprendeu a ler foi por aquela bíblia, presente de Dona Emerenciana que lhe havia dado em mãos o volume dentro de seus aposentos, no casarão, quando já não caminhava mais, nas poucas vezes em que ela andou por aquele assoalho com a sola dos pés. Nas outras vezes, ela o fazia sempre ajoelhada ou em quatro pés, sem nunca olhar nos olhos de ninguém; e algumas vezes pela noite, quando via a si mesma no quarto dos fundos, esperando que ele chegasse pela janela, furtivo como um morcego e ela o aguardava como uma donzela.

Em toda a sua vida, a Fulgência só rezou pelo bem da família. Jamais se ouviu falar que praticasse feitiços ou coisas do gênero. Fazia umas mandingas em troca de farinha de trigo, cebola, charque, feijão e foi juntando e comerciando mantimentos e víveres que ela montou a venda da Quinta da Boa Esperança, que seria a herança para o Cristóvão, seu filho. Do pai, ele herdou só o direito de viver ali, não que ele soubesse que teria outros.

O Cristóvão foi ele mesmo a razão da mãe pisar com a sola dos pés pela primeira vez no casarão, porque a Dona Emerenciana queria porque queria conhecer a criança. Elas não conversaram quase nada nunca na vida e, naquela tarde de agosto de muitos anos atrás, ambas sabiam o que uma queria da outra, mas infelizmente não era o mesmo.

A Dona Emerenciana, tida como mulher culta e ajuizada, dada à poesia e à pintura, diferentemente das outras mulheres suas contemporâneas que só queriam saber de radionovela e outras sonheiras, pensava em silêncio no que seria daquelas criaturas se as corresse dali para sempre e para longe. E brincava com os dedinhos do Cristóvão. Ele sorria divertindo-se; ela, não.

E a Fulgência, por seu lado, não era santa nem milagreira. Fazia umas rezas que pegavam ou chegavam na hora certa, curando um e outro e fazendo um novo nome para ela, até que esquecessem de que era apenas a amásia do falecido. Mas como, se tinha o Cristóvão como prova material permanente daquilo? No fundo, isso não importava quase nada, porque para a maioria das pessoas na hora da necessidade o passado vale coisa nenhuma e, se a reza funciona, isso é o que importa.

“Ele é bonito. Que nem tu e que nem ele”, a Dona Emerenciana falou num édito. A Fulgência ficou como estava: quieta.

“Tu vais morar na Boa Esperança”, prosseguiu recomendando a viúva.

“E, de hoje em diante, tu entras pela porta da frente”, continuou.

“Mas entras sozinha. Sem o guri”, arremedou.

A Fulgência tinha vergonha de olhar para a mulher, mas não tinha vergonha de ninguém mais. Olhava a todos de frente e, no balcão da venda que botou na Quinta, mantinha uma adaga ao lado da caixa das contas e dos cadernos. Nunca se viu que ela a manuseasse, mas, a Santa Bárbara, o copo e a tesoura que ela tinha ali do lado, todo mundo respeitava. Dinheiro das rezas ela nunca aceitou e o Cristóvão nunca que a acompanhava, porque ela não deixava. E se chovia ou nevava, de vez em quando nevava no inverno, ela o enviava no petiço tobiano para o coleginho de madeira e ele aprendia tudo com dificuldade, mas aprendia.

O caminho que ele fazia no petiço era longo. Custava hora e meia para ir e hora e meia para voltar. Ele ia sozinho e nunca faltava. No inverno, branqueava através da geada; no verão, queimava a pele como um torresmo. A paisagem sempre igual mudava ao longo dos anos sem que ele percebesse direito. O cemiteriozinho do potreiro do seu Arlindo Fagundes ganhava às vezes uma cruz nova. Puseram, lá pelas tantas, postes de luz no caminho, onde os barreiros logo começaram a fazer ninhos. E até na sua face de menino apontaram uns pelos, porque isso não há como evitar na vida. E o dia em que a Fulgência percebeu que o petiço não dava mais para o menino e o certo era que fossem dali para Pelotas, para que ele não parasse de estudar e virasse um gaudério qualquer, ela ficou sem saber o que fazer e o que pensar. Ainda assim, deixou que o Cristóvão fosse para sua aula e fechou a venda na hora da sesta, como sempre fazia, mas não foi dormir.

Nessas horas, ela gostava era de ler o jornal e pescar palavras no dicionário. Porém fechou a porta do pequeno comércio com a tranca, encilhou a charrete e pôs-se a caminho do corredor, mas para o lado contrário da escola em que o filho tomava aulas com a tal professora Maria das Graças, por quem o Cristóvão tinha amores ocultos. Mas, se alguém conseguiu um dia esconder algo da Fulgência, pouco há notícia. A Fulgência ia mesmo era para o casarão dos Ferreira e Menezes, na coxilha da ponta, dentro da estância, perto de onde havia em épocas atrás um casebre no qual se escondia para rezar, por si e pelos outros.

Ela olhava com atenção o terreno. Fazia muito que não andava ali. Notícias da Dona Emerenciana é de que continuava doente e se recusava a ir para a cidade com a Dulcina, já casada e bem casada com um comerciante rico. Queria ficar ali, onde não a notassem muito, desde que seus livros continuassem chegando e das idas e vindas dos mandaletes é que ela colhia alguma notícia. Ao longe, depois de uma longa curva no corredor, procurou a taperinha que fora a sua igreja, mas não havia nada mais no lugar, só árvores novas, em sua maioria eucaliptos. Obra que a natureza faz em dez anos com a ajuda de alguém.

Passou ao lado do mata-burros, pela cancela, com a ajuda de um meninote que veio correndo de dentro da casa e suas janelas entreabertas. “Bons dias”, ele disse. “É a sinhá Fulgência, não é?” Ela sorriu e respondeu: “Ah, sou…” E o menino foi puxando o cavalo pelas rédeas, a passo, até estacionar a charrete quase ao lado da porta de entrada do casarão da família. Antes de descer os degraus que rangeram, correu os olhos pelo corredor comprido de janelas, procurando talvez a sombra furtiva de alguém por ali, como se ela mesma ainda estivesse lá dentro e esperasse pela inevitável visita do dono da casa. Mas se os seus olhos tinham ou não uma ponta de saudade, não havia ninguém para julgar, só um menino e um menino na idade em que não se sabe de nada.

O madeirame do piso também rangia e não estava tão limpo quanto em sua época. A porta do escritório permitia que enxergasse a cadeira onde estava quem ela procurava. O silêncio do campo quebrado por gritos de pássaros e o vento contínuo davam lugar ao som de uma casa quase parada, não fosse o ruído de algo nos fundos, provavelmente na cozinha. Ela entrou e fez a volta na cadeira, finalmente encontrando os olhos da velha mulher que estava ali e que abriu um breve sorriso ao reconhecerem-se. A Fulgência também sorriu.

De mãos como se fossem amigas desde sempre, ou irmãs, passaram um longo tempo em silêncio, observando-se mutuamente e logo a Fulgência baixou os olhos, adestrada. Antes que fizesse menção de dizer o que fosse, a Dona Emerenciana declarou, como sempre fazia: “Tu estás muito bem, ainda…” A Fulgência sequer gesticulava. Atrás da mulher, uma prateleira de livros chamava sua atenção e, talvez por isso, pareceu despertar e lembrar-se do que havia ido fazer ali. De um bornal que tinha atravessado no ombro, ela procurava algumas coisas e finalmente puxou dali de dentro um volume. A velha bíblia, o terço enrolando-a e, pendurado nele, a chave da quinta. Estendeu o volume e a outra voltou a sorrir, ainda quieta. Mexendo na chave pendurada nas contas da peça, perguntou: “Tu já vais, então?”

A Fulgência levantou-se da banqueta onde estava e consultou o relógio de parede, ainda no mesmo lugar, ao lado de uma das pinturas da dona da casa. Piscou os olhos e já tinha certo o tempo que precisava para pegar o Cristóvão no coleginho. A essas horas, ele despedia-se como podia da professora, que com os colegas não se importava muito; a bem da verdade, nem eles com ele. Ela arrumou no corpo o bornal e tocou de leve o cabelo da mulher, alguns anos mais velha do que ela. “Já vou, sim…”, respondeu.

Sem um suspiro e adivinhando os passos da Fulgência em direção à porta da rua, disse num tom de voz para que só mesmo a outra a escutasse: “Vou rezar por vocês.”

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Nem mais e nem menos

O risco de passar rapidamente os olhos num livro como SUMI-Ê, da Nydia Bonetti, é o de perder a atenção fugaz necessária a sua leitura. É o de querer se concentrar demais e não conseguir fixar a coleção de pedras, troncos, flores, luzes e sombras desse pequeno jardim em formato de livro.

Eu digo um “jardim” não porque se materialize jardim, mas porque é clara a noção de que se está passando por ele, atravessando-o como se num desvão de uma avenida houvesse uma secreta passagem até outra dimensão mais lenta do tempo. É o efeito opiáceo que o livro me oferece: ser ele mesmo estranho a mim e, por isso mesmo, meu também.

É de entender melhor: sei que parece estranha a sensação porque normalmente se acredita aproveitar uma leitura quando se a retém e supostamente aprende ou guarda alguma coisa, acrescenta. É um hábito cumulativo que afeta a maioria de nós, pelo menos os mais embebidos na tradição cultural ocidental. Atenção fugaz parece algo paradoxal, mas é do que se trata mesmo.

Sei que por aí algumas pessoas definem a poesia japonesa ou de inspiração oriental como “minimal”, principalmente os tankas e haikus. “Minimal” também seria a tradição ocidental dos epigramas, embora menos líricos que os parentes orientais. Apesar de conhecer pouco, acho muito bonito.

Ontem finalmente recebi dos correios um livro que comprei no começo de fevereiro, dessa poeta que sigo nas redes sociais desde que a conheci acho que no último ano, ou o mesmo ano continuado agora: 2020. Apesar de não ser uma poeta que eu leia sistematicamente, queria ter pelo menos um de seus livros. Procurei o mais recente, De barro e de pedra (Urutau, 2017) e estava esgotado na editora, não consegui. Fui mais atrás e encontrei para mim um exemplar deste SUMI-Ê (Patuá, 2013).

Pelo livro, fiquei sabendo que o título vem das artes caligráficas japonesas, numa arte instantânea que não admite retoques. Nenhuma explicação seria mais aplicável: não há mesmo o que retocar nesse simpósio de naturezas que ela pincela como se fossem imediatamente desmanchar, mas que, por isso mesmo, fica justamente o tempo que deve ficar – nem mais e nem menos.

“há um lugar onde não estive
e uma canção que não cantei

alguém fez isso por mim”

“o meu colar de conchas secas
é tudo que sei

dos mergulhos que não dei”

SUMI-Ê
de Nydia Bonetti, (Patuá, 2013).

Porto Alegre, 6

Março é quando te crudelizas mais.
Desde que te conheço é assim.
O calor te excede de súbito,
ficas irrespirável.

E desértica, em ruas sem vida,
escorregas sob os pés
e te tornas mais fantasiosa.
Ninguém nunca te disse?

É o que me diz tua bocarra insone,
variando a pele camaleônica,
os olhos esbugalhados
repetindo anúncios que não cumprirás.

Nós dois sabemos que em algum momento
resolveste que era melhor mentir
a aceitar um destino modesto
como o dos teus residentes.

Na minha rua, uma senhora muito
velha está sofrendo há anos
a tua falta de bom senso
e, até agora, nada de ti. Enlouqueceste?

E se me dizes que não tens nada com isso
(como assim, nada com isso?),
eu estranho é o mau jeito
com que acordaste, em 1772.

É o porto para lugar nenhum
que te embaraça os sentidos? É
que o tempo te cerca cada vez mais
e não encontras saída?

Eu te digo, então, que não morreste
e para o futuro te empresto
meses da minha vida
sem esperar que sobrevivas.

Março é do pior calor que há.
É como um suor colado às roupas
e um vento inoportuno, do sul,
viesse te gelar os ossos por dentro.

Teus horizontes,
fímbria da noite e do dia,
sofrem de resgatar a ti mesma
e nossa bestificação.

Depois da chuva, encharcada
e triste como os becos mais alagados,
encontraremos as razões pelas quais
nunca escapamos completamente do teu amor.

E então colocaremos ao sol
o que resto da alegria em teu nome
ou porque enlouquecemos também
ou para que já não te salves de nós.

Brasil, construtor de ruínas

Foi numa entrevista para a Parêntese, concedida ao professor Luís Augusto Fischer, que fiquei sabendo que o mais recente livro da Eliane Brum, Brasil Construtor de Ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago, 2019), não havia recebido sequer uma crítica dos grandes jornais brasileiros, apesar de ter sido resenhado pela New Yorker, pelo New York Times e estar sendo traduzido para diversos idiomas, entre os quais o polonês e o italiano.

A informação em nada me espanta. Apesar dos vários títulos que vêm sendo publicados na intenção de dissecar a história política recente, em sua maioria os livros teóricos têm compromissos nítidos com a sua própria performance investigativa e estão disputando, para além da narrativa, o cenário e destino eleitorais. O livro da Eliane também tem seus compromissos, mas não é por isso que eu acredito nessa refração que o público brasileiro vem tendo em relação à publicação da Arquipélago, editora de Porto Alegre que é a sua “casa”, conforme ela diz.

Eu temo, aliás, que qualquer iniciativa intelectual que vise colocar ao espelho a história recente brasileira venha a passar pelo mesmo. Não é que não estejamos preparados ainda para enfrentar a dissolução da Nova República no bolsonarismo: é que nunca estaremos. É muito terrível ser obrigado a olhar a ruína logo atrás e ainda por cima precisar entender que o futuro breve continua sendo determinado por escolhas comprometidas e/ou já fracassadas.

Como a bíblica família de Lot, pesa-nos a advertência de que, para seguir sobrevivendo em paz relativa, é necessário não olhar para trás, nem examinar os meandros do que competiu a maldição da história toda. Há o risco de congelamento em sal numa recaída simples. E ninguém em sã consciência do seu instinto de sobrevivência gostaria de terminar assim. Ou seja, fugindo ao viés de confirmação de uns ou de outros, qualquer literatura será mal vinda. Bem vinda aquela que permite continuar, ainda que ao custo da denegação da realidade objetiva.

É por afrontar o legado petista e lulista, por enfrentar a sanha justiceira lavajatista e por confrontar a expressão da malignidade bolsonarista que o livro de Eliane vai se convertendo num clássico pouco lido. A sua diferença maior em relação aos livros de ciência política não é dada pela linguagem ou pelo método jornalístico de imersão total pelo qual ela opta, mas pelo distanciamento que lhe confere a isenção ideológica e o exame vis-à-vis dos acontecimentos.

Se é possível que ela incorra em equívocos de interpretação, isso é o que há de menos grave. A história do Brasil recente está mesmo sendo forjada a quente e, no tocante às decisões políticas, vem competindo em desastres humanitários, ambientais e econômicos sem precedentes. Além disso, os cronistas dos jornais e das redes sociais estão também implicados muitas vezes numa rede de enganos e auto enganos que mantêm suas bolhas agregadas e sua narrativa montada, em pé.

Desse consensos não coincidentes não resulta uma ciência política taxativa nem diagnósticos claros do que ainda pode vir a acontecer, mas o ponto de vista de Eliane Brum, como residente no mesmo alto Xingu no qual se estabeleceu o gigantismo destruidor da usina de Belo Monte e como pensadora autônoma, não está colocado como a chave interpretativa por excelência adotada nem por direita e nem por esquerda. É de um lugar oblíquo, do qual permite ver os estilhaços da imagem de uma nação esfacelada em muitos cacos, que o espelho do seu livro alcança ao público. De primeira, não será uma imagem muito clara ou precisa, mas, ao fim, vai se ver que a imagem resulta de uma semelhança incômoda com o Brasil real e isso, afinal, talvez seja o que mais nos aterrorize.

Brasil, construtor de ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro
de Eliane Brum, (Arquipélago, 2019).

Esquiladores

“Nunca le interessou seguir a comparsa?”, perguntou-me a seco o noviço, como se fosse de intimidade, gente do meu sangue ou do meu conhecer. Ali eu estava por comando do padrinho e não apreciava dar respostas a meu respeito. Não bastava que lhe entregasse a borrega pronta pra carga das tesouras? Agora o que mais queria saber de mim esse daí?

“Nunca.. Sou das casas.”, resmunguei bem quando levava a mão no quarto de uma outra, lanuda, uma corriedale sebenta que, na brasa certa, perfumaria até o pago vizinho. Mas uma borrega assim o patrão deveria reservar pra cria, só num ato de desespero le passaria a faca. Ou então em reunião de domingo, quando algum parente se apachorrasse no casarão a modo de desassossegar a peonada da casa e impedir que a Jandira arredasse o pé do fogão.

Ah, Jandira! Pedaço de torresmo apertado.. Faz pouco a vi passando com um tacho pras goiabas e figadas. Doçura que ela passaria daqueles olhos melados de pronto ao açúcar que se emenda nos bocados que ela saber fazer igual a ninguém mais. Os outros só sabem de ouvir dizer, mas eu, que me assentei como sota por confiança do padrinho, sei porque ela me alcança de vez em quando uns apanhaditos nuns potes de matéria plástica que agora andam chegando com tudo por aqui, comida, remédios e o que mais. Esse o nosso namoro.

“Devia… O amigo é bem bueno de martelo!”, disse-me no que não soube interpretar como elogio sincero ou adulação. Tem dias que o guri anda me cercando, querendo saber de quem é quem, do quanto é quanto, do porque de cada por quê. Eu com a minha carranca quieta pensei que o afugentaria, mas que nada… Agora vive a querer saber de tudo, até mesmo da Jandira, o desaforado.

O noviço esse é mais um a esticar o olho comprido a cada vez que ela passa ao longe, todo mundo estica, mas o certo é que se eu arranjo mesmo um ranchito pra nós, o padre da vila nos faz o ofício de casar direito, que eu faço é muita questão. E ter uma vida direita, de trabalho, retidão. Mas o guri, é claro, olha pra ela como fêmea, não vê a mulher nem muito menos a pessoa. E porque ele olha pra ela, eu também olho pra ele e assim parecemos um rodeio parado numa tronqueira, que nem o gado, examinando-se.

“E aquela cabocla, que parece? É Jurandira que chama?”, indagou com ares de inocente ignorância. “Jandira”, corrigi de pronto. “Que tem ela?”, aticei o linguarudo a dar com os dentes na língua enquanto olhava o velo pela metade no lombo da borrega aos seus pés, esperando o fim daquela prosa que os demais nem podiam ouviar, pois o patrão sintonizara o rádio sobre um tonel alto ali de modo a entreter a comparsa inteira. Por ali, dos nove homens mais o noviço, todos eram sabidos de alguma conversa das redondezas e gostavam de prosear, mas a programação e o noticiário da cidade calava a todos, subitamente interessados em coisas como carnaval, futebol, telenovela. Menos o noviço que então continuou seu inquérito e sentenças: “Lindaça!”

“Mas não é pro teu bico!”, adverti e ele riu meio debochado, como se quisesse mesmo é testar meu interesse nela. Mas falei mais alto ainda que o rádio, alterado, e os outros levantaram os olhos em nossa direção. “E já vai terminando essa borrega que o curral tá até a boca!”, concluí e ele fechou o cenho, olhando pra baixo e torceu o nariz pelo corridão que lhe dei.

O calor grande de novembro perto do meio dia me levou à cozinha do mais velho deles, que lhes servia também de cozinheiro, deixando o toc-toc das tesouras pra trás e a montanha de velo e garreio acumulada no galpão por embolsar, eu e o guri, nos embolsadores emparelhados bem ao lado do portão. Tomei com o homem um ou dois mates e decidi almoçar por minha conta, sem a conversalhada dos esquiladores. No meu quartinho, tomei do carreteiro encostado, acresci um punhado mais de arroz do pote e, coisa de nunca, levei a mão na caninha que alguém esqueceu por ali. Azeda, não me entrou lá muito bem, mas sequei o que havia na garrafa pensando que a Jandira talvez não se desse tanto ao respeito e se aparecesse demais agora que a comparsa se instalara. Que tanta curiosidade tinha, afinal, a chinoca, se já nos havíamos até prometido? Ora, o que faz a aguardente com um hombre, não é mesmo? Leva a confabulações sem sentido, talvez…

Sesteado, mal sesteado, acordei-me com a têmpora latejando e o suor escorrendo no pescoço empapando a camisa. E pensar que agora ainda iria me enfurnar que nem tatu num embolsador mais quente que um fogaréu. Chegando lá, quedelhe o noviço? Desgraça de guri.. Bueno, como preciso começar de algum lugar, vou eu mesmo embolsando os pacotes de lã branca e pisoteando aquilo até firmar o garrão… Dali, ouço a comparsa se arranjando no galpão ao lado e o rádio naquela hora tocando, felizmente, umas rancheiras das buenas que até me passaram um pouco o incômodo da canha em mau horário.

“Buenas!”, ouço do lado de fora e finalmente é o noviço que apareceu. “Onde andava?”, pergunto-lhe enquanto sigo no pisoteio. “Ah, fui ali na sanga lavar os pés e afiar umas tesouras…”, respondeu-me. “Menos mal…”, comentei. “E quem tava lá?”, indagou numa simulação dele mesmo me responder e continuou: “A Jandira…”

No mesmo instante, senti que não gostaria de saber o que mais ele me diria, mas o atrevido continuou: “Ela levou panelas pra ariar e me ofereci pra le ajudar, mas fique tranquilo que moça direita como aquela nunca eu vi. Não me deu confiança e me despachou pra longe com um corridão que senti medo até…” E ia contando devagarinho de modo que eu conseguia lá dentro da estopa escura imaginar a cena e pensava que se fosse ele ali dentro e eu ali fora, não me custaria nada esticar a adaga pra dentro até encerrar aquele falatório. E foi tecendo elogios e me dizendo da minha sorte de um casamento feliz que com certeza, de acordo com ele, nos destinaria o futuro. Funcionou, pois me acalmei e ainda mais porque a esquila já andava em vias de acabar e desse modo aqueles aporreados todos se iriam pra bem longe da Santa Eulália, que voltaria ao seu sossego habitual.

Passou a tarde, não restou uma felpa mais a embolsar e os rebanhos todos do padrinho foram devidamente depilados. As ovelhas ficavam meio feiotas rapadas, mas, assim, o verão lhes seria possível. O meu também, porque o entrevero todo de gente que se junta apenas por evento às vezes vai de encontro a maus elementos. Não que tivesse visto algum suspeito, mas sempre tem um mais quietarrão que a gente imagina o que tenha de oculto naqueles silêncios sem fim. No outro dia cedo já não estariam mais ali e pra logo haveria um truco ou uma bisca pra pescar dos mais animados algum trocado de aposta. Mas não me aprocheguei ao assado que montaram no costado do ombu e me aquietei cedo. A dor de cabeça, como um mau pensamento sem expressão, voltara e fizera com que me deitasse com as galinhas. Nem me dei conta que, estranho, a Jandira não passou pra dar seus boas noites. Só no outro dia fui notar, mas aí já era tarde.

Foi o chefe da comparsa quem me segredou no primeiro mate, antes da alvorada, que viu o noviço, mais cedo, tomar o rumo da estrada, não sabia pra que lado, e com a Jandira no seu costado. A informação me entrou mais amarga que a erva uruguaia do mate, mais que carqueja verde, entrou como um veneno e cogitei de encilhar o baio e me tocar atrás deles. “Mas ela saiu sorridente…”, advertiu o velho gaúcho, como se dizendo que não estava indo obrigada, de modo algum..

Os demais esquiladores fingiam não ouvir a conversa, mas me olhavam de um modo compassivo e parecia que as conversas paralelas eram todos de um consolo que me ofereciam. O velho me fez sentar e contou histórias da sua vida e me fez refletir. Refletir e decidir. Perguntei-lhe aonde iriam agora que haviam acabado com a Santa Eulália. “Vamos à Santana, coisa ligeira, e depois Melo, no Uruguai…”, disse-me o esquilador com seu chapéu coco e barba espessa. Logo eles começaram a juntar as coisas e em breve partiriam num F600 dos mais bem cuidados, posse do chefe da esquila. Deixei que arrumassem suas coisas e tratassem de partir, pois precisava acertar a lida com o padrinho, igual a todos os dias. E foi o que fiz. O padrinho, quando soube do que me acontecera, lamentou minha má sorte e até me tentou consolar, mas nada mais podia fazer por mim. Ninguém podia. Talvez só eu mesmo e foi o que fiz ao me adiantar à saída da comparsa, na porteira do corredor, e levar o pouco que era meu numa mala de garupa, um par de botas, roupas gastas e duas bombachas de serviço, pra subir na carroceria e realizar outro sonho de guri: atravessar finalmente a fronteira.