A ponto de.

Você dá o que lhe parece.
Mostra não mais do que percebe.
Encontra apenas o que imagina.

Nesse silêncio quadrado,
nesse quadrado há um grito
estilhaçado em si mesmo.

É bom guardar os vestígios,
deitar fora as lembranças,
borrar a verdade, vendar o futuro.

Para nós não há uma última palavra.
Você deveria saber o que é preciso
para não ser feito em névoa.

Você parece, mesmo, é o que não dá.
Nem percebe mais o que lhe é mostrado,
prefere permanecer a ponto de.

Mas o mundo já partiu do seu lugar
e ninguém mais é igual a outrora.
Quem há, ainda, para encontrar?

Veja o quão sem graça
é não haver graça em sorrir
quando não há mais a quem convencer.

Basta repetir os próprios passos
para chegar ao ponto de partida
de volta, e mais uma vez.

Tanto quanto necessário
a água escorrerá pelas frestas
e o vento se espalha sempre em seus lamentos.

Se, pelo menos, você estivesse a ponto de
reconstituir o número habitual
pelo qual pranteavam estátuas.

Se, pelo menos, você estivesse a ponto de
enfileirar exércitos de homens escolhidos um a um
e levá-los a algum destino.

Com que esforço
esse pássaro abre as asas
e parte, quando está livre.

De longe, cada vez mais longe,
ao olhar para baixo, felizmente
todos parecem borboletas.

De perto,
poucos estão
a ponto de.

Muitos nem estão e nem nunca estiveram
e, finalmente,
pode-se entender que sempre tem sido assim.

(2002)

Anúncios

Samsara

O problema dos mortos
não é o tanto que eles deixam
para resolvermos mais tarde,
mas o que nos levam
e que não tem solução nenhuma.

Como se as partes do nosso nome
– as pronunciáveis –
nunca mais fossem encontradas
porque já sem qualquer eco
e sem o antigo furor

(como em um catálogo de ítens
de carnes e ossos que se batem
girasse inexpugnavelmente
a energia que se entrega
aos nossos nervos e músculos)

e a forma como éramos chamados
quando se perdia de vista
alguma coisa qualquer
e éramos os titulares
desse resgate impossível.

Sim, o máximo que fazemos na vida
é sermos compenetrados
salvadores de grandes miudezas
para os outros
gastarem-nos.

Mas não é por isso
que seremos lembrados ou lembraremos:
a memória é um torpor tímido
de que existir é esse instante
que casualmente nos é exibido.

E se as muitas palavras despencadas
e as cores travadas no breu,
ao arrepio de qualquer forma,
o inconcebível, o único inconcebível,
é que você finalmente morreu.

A psicopata improvável de Leïla Slimani

Costumam ser pouquíssimos os autores agraciados em premiações literárias de cunho nacional que conseguem romper a barreira invisível do interesse internacional. Ano a ano, uma sucessão de nomes pouco ou nada conhecidos ganha a fagulha da notoriedade nacional para logo a seguir engrossar a lista interminável dos autores geograficamente confinados. Na pirâmide do reconhecimento, a tradução ocupa desde há muito um lugar de destaque no sistema literário e, na ordem de relevância, perde apenas para as premiações internacionais e a finalíssima inserção no cânone universal. O resultado quantitativo de tal situação é que anualmente deixa-se de conhecer inumeráveis autores enquanto que o resultado qualitativo é de que se acaba por conhecer e valorizar demasiadamente uns poucos afortunados.

Este último parece ser o caso da escritora franco-marroquina Leïla Slimani. Agraciado com o prêmio Goncourt em 2016, o seu Canção de ninar teve sorte muito diferente da imensa maioria dos mais recentes autores premiados com a distinção francesa. Isto também seria verdadeiro caso se cogitasse distinções recentes de quaisquer outros países, como o prêmio Goethe, o Miguel de Cervantes, o James Tait, o National Book Award e até mesmo prêmios lusófonos, como o Camões, o Cesário Verde, o Antero de Quental, etc. Dupla felicidade teve o segundo romance de Leïla, portanto, porque além de traduzido para diversos idiomas, provocou um efeito cascata na crítica literária nacional, ainda mais que sua vinda ao Brasil já está anunciada para o próximo ciclo de palestras do Fronteiras do Pensamento e também para a próxima FLIP.

Escrito em um ritmo sôfrego, asmático, quase todo no mesmo tempo verbal e parecendo-se em boa parte à reconstituição informativa de um crime, o ponto forte do livro de Slimani parece mesmo concentrar-se na temática absurda e trágica que a autora teria recolhido de uma reportagem e que dava a contar a história de uma babá que assassina a prole de um casal cuja incumbência seria cuidar. O desenredo de Canção de ninar trata de explicar como isso tudo veio a acontecer justamente diante do que aparentava ser a escolha perfeita, ou seja, a pessoa ideal para ajudar a organizar a vida de uma família francesa de classe média cuja figura materna deseja voltar a trabalhar após a dupla maternidade.

Narrando o que muitas vezes parecem-se a imagens decalcadas de um pesadelo, Leïla empreende uma intensa e artificiosa deterioração da personalidade de Louise, a babá branca empregada por Myriam, uma advogada de ascendência marroquina e por Paul Massé, um produtor musical mal sucedido, para cuidar de seus dois filhos, Mila e Adam.

Valendo-se do anti-clichê identitário para escapar à obviedade que seria retratar a condição inversa, embora fosse possivelmente mais corriqueira e realista em se tratando de imigrantes pobres, Slimani investe todas as fichas em enlouquecer sua maléfica protagonista. Para tanto, vale-se menos de elementos psicológicos factíveis do que de uma perspectiva em que os traumas sociais se tornam as fontes exclusivas para explicar o comportamento das pessoas, mesmo que o comportamento de um psicopata costume derivar de condições bem menos evidentes. É esse desvio de um drama psicológico a primeira vista complexo para uma trama francamente determinista que torna o livro uma leitura fácil e o que talvez explique a trajetória comercial do livro da franco-marroquina e sua expansão ultraterritorial, fenômeno como se sabe cada vez mais restrito às obras boas de venda.

Esta com certeza não será a primeira nem a última vez que um crime bárbaro despertará a atenção dos leitores mundo afora, afinal o gênero thriller vem cada vez mais assumindo o posto outrora ocupado pelo romance policial investigativo. Além disso, o desejo humano por aprofundar-se nos aspectos sombrios da personalidade parece ser dos mais antigos e inextirpáveis. Porém o que ocorre com o livro de Slimani é que não há thriller algum. Sua novela começa justamente pelo seu clímax e é da desconstrução da surpresa que a escritora passa a construir uma narrativa que acaba reduzindo-se a uma paulatina descrição psicopatológica da babá assassina, convertendo suas características humanas em uma sintomatologia autoexplicativa.

Lousie é a psicopata formada pela devastação da pobreza e resultante de uma vida incomunicável em que nunca é dito a ela do que dela se espera e nem ela incide em um mínimo diálogo para dizer de suas frustrações e desejos. É uma personagem que age como uma peça de relógio e que em algum momento passa a agir desgovernadamente. Uma personagem caricatural e totalmente conformada psiquicamente pela condição de classe, pobreza e inveja não declarada e que muito em breve estará apavorando as famílias empregadoras de babás mundo afora e estampando por tudo posters de cinema, reproduzindo ainda mais o sucesso pan-geográfico da trama da escritora marroquina. O combustível perfeito para isto Slimani já tem: o temor universal pela segurança da prole.

Quanto ao ponto de vista formal, metade do caminho para o sucesso cinematográfico já está trilhado. O livro de Slimani é tão descritivo e livre de ambiguidades quanto um roteiro cinematográfico. É uma opção autoral a que não cabe julgar, evidentemente, mas a autora preferiu escrevê-lo de modo a descrever inclusive noções sentimentais de suas personagens. Ao invés de conduzir a narrativa de modo que o leitor pudesse ele mesmo ir construindo uma imagem tanto externa quanto psíquica das personagens, logo nas primeiras páginas é preciso deparar-se com descrições taxativas até mesmo de noções invisíveis, como traços de personalidade e o caráter moral tanto da babá Lousie quanto de todos os demais. Dada a abordagem absolutamente plana que Leïla emprega, o certo é que se trata de um livro que dará pouco ou nem um trabalho para um roteirista adaptar.

Também muito diferentemente da legião de autores constrangidos aos diversos limites geopolíticos e linguísticos, Slimani conta com um entusiasta de peso como raro se reproduz no mundo. Trata-se do presidente francês Emmanuel Macron, que convidou-a inclusive para ocupar a titularidade da pasta cultural de seu governo e que, diante de sua recusa, tornou-a nada menos que sua representante pessoal para assuntos relacionados à francofonia. Mesmo que se tratasse apenas de mais um reconhecimento devido à popularidade crescente de Leïla e não de mais um meio de levar a cabo seu projeto de expandir a presença e o uso da língua francesa no mundo especialmente através do continente africano, a escolha é simbólica.

Mesmo abordando indiretamente (muito indiretamente, já que sua protagonista é uma francesa que faz o trabalho dos imigrantes e não convive muito bem com eles) a temática sensível do subemprego dos imigantes do norte africano, Slimani é uma autora que investe em descolar-se definitivamente de qualquer viés identitário e, assumindo uma proeminente posição política, torna-se agora, como deseja Macron, a voz multicultural de uma nação que nem tanto reconhece as dificuldades reais de dialogar com a diferença mas que prefere passar longe do que possa haver de sombrio nessa temática. Convenhamos que para ganhar distância disso tudo, pouco poderia ser comparado a galardoar a autora e um livro sobre uma psicopata improvável mesmo. Também caberia notar que caso a psicopatia decorresse, de fato, de motivações como as fornecidas por Slimani, um percentual altíssimo deveria ser considerado em um país como o Brasil, por exemplo. Não que não exista, mas felizmente não se trata ainda de efeito direto da decomposição social. Já não bastasse a paranoia da violência generalizada, que uma infinidade de leitores se satisfaça com explicações e narrativas dessa espécie talvez seja ainda mais preocupante e sintomático de algo ainda a ser melhor esclarecido.

A magia apenas

De toda a poesia, prefiro a metafísica. Penso que tenho mais facilidade (e curiosidade) em compreender o inapreensível, o que passa e o que não se registra do que a concretude das coisas materiais. Além disso, penso que as coisas concretas estão muito bem nas mãos dos prosadores, dos engenheiros, arquitetos, construtores e pedreiros. Não me ocorre competir com sua perícia em desenhar e erguer o mundo das coisas nem por hipótese. Também não me ocorre competir com os estudiosos das relações sociais a primazia da interpretação do mundo político, por isso gosto menos da poesia politica do que da romântica, mesmo que esta se detenha ao mínimo eu. Pois é deste mínimo eu, e especialmente da retina para dentro, que me ocorre ser a grande competência da poesia, para onde qualquer ciência parece incapaz de descrever e qualquer credo se mostra insuficiente para confortar e tudo é tão somente tentativa e erro do ser na sua travessia pela vida.

Dos poetas brasileiros, dos antigos – que dos contemporâneos é impossível saber – ao menos, os metafísicos nunca foram muito valorizados por aqui. Isso talvez porque não seja essa a nossa maior vocação como país tropical, exposto, luminoso, etc. Mas há muitos poetas com momentos introspectivos e metafísicos muito poderosos. Penso no primeiro Vinícius de Moraes (a quem Manuel Bandeira detestou), Murilo Mendes, Carlos Drummond, o próprio Bandeira em seus momentos mais intimistas, Mario Quintana, Jorge de Lima, Cecília Meireles e sua dedicação à poesia lírica, Augusto Frederico Schmidt, Lucio Cardoso, Augusto dos Anjos e sua lugubridade, alguma Adélia Prado…

Mas, mesmo diante de nomes tão conhecidos como os acima, nem um outro mais que o tão pouco conhecido e avesso Dante Milano, que rigorosamente empreendeu uma poesia que se sabia falha inclusive ao investir-se como instrumento racional. É esta capacidade de perceber-se alheio e ao mesmo tempo completamente acessível que me parece fazê-lo o mais intangível dos poetas brasileiros. Um poeta despido inteiramente das atribuições alheias e ao mesmo tempo artífice pleno da própria existência e de seu estilo.

De seus poemas, este soneto abaixo – (além dele, há tantos poemas complexos de Dante Milano) -, mas o soneto abaixo não foi escrito na língua portuguesa, mas na verdadeira língua da poesia. E deste lugar atento a si, de quem se defronta consigo mesmo e não vê aventura nisso, apenas a magia em si mesma.

Monólogo
Dante Milano (1899-1991)
Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p. 148

Estar atento diante do ignorado,
reconhecer-se no desconhecido,
olhar o mundo, o espaço iluminado,
e compreender o que não tem sentido.

Guardar o que não pode ser guardado,
perder o que não pode ser perdido.
— É preciso ser puro, mas cuidado!
É preciso ser livre, mas sentido!

É preciso paciência, e que impaciência!
É preciso pensar, ou esquecer,
e conter a violência, com prudência,

qual desarmada vítima ao querer
vingar-se, sim, vingar-se da existência,
e, misteriosamente, não poder.

Dante Milano, por Cândido Portinari.

Incrédulo

Sei que muitos que me conhecem me tomam por cético (como se isso fosse algo essencialmente ruim e não apenas um método tortuoso de pensamento que somente me dificulta as coisas), mas, na verdade, sou apenas incrédulo. Não sou nem um pouco cético quanto às pessoas desenvolverem e aplicarem suas melhores capacidades, apenas sou incrédulo quanto a que boa parte destas mesmas pessoas desejem isso efetivamente, portanto basta que me seja demonstrado o contrário e eu mudo de ideia sem dificuldade alguma.

Defeateds

my dear B, when you died
I did not cry so much, but you don’t need
forgive me, I did
and still thank you
the few years that divided
all that misery
and our great and unforgettable friendship

I remember when you were sad
by continuous returns
to never realized hopes
“Life is like that,” I told you
without having any idea of what life was
and what happened to you

and when you fell in love
and that was inaccessible to you tell her or show it
because he never listen to you
and you taught me
to trust more in poetry than in love

today I’ll take a few heavy beers
in your memory

You knows
I have only good memories of us
and I want to thank you for having disappointed me early
about the good men and men of faith
and about yourself as well
this was your greatest proof of friendship

I remember we were looking together in books
which is not met in the streets and bars
and people had helmeted face
and dirty jokes and closed minds
like an crazy army

when things started to not give too sure
in your life
I did not know your address and your phone
or and even if you still remember me fondly
or contempt for it (I think I don’t deserve)

today I will drink white wine that I never could bear
in our memory

I need to forgive you by me
my descent and my destiny
you please to free himself from me
now that you cannot
I know that in one way or another I marked your life

the way the horses marks the abundant pasture
whales marks the forgotten water
the birds in the empty wind
and life marks the universe and history
(vainly)

because it was you that was my best memories
and no one else, when I was pure, but it was not sweet
when not yet grown accustomed to lie and to lie
when I sought to know without any suspicion
when I would rather do nothing
to live the lie of others
and you helped me understand that we were always alone
despite the love and hate that they keep for us

my dear B, when you died
I was glad to hear that you did not suffer
more than myself to know that you died

today I’ll drink the same cheap cognac with which we faced the cold
in my memory

[uma versão em português deste poema está publicado em Falso Alarde]

O leitor como metáfora (e realidade)

De década em década, o argentino naturalizado canadense Alberto Manguel refaz do seu principal objeto de estudo: a história da leitura e dos livros. No final de 2017, foi a vez das Edições SESC engrossarem sua bibliografia brasileira com a publicação de O leitor como metáfora.

Autor de dezenas de títulos, dentre os quais os já clássicos A história da leitura (1996) e A biblioteca à noite (2006), Manguel, que em 2016 voltou a Buenos Aires para dirigir a Biblioteca Nacional da Argentina, empreende em seu mais recente livro uma criteriosa investigação taxonômica a respeito dos leitores. Mesmo que possa tratar-se de modelos ideais, ou protótipos, é de pensar se seu objetivo não seria justamente identificar as pessoas potenciais com que atingir tanto através de suas obras quanto por sua atuação a frente da prestigiosa instituição. Seja como for, é bastante provável que ele se valha muitas vezes de sua própria experiência como leitor para uma das mais antigas tarefas que se realiza em bibliotecas: a classificação.

Na proposta de seu ensaio, basicamente o que se distinguiria são três espécies de leitores. Como expresso com muita clareza no título, haveria por primeiro o leitor viajante, ou seja, aquele que porta e deixa-se levar pela silenciosa aventura livresca; os que buscam o isolamento mundano e o conhecimento através da leitura (os ocupantes da torre); os que devoram (e porventura por eles são devorados) livros com avidez indiscriminada e que não poderiam ter denominação diversa de “traças”.

Embora simples, a taxonomia de Manguel tem o apuro de um leitor dos mais experimentados. Ao invés de uma proposição meramente literária ou historicista, Manguel vai organizando, das tradições literárias, as metáforas e significações que o ato de ler revela da relação do humano com o mundo; ao menos em sua experiência, não haveria interpretação do mundo sem leitura e por essa razão o ato de ler espelharia as próprias capacidades interpretativas dos indivíduos. Mas, se serve de advertência, é provável que quem buscar encontrar em seu livro apenas laivos de uma erudição afetada será, entre os leitores, o que mais se frustrará. As citações de Manguel também não obedecem a nem uma espécie de crivo acadêmico e dizem mais respeito aos encontros que escritores e leitores parecem operar durante a experiência de leitura mesmo que séculos após a morte dos primeiros; mesmo que os meios para tanto não sejam necessariamente o do texto impresso. A felicidade da leitura e de seu “ofício”, para Manguel, estaria mais relacionada ao empenho e enlevo que o leitor desenvolve pelos livros a partir do efeito da leitura do que por qualquer culto material do objeto livro.

Transportando as suas diferentes “espécies” de leitores através dos tempos, ele vai dessa forma dirigindo os leitores às suas respectivas metáforas; em determinado momento chega a parecer que deseja mesmo encaminhar os leitores de encontro aos autores que vai identificando em sua taxonomia. Remetendo-se desde a antiguidade sumeriana, através da epopeia cuneiforme de Gilgamesh, passando pelos manuscritos de Dante, os códices de Leonardo e chegando aos já impressos Shakespeare, Cervantes e Montaigne, Manguel avança em direção ao séc. XX ao mesmo tempo em que regressa livremente a autores de todas as épocas, sempre que um autor possa lhe servir na exemplificação das muitas formas de existir no mundo, de comportar-se nele e também de recriar continuamente a experiência da vida, esta que seria a tarefa inadvertida dos escritores de todos os tempos e culturas.

Ao passo em que pode ser percebido tanto quanto uma continuidade de sua permanente exortação à leitura, para leitores menos experientes, todavia, seu livro pode ter um efeito, digamos, acachapante. Ou como poderiam sentir-se leitores inexperientes diante de um desfile intermitente de nomes, títulos e citações? Dotado de um conhecimento que se poderia denominar por enciclopédico e não fossem escritos sem o menor traço de pedantismo, seus livros poderiam muito bem ser tomados como proselitismo cultural ou fútil ostentação. Porém não é disto que se trata; longe disso.

Antes de qualquer coisa, é preciso saber que se trata de um autor cuja principal preocupação é a difusão do hábito da leitura e, a menos que se tenha inventado alguma espécie de malabarismo telepático, parece totalmente impossível a qualquer um a tentativa de advogar em nome dos livros sem mencioná-los. Além disso, em sua gestão na Biblioteca Nacional da Argentina, notadamente Manguel vem investindo em todas as frentes: na conservação de originais, na expansão de coleções, na digitalização e difusão intermidiática e na promoção e atração de novos leitores. Em entrevista concedida ao portal Perfil, logo ao assumir o cargo ele já afirmava desejar perseguir a ideia de uma biblioteca para todos os leitores e interessados. Parece que a ideia borgeana de uma biblioteca universal, pelo menos em solo argentino, encontrou finalmente quem a desejasse continuar.

Não é à toa. Enquanto ao mesmo tempo abandonava a instrução formal da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, por considerar os estudos formais aborrecidos, o diletante Manguel iniciava sua carreira literária concomitantemente a de editor. Em meados da década de 60, tornara-se “ledor” de um Jorge Luis Borges já cego e que coincidentemente dirigia a Biblioteca Nacional da Argentina na mesma época; desse encontro é como se houvesse estabelecido para ele um encantamento pela literatura e, sobretudo, pela leitura enquanto hábito individual. Sua formação, completada pelo trabalho como jornalista e editor, é a de quem erigiu uma carreira viajando através de vários países e investigando incessantemente a história literária. É muito provável, portanto, que Manguel tenha desenvolvido a taxonomia do seu novo livro também a partir da auto-observação.

Quanto ao que se refere ao desejo de fomentar a curiosidade nos demais, este parece ser um hábito comum entre os bibliófilos de um modo geral. Porém, como parece ser recorrente a quem tem por missão institucional propagar o livro e a leitura, um impasse oculto às vezes mostra suas sombras em seu livro. Trata-se da irresolução peremptória da efetividade de qualquer política cultural voltada ao assunto e expressa na dicotomia estabelecida entre, por um lado, a popularização do hábito da leitura e, por outro, a especialização do público leitor.

Provavelmente por ser um autor prolífico e a primeira vez que Manguel está atuando institucionalmente (e logo na mesma biblioteca que Borges dirigiu), outras reflexões a respeito do assunto deverão advir da experiência. Isso no que toca aos interessados no assunto deverá ser um deleite por si só, ainda mais que, após a morte de Umberto Eco, há cada vez mais poucos autores notabilizados pela devoção e divulgação da cultura livresca universal quanto Manguel. Há com certeza os historiadores que se dedicaram ao tema, como Roger Chartier e Robert Darnton, mas em ambas as investidas historiográficas o que se mais pode notar são preocupações que giram em torno de explicar a evolução da tecnicidade da instrumentação escrita, sua reprodutibilidade, análises sobre o colapso do espaço físico das bibliotecas, a expansão contínua dos formatos digitais e a segurança e conservação do conhecimento em vista ao desenvolvimento das tecnologias da informação.

Sem dúvida que todas as preocupações e iniciativas em utilizar beneficamente os recursos tecnológicos são bem vindas e necessários, mas em absoluto não é este o centro das inquietações de Manguel. Para ele, interessa mais seduzir e cativar ao leitor do que porventura ele possa estar perdendo do que condená-lo à danação da ignorância, como, aliás, convém a um bibliotecário proceder. De todo o modo, não se imagine que equilibrar uma equação dessa natureza é tarefa fácil do ponto de vista da gestão cultural de acervos bibliográficos. O que não parece faltar em Manguel, todavia, é o cimento de não desviar-se de um trabalho de lenta e muitas vezes invisível consolidação dos espaços afetivos e também físicos com que uma sociedade se relaciona com a cultura letrada, que parece cada vez mais dispensar de quem a organize, valorize e promova.

Seja como for, na vizinha Argentina ou aqui mesmo, no Brasil, as dificuldades são inumeráveis e o cenário educacional e cultural um tanto quanto amedrontador. Não são comparáveis, portanto, aos moinhos do Quixote, os desafios de quem propugna por valorizar os livros e a leitura. Neste caso, os gigantes podem ser compreendidos em dados obtidos regularmente através de pesquisas e levantamentos que se fazem em todo o mundo, inclusive no Brasil.

No Brasil, quanto e como se lê?

Dos indicadores e estatísticas a respeito do Brasil contemporâneo, poucos soam tão assustadores quanto os dados sobre proficiência em leitura levantados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Banco Mundial através do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa).

No relatório, pode-se saber entre outras coisas que no que diz respeito à eficiência com que um texto escrito é interpretado, o Brasil mantém-se estável desde 2006, mas com indicadores mais distantes da média dos demais países aferidos e, por outro lado, mais próximos das piores taxas, além de projetar uma defasagem em relação aos países desenvolvidos que se resolveria em séculos ainda (cerca de 256 anos). Unindo-se os resultados aos de outras pesquisas, como a Retratos da Leitura no Brasil, promovida pelo Instituto Pró-Livro e realizada pelo IBOPE, a sensação é de premência de uma calamidade. Trata-se, porém, de uma calamidade silenciosa e que ao longo do tempo tem ensurdecido autoridades, editores, educadores, bibliotecários, autores e também o público leitor.

De que se trata de uma situação complexa quase ninguém duvida e não raro as manchetes dos periódicos triunfam com os maus indicadores brasileiros. O caminho da resignação, sempre o menos escarpado, todavia parece sempre conduzir a um senso de conformidade reincidente. Ajuda menos ainda a combalida autoestima nacional a também reincidente comparação com os dados de leitura da vizinha Argentina. Ainda que a afirmação de que apenas Buenos Aires (ou, num arroubo platino, apenas a Calle Corrientes) pudesse ter mais livrarias do que o Brasil inteiro seja fantasiosa, dados da Market Research World, no assim denominado Índice de Cultura Mundial, informam que, apesar da veracidade comparativa, o país vizinho também não anda fazendo um retrato dos mais excepcionais.

O que se sabe definitivamente é que, de fato, a situação da leitura é grave e afeta o desempenho cognitivo e cultural de toda a sociedade e de muitos países. Uma vez que o possível amparo da resignação mostra-se incapaz de recolocar em movimento a dinâmica e complexa relação entre a cultura letrada e uma população que ainda deveria ser mais e melhor estimulada a relacionar-se com o livro e os bens culturais literários, o que se pode antever é muito trabalho coletivo pela frente e a necessidade de reflexões ponderadas tanto no que confere ao sistema educacional quanto ao literário.

O cada vez mais difícil de contestar é o fato de que o impasse que a crescente expansão tecnológica deveria colocar entre leitor e leitura vem na realidade esgarçando-se cada vez mais. Não se trata de imaginar que isoladamente e sem projetos consistentes o emprego dos recursos tecnológicos resolverá a situação. Conforme os mesmos dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o constatável é um decréscimo constante do tempo dedicado à leitura (24% entre a preferência total) em comparação ao incremento do uso individual da internet (47% entre a preferência total).

Nos ensaios e artigos que publicou na imprensa a respeito das questões da escrita e do livro reunidos no livro Papel-Máquina, de 2001, o filósofo franco-magrebino Jacques Derrida veio reforçar sua ideia visionária de 1969, em Gramatologia, quando afirmou que desde aquela época o leitor passava a exercer papel imperativo em relação aos meios e suportes de leitura. Derrida, apesar de ter sido a princípio mais um dos estudiosos a denunciar o “fim do livro”, teve a prudência de ponderar igualmente pela infinitude desse processo. Resta entender se a isso convém chamar de impasse ou paradoxo e aguardar por que outros estudiosos venham também refletir a respeito, afinal trata-se de tema de interesse permanente e universal.

De um modo muitas vezes reducionista, boa parte das análises a respeito da vereda tecnológica e da sobrevivência do livro e do texto literário têm, desde o início do novo século, refletido por vezes mais das apreensões individuais do que uma observação mais apurada do contexto cultural amplo senso. Se na história da civilização certa vez a leitura ocupou papel central na formação cultural e de identidade das nações, de fato é preciso admitir que a tecnologia expandiu boa parte dos limites e cerceamentos que havia até meados do séc. XX. Se já foi o veículo de informação por excelência, fonte de entretenimento e suporte privilegiado de comunicação dos bens culturais, hodiernamente a leitura parece-se mais ao substrato multitudinário de uma gama imensa de informações que o veículo de um determinado cânone literário.

A esse ponto, verificar a inundação de livros (e livros nem sempre são obras, como adverte Derrida) e outros formatos de informação é tarefa de facílima constatação. Se a literatura, de fato, vem convertendo-se em testemunhos autorais de um interesse ao mesmo tempo segmentado e restrito e se há como ainda hoje vivificar o interesse de novas gerações por um mundo distante ou por um passado remoto, livros como os de Manguel, usando aqui de metáfora, parecem-se a faróis avulsos de um mundo mais profundo, instigante e enriquecedor que a leitura criteriosa certamente ainda dá a desvendar às pessoas. Pois a prevalência do livro agora possivelmente esteja mais relacionada a uma necessária recuperação e valoração da leitura propriamente dita do que uma substituição de técnicas e formatos. A falta de tempo, justificativa reiterada pelos desinteressados contumazes na leitura, não é furto que se flagre ou perda que aconteça isoladamente, mas a perda (tanto para pessoas quanto para instituições) é lamentavelmente irreparável e o tempo, como se sabe, brevíssimo.

Montante

a vida são coisas perdidas
são louças no momento de partir
e os cacos quando se perdem de nossa menor menção
são lugares pelos quais sem dúvida passamos
e não nos ocorre que possamos lembrá-los

são inúteis regressos a uma vida que não merecemos
e os passos que demos de onde nossa esperança
se reverte em desistência e remorso

a vida são ainda as coisas por perder
fragmentos do tempo que almejamos e vemos desgastados
sem que nos tivéssemos prometido mesmo alcançá-los
porque, ao fim, tudo se debate dentro de sua própria força
e nosso cansaço não podemos remetê-lo
ao montante do tempo só por estarmos convencidos de que lutamos

tais coisas são apenas desprendimentos da vida cotidiana
e, certo, sempre há o momento em que alguém nos chama:
– Aqui, ó Fulano! –
e, ao contrário de toda a desesperança,
essa é uma certeza que ainda requisita nossa comoção
mas sempre parece que alguém nos chama

(1990)

Amazona ferida

Jennifer Franklin
trad. do inglês

Com seu rosto sereno e inclinado que não
denunciará a dor, posso procurá-la outra vez.

Você sempre a amou – a primeira obra de arte
Que você conheceu pelo nome. Toda a semana

Você me trouxe até ela. Desatenta pelo
Vislumbre do mármore e de seu tamanho

Eu não sabia que você estava mostrando a quem
Eu precisava tornar-me para protegê-la

De tudo o que não você não entendia –
A mulher poderosa surgindo acima de tudo,

Tendo de aprender a sentir cada açoite, cada corte
E continuar em pé, com olhos vazios,

Registrando tudo. Você sabia que ela era
A mãe que você precisava, que desnudaria

Seu peito para você e sangraria sem demonstrar
Tristeza nem arrependimento. Eu só espero

Ter aprendido suas lições o quanto antes e você
Não tenha me visto derramar-me em lágrimas. Eu

Deveria pairar sobre você como uma rocha,
Apoiando-me em uma coluna, com o braço

Sobre a cabeça e a ferida estancada. Você
Me quer assim, o terror branco ocultando meus olhos

Vazios, o freio do animal amarrando meu traje rasgado –
Nua, para que visse o côncavo do meu vazio o bastante

Para suportar o peso de todo o seu temor. Eu finjo
Ser ela, em pé sobre as pernas fortes que se recusam

A sustentar-me. Ela não pode amá-la. Se eu tivesse
Toda essa força, você estaria perdida. Ela não iria

Permitir que você enterrasse a cabeça sob o braço amputado,
Em seu peito frio, e cantasse sua canção indistinguível.