Dança

Há sinos nas luzes quando me entendes.
E uma sinfonia executada
como certa desforra dos pássaros.

Tu ouves?
Eu te farei ouvir.

Sabes que anoto os tépidos momentos
em que toquei a pele enrugada do tempo?
Cada um.

É um hálito de velho que ele tem.
E mãos de velho a nos sacudir desde dentro.
Ternas, mas de uma ternura insondável.
E suas palavras não tem tessitura,
mas acomodam aqui e ali despejos
e os nossos abandonos.
Esses eu não guardo.

2

Agora tenho guardado notas.
Cansei de estar perdido em mim mesmo
e decidi que me ajudaria.

Mas guardo mais na intenção de esquecê-las
ou nunca precisá-las.

Preciso de avisos que me envio do passado
e premonições, mesmo que erradas.

Nunca nós temos a clareza no presente.
E muito menos cautela.

Não sabias que guardo notas?
Guardo, sim.
Agora sabes.

3

Gosto de te dizer coisas
como se à luz de velas.

De sussurrar incertezas
e admitir meus medos.
Nossos segredos.

4

As coisas não estão fáceis.
Mas tu não precisas me dizer.

Por menores que sejam,
todas as casas tem janelas.
Só as prisões solitárias em cada um
quem é que alcança?

Toma do intervalo de tudo isso.
Toma um pouco.
Toma de mim.
Vem. Aproveita a noite ainda.
Dança.