Amélia

Foi bem quando meu filho entrou no primeiro ano escolar que conheci uma linda menina chamada Vanessa, de quem lembrei muito nesses dias. Dela e de sua mãe. O nome da mãe era Amélia e, assim como aquela outra celebrizada na marchinha de carnaval, também era ela uma “mulher de verdade”, ainda que por razões muitíssimo diversas.

Antes mesmo de nascer, num ultrassom, Vanessa foi diagnosticada com uma condição chamada disgenesia do corpo caloso, ou síndrome de Aicardi. Não vou entrar em detalhes sobre tudo o que pode envolver a condição, apenas que é uma alteração neurológica que costuma implicar em algumas dificuldades no desenvolvimento neuropsicomotor e cognitivo. No caso da Vanessa, havia um pouco das duas situações, uma hipotonia muscular relevante e a necessidade permanente de controle de convulsões.

Como nós, Amélia também estava buscando escolarizar a filha, o que é seu dever e sem o que estaria sujeita à fiscalização pelo conselho tutelar, ministério público e sanções judiciais previstas na forma da lei. Esse tipo de fiscalização normalmente decorre de suspeita de negligência da família quanto à escolarização e frequência e pode acarretar desde um processo judicial a até mesmo a perda do pátrio poder em casos mais graves.

Convivi com a Vanessa e a Amélia por cerca de três meses. Foi o tempo que permanecemos na escola. Depois, como mudamos para outra, perdi completamente seu contato, mas nunca as tirei da minha memória. Naqueles meses na escola pública, conheci também crianças que iam à escola para ter sua primeira refeição às 3 horas da tarde, na hora da merenda. É inimaginável que haja pessoas que roubam e desviem recursos da merenda escolar de crianças, mas há, e o braço da lei quase nunca alcança os autores desses crimes, o que nos joga num abismo civilizacional desesperador, inacreditável.

Na época, Vanessa tinha nove anos e estava no segundo ano do fundamental. Há dois, incluída ali na escola. No andar térreo da escola não havia salas de aula, apenas a estrutura burocrática. As salas de aula ficavam situadas a partir do segundo andar de um total de três andares, acessíveis apenas através de uma escada como, aliás, continua ainda hoje. Ao pé da escadaria é onde muitas vezes conversei com a Amélia e conheci um pouco da sua vida e da Vanessa e também de seus três irmãos. Ali, numa cadeira de madeira, ela permanecia a tarde inteira, socorrendo eventualmente a filha de alguma situação que a professora não podia ou não sabia como atender. Às vezes, um mero engasgo com saliva. Outras vezes era preciso ajudá-la ao banheiro. Eventualidades dessa natureza e outras.

Sem maiores justificativas, a direção da escola não autorizava que a Amélia permanecesse nos corredores escolares e então algum colega da filha subia e descia com recados para que ela tivesse como socorrê-la. Na sala de aula, numa cadeira especial obtida através de uma entidade filantrópica, a Vanessa usufruía do que se chama na lei o “ensino regular”, e apenas depois de ser carregada no colo pela mãe acima e abaixo através dos degraus da escadaria. A Amélia tinha muita força porque carregava a pequena nos braços sem nunca demonstrar cansaço e recusava toda a ajuda oferecida nesse sentido.

Orientada pelo ministério público a buscar junto à defensoria pública forma de acionar a justiça a fim de garantir uma pessoa que auxiliasse para a Vanessa, a Amélia contou-me que, após um ano de audiências adiadas, ouviu o rumor de que o governo do estado parecia dispor de alguns poucos concursados para suprir essa demanda. Dependendo, poderia ela finalmente beneficiar-se da ação. Mas, por via das dúvidas, ficava ali a tarde inteira e às vezes um pouco mais, porque o vizinho que a levava até em casa, a bairros dali, atrasava bastante. Por sorte a platibanda da escola as protegia da chuva quando chovia e impavidamente aguardavam pela carona, mesmo que o vento nem sempre colaborasse com uma possível piedade que ele, de fato, não tem.

Em razão de complicações que às vezes aconteciam com a saúde da Vanessa, muitas vezes ela ficava longos períodos sem ir à escola, mas, graças à persistência da Amélia, continuava evoluindo a despeito da carência generalizada de tudo.

Muitas mães e pais de crianças com deficiência ou limitações, são desde cedo estimulados a participar ativamente dos cuidados, estimulação e educação dos filhos. Muitos trocam de profissão e vão estudar formas de melhor ajudá-los. A gama de pais/mães terapeutas não é precisamente sabida, mas empiricamente eu sei que é imensa. Vão desde fisioterapeutas, pedagogos, médicos e assim por diante. É fácil de entender as razões desse fenômeno. Na sala da minha casa, por exemplo, instalei um quadro-negro e não é por razões estéticas que o fiz.

A Amélia, contudo, de família muito modesta, nunca conseguiu realizar essa transformação. Separada, passou de empregada doméstica e mãe de quatro filhos a dependente da ajuda dos poucos familiares em condições de ajudá-la e dos auxílios sociais (3/4 de um salário mínimo) e serviços públicos.

Ouvindo nessa semana a decisão do Supremo Tribunal Federal em invalidar o chamado homeschooling, eu lembrei muito da Amélia e dos panos de prato e costuras que ela vendia na escola, entre professores, funcionários e outros pais e mães. E pensei que ela e a filha seriam justamente pessoas que teriam se beneficiado de um programa de educação domiciliar pensando decentemente, não necessariamente integral ou em função de credos religiosos. Mas, até aí, já estaria entrando no ramo dos devaneios, o que não é nem um pouco recomendável. Apenas fiquei chocado ao ver que muitas pessoas inteligentes estavam associando os dois comportamentos: o dos fanáticos criacionistas que querem educar seus filhos com base numa ficção religiosa e o de pessoas com múltiplas deficiências ou doenças graves.

Nessa semana passada ou no máximo na outra, passei os olhos em uma reportagem de uma revista de grande circulação nacional, falando dos benefícios do brincar e dos dilemas éticos nisso envolvidos. Ao invés de associar a leitura às crianças em si mesmo, pensava justamente no que foi feito da ética interpessoal das pessoas e no compromisso moral de autoridades com a sua dignidade. Lembrei também de uma leitura que havia feito de Ortega y Gasset, no qual ele desenvolve o seu conceito de “circunstância”: o homem e sua circunstância. E pensei o quão a política tem sido pervasiva e invasiva ao mesmo tempo, porque muitas vezes sob o pretexto normativo e formalista é que acabam se criando as formas mais violentas de anomia e exclusão.

A Vanessa, principalmente pela pobreza de sua família e também pela pobreza calamitosa do estado, é apenas uma das crianças sem esse fabuloso direito a brincar e muito menos o de estudar com conforto e decência. Amélia, sua mãe, sequer tem o direito de buscar sua sobrevivência, vivendo de favores. Para ela, nada de escola em tempo integral. Para a filha, nada de um mínima atenção individualizada. Para ambas, nada disso de uma escola perto de casa, mas o trânsito interminável de cidades que expulsam os pobres para cada vez mais longe de tudo, justamente onde rareiam os serviços e possibilidades.

No entanto, para o regozijo de famílias que tem o orçamento de uma empresa, a única circunstância que admitem para os outros é algo como a sua própria, um seu espelho. Ou a generalização de um direito que eles conhecem bem por pagar caro por ele e do qual os outros apenas ouviram falar.

O que houve com o espírito inclusivo que agora pode passar sem o menor pingo de ética e compaixão? No momento em que lutar por uma lei ou por um pacto normativo qualquer se torna mais importante do que as pessoas, é que algo vai muito, mas muito mal com a sociedade. Estou falando em pessoas de verdade, não portfólios de Facebook, claro. Como Vanessa, Amélia e tantas outras que nem sabemos quantas. Nossas estatísticas, nosso Big Data estatal, sequer nos permite distinguir entre o que é real e ilusão. E achamos que sabemos de alguma coisa e com base nesse misto de ignorância e arrogância vamos consertar o mundo.

Cinco anos depois, não tenho ideia de onde andarão a Amélia e a sua filha. Alienado num mundo apenas um pouco mais confortável, me entristece muito a falta de oportunidades e um modelo educacional craquelado de tão engessado. Mas me entristece ainda mias verificar que para defender o suposto modelo inclusivo seja necessário invisibilizar histórias como essa. Bom, comigo não funciona. Não consigo. Em algum momento, não sei quando, eu me incluí fora dessa. Perdi a empatia com o cinismo. Passei a sentir saudade é da Amélia.

 

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Cantognake

Há uns dias assisti a um filme que mostrava os últimos dias de vida do chefe indígena sioux Touro Sentado. Um belo filme, baseado na história real de uma pintora e retratista norte-americana, Caroline Weldon, que arriscou a vida para retratar o legendário sioux. O filme se chama “Woman walks ahead” e não sei se já se encontra nos meios habituais, Netflix, etc.. Eu o consegui num torrent.

Além do idioma cheio de sonoridades e estalos bucais dos indígenas, fabuloso por si só, e do morticínio final da tribo liderada por Touro Sentado, terrível por si só, o filme tem alguns momentos muito bonitos sem resvalar inteiramente à pieguice, o que é meio raro em se tratando de filmes que retratam povos indígenas.

Uma cena em especial, de um diálogo entre Sitting Bull e Caroline, dão conta de uma imagem invisivelmente poética daquele momento histórico (1890). Na tomada, ambos cavalgam lentamente através da pradaria. O cacique sabe que não pode mais fugir ao seu destino e de qualquer modo irá morrer lutando contra o exército norte-americano que deseja confinar a nação dakota em regiões inóspitas e impróprias ao cultivo. A essa altura, a maioria das tribos já abandonara o modo de viver dos ancestrais e começava a conformar-se à agricultura e aos “negócios” com o homem branco. Inclusive o próprio Touro, que já havia deixado para trás sua liderança, modo de vida e a sua impressionante indumentária original. Há dessa mesma época inclusive retratos de Touro usando traje ocidental e chapéu coco. Mas, mesmo adaptando-se já às novas condições, Touro e outros guerreiros e xamãs continuavam a buscar em eventos místicos a ideia de liberação transcendental da situação em que viviam.

Por outro lado, ele sabia muito bem que lutar seria morrer, mas também que não poderia mais recusar o confronto. A retratista, tendo chegado ali naquele momento crucial onde se “celebrava” nova demarcação e indígenas reviviam momentos de violência para com seus velhos e crianças famintas, assiste aquele momento sem volta na história daquele sujeito impressionante que tantas baixas havia causado ao exército norte-americano, entre eles o também legendário General Custer.

Mas, naquele caminho silencioso em que ela buscava dissuadi-lo do confronto pelo qual seria eternizado (quer dizer, outro massacre), ele lhe explica o significado de uma palavra lakota: “cantognake”. No filme, com estas palavras:

“Para achar nosso caminho
na pradaria,
às vezes paramos…

E olhamos… Recordamos.

Com as pessoas também.

Às vezes paramos
e olhamos e recordamos.

Isso se chama ‘cantognake’.

Colocar e manter
no nosso coração.

Este momento.”

Na tomada anterior, numa assembleia promovida pelo exército a fim de explicar o que seria feito na nova demarcação, Touro havia surgido na sua veste magnífica e com seu cocar de grande chefe e uma fala muito impactante, uma declaração de guerra, sobre os sacrifícios do seu povo, os nomes dos guerreiros e chefes abatidos em confrontos e daquela forma mostra-se finalmente pronto para o que tiver de ser, justamente o que pretendiam os militares federais que também desejavam vingar-se de perdidas batalhas anteriores.

É claro que Touro Sentado entrou para a história e é lembrado até hoje pelos seus feitos militares, mas achei aquela outra cena bem mais tocante, até porque expressa verbalmente e com um significado tão poderoso. A pessoa perceber o momento presente e sua relevância é cada vez mais incomum, diante da efusão de eventos e fatos sem fim. Não estar na vida em modo piloto automático requer o sacrifício de muitas coisas. Essa é, para mim, a verdadeira percepção do épico. O resto é a mais pura neurose: viver, guerrear, morrer.

Lojinha mágica

Morar no limiar da Cidade Baixa, em Porto Alegre, tem me proporcionado ao longo dos anos diversas experiências. A maioria eu classifico como boas. Gosto do bairro e das coisas do bairro no qual Érico Veríssimo gostava de perambular para observar de esgueira a vida da pequeníssima burguesia da Porto Alegre dos anos 30 do século passado.

Também eu gosto de perambular por ali, mas isso justamente tem me causado recentemente algumas más experiências.

Não faz muito tempo que passei a acompanhar o trânsito pela Lima e Silva não apenas dos frequentadores noturnos habituais, mas também de um cada vez maior público interessado em certo estabelecimento espiritual (isso mesmo) aqui por perto inaugurado. Embora o lugar ostente uma placa que faz as vezes de pórtico, ainda hoje não consegui identificar sob que credo ou credos ocorrem aquelas práticas religiosas.

De que são religiosas e de diversas matizes eu cada vez mais tenho certeza. Há ali vários símbolos esotéricos, muitos que não sei distinguir, mas me parece claro que há influências maçônicas, haja vista a pirâmide bem ao centro do anúncio, o famoso olho de Hórus, mas também há cruzes, crescentes, uma miniatura do deus indiano Ganesh e um machado que me parece ser de Xangô, o deus da justiça das religiões africanas. Bem se vê que o pessoal ali não tem problema com sincretismo.

No entanto, mais do que tentar identificar a simbologia exuberante, nunca tentei me informar muito a respeito. Por certo há ali um ou mais espiritualistas a praticar suas especialiades e provavelmente a contabilizar alguns rendimentos, dado que o empreendimento não faz muito foi expandido ao prédio vizinho. Certamente é a forma de melhor atender a clientela que nas noites de quarta-feira costuma fazer fila desde a metade da Lima e Silva até boa parte da Venâncio Aires, dobrando a esquina, para obter seu aconselhamento espiritual ou outro dos serviços que ali devem ser prestados.

É bom que diga que nunca tive e nada tenho contra o estabelecimento e muito menos com a prática religiosa aparentemente diversa que ali é praticada. Não entendo dos desígnios do além mais do que minha ignorância permite e por muito tempo apenas me espantava com o crescente da fila e da aglomeração. Sinal de que os tempos não estão fáceis e o conforto espiritual anda cada vez mais necessário. Às vezes as duas necessidades se acompanham, a material e a espiritual. Eu sinceramente acho isso tudo bastante compreensível.

Apenas não consigo achar compreensível é que pessoas em busca dessa espécie de conforto, aconselhamento e etc pretendam purificar seu interior, espírito, alma, o que seja, deixando em seu rastro uma trilha de imundície e sujeira sem explicação.

Como morador, atualmente me incomodam muito menos os bêbados da Cidade Baixa que essas pessoas “espiritualizadas”. Devem se achar puros espiritualmente os fregueses do comércio esse, mas, na verdade, não saem de lá nem um tantinho melhores cidadãos, senão teriam a vergonha de pelo menos juntar a imundície abandonada às ruas e calçadas.

Espiritualidade muito pouco sustentável essa. Se é que vale mesmo esse nome o negócio da lojinha mágica.

Fé é pra quem tem

Há dois anos atrás, andou um tornado por Porto Alegre, no verão. Era janeiro e eu estava com a família no litoral e planejava viajar diretamente do extremo norte do estado até a fronteira do Uruguai. São 624 km de estrada, mas é o jeito de ver a minha família e a família de minha mulher no fim de ano, quando temos tempo pra deslocar todo mundo. Uma noite antes da viagem veio o vendaval e os tornados que deceparam as árvores da cidade, destruíram telhados e deixaram a capital sem luz elétrica por cerca de três dias.

Chegando em Porto Alegre, minha cunhada acabou por levar até à fronteira minha família. Eu fiquei para ajudar os moradores do condomínio, há muitos idosos entre eles, e cuidar de saques que andavam acontecendo, além de providenciar o conserto de parte do telhado que havia se danificado. Também precisava de um tempo pra terminar um livro que andava escrevendo e então ganhei esses dias de “folga” pra completar a tarefa.

A cidade estava um caos verdadeiro. Na minha rua, onde acaba a Cidade Baixa e começa o bairro da Azenha, dois imensos jacarandás impediam o fluxo. O mesmo acontecia em toda a cidade. O Parque da Redenção era o retrato de um verdadeiro apocalipse.

Naqueles dias, haveria festas de pré-carnaval de rua na Cidade Baixa que foram canceladas, deixando seu público preferencial a ver navios. Esse pessoal na época frequentava muito um botecão de esquina, quase defronte a onde moro. Sem mesas nem cadeiras, onde tomavam cerveja barata e em pé, sempre tinha um bom número, antes de seguirem seus destinos noturnos. Pessoal sempre bacana, tranquilo, sem incidentes maiores. Às vezes algum mais emocionado (provavelmente pela política estudantil, já que em sua maioria os frequentadores eram universitários), mas nada de tirar o sono (pelo menos do meu lado da vizinhança).

Passsei uns bons dias de trabalho a fim de conseguir ajuda para o telhado e dando jeito no que podia, mas não consigo tirar da cabeça uma cena que infelizmente vi com os olhos que essa terra há de comer e me causou um insight, já que o ser humano é dado a insights eventualmente.

A cena era dificil. A rua estava interditada e não havia equipes disponíveis para a remoção das árvores tombadas. Em virtude disso, alguns poucos moradores, pessoas de idade, começaram a tentar liberar a via. Imagine-se que, numa emergência médica, de outro modo não seria possível passar por ali.

Seu trabalho começou de manhã e até meados da tarde pouco haviam avançado, mas o botecão havia aberto suas portas para receber a clientela para um esquenta da festa de rua, ainda que num cenário daqueles. Juntou muita gente, como sempre.

O bar, sem energia elétrica, oferecia cerveja morna em isopores improvisados, mas o pessoal não arredava o pé e custou a dispersar, assistindo aqueles velhos trabalharem sozinhos sem nunca lhes oferecer ajuda para nada. Os uiniversitários festivos, o “futuro da nação”, suas “melhores cabeças”, apenas faziam beber, beber e beber cerveja morna da AMBEV, empresa do maior bilionário brasileiro, sem nem enxergar o que se passava em torno de si, sem um gesto de solidariedade ou cooperação para com quem fazia uma força que não tinha nos braços para arrastar tocos de árvore pela rua.

Acho que não preciso explicar mais sobre o insight que tive naquele momento. Foi e é auto-explicativo.

Por isso não me serve esse luto momentâneo de avatar de Facebook. Este é um pesadelo que vivemos há tempos e do qual o futuro, com essa garra, esse animus todo, não nos resgatará.

Desculpem ter de contar essa história, mas é verdade esse “bilete”.

O raio problematizador farroupilha

Os gaúchos têm todo o direito de detestar o mês de setembro. Eu detesto do fundo do meu coração este mês maldito que num dia faz um frio enregelante e, noutro, calor insuportável, tudo isso entremeado por um vento contínuo e sibilante, virações repentinas e os próprios gaúchos, que nesse mês se revelam pessoas das mais enfadonhas do universo.

É o mês em que se volta aos grande temas sulistas, a saber, o tradicionalismo, o hino rio-grandense, farroupilhas e outras coisas totalmente irrelevantes ao resto do mundo, mas que aqui, por tédio ou traumas, costumam despertar a ira e o contencioso de pessoas que nos outros onze meses do ano até parecem inteligentes. Em setembro costumeiramente essa máscara cai por completo.

De todos os dramas locais, poucos me parecem tão inabordáveis quanto a presença dos dois seguintes versos no refrão em nosso hino, composto, dizem, no ano de 1838.

“Sirvam nossas façanhas / De modelo a toda terra.”

Sob variáveis argumentos que vão desde uma suposta manifesta e atávica arrogância até os argumentos históricos que dão conta da ausência de qualquer façanha, é impressionante o grau de devoção semântica a dois versos de um hino. Pois o raio problematizador do hino consegue ser tão ou mais tacanho que o próprio hino, porque deveria parecer óbvio a qualquer pessoa que os hinos costumam ter o objetivo de exaltar o ânimo pátrio de um povo e não o de aniquilar sua auto-estima ou confrontá-lo em seus exageros.

Há quem inclusive saque do exemplo de como o hino é cantado nos estádios de futebol e pátios escolares, a plenos pulmões, para “comprovar” que somos todos, sem exceção, separatistas ou neonazistas por isso mesmo. Ora, a comprovação final dessa brilhante dedução seria a forma com que se cantaria o hino. Bah.. Tri complexo esse raciocínio..

Acontece que é um hino fácil e efetivamente entusiasmado, muito ao contrário do hino nacional, todo cheio de inversões e apassivamentos que parece até que foi compsto pelo meste Yoda, de Star Wars. E com frases de um entusiasmo fabuloso, como na frase “deitado eternamente em berço esplêndido”. Alguém consegue mesmo ouvir isso sem sentir ganas de amor pela pátria-mãe?

Seja como for, numa demonstração de chatice ímpar, toda essa tradição critica (porque de tanto repetir-se os argumentos já pode ser chamada de tradição) acabou conseguindo o impensável, que é tornar-se tão ou mais impalatável quanto os aspectos mais toscos do culto ao passado, seja o real ou o inventado. Mas esta parece também uma tradição dos gaúchos, essa luta frátria, esse sectarismo doentio.

Desde 1893, entre republicanos e federalistas tem havido bastante disso por estes pagos. Mas, lá pelo menos, tinha a emoção de um eventual entrevero mais sério ou até uma degola. Agora a briga é no Facebook e, como todas as brigas de Facebook, ridículas e sonolentas. Mas, cada tempo com as suas respectivas façanhas, não é verdade?

Haja saco de ser gaúcho..

Desocupado

quanto podem sonhar
os sonhos desocupados
eu não sei

e o que mostrariam as fotografias
ainda por fazer
não também

eu não sei
quanto posso supor
e o que será meu

ou se tudo o mais
que havia
está perdido

não saber
é um alívio
que me daria

se a noite densa
não me aprumasse
em antigos ontens

nós sabemos (não sabemos?)
com desinteressado
desdém

que sempre há fantasmas
rondando
o não havido

Rompimento

Dizer a ninguém essas palavras
não é o mesmo que não dizê-las.
Estavam cobertas de pó.
Eu vim ventilá-las ao céu da manhã.

Livres, vejo que
nunca me pertenceram, e que
teriam se perdido de mim
caso pudesse perdê-las.

Estavam como se numa barreira,
presas por uma pedra só,
mas respiram melhor agora
do que aqui, amanhã.

Teria as sufocado, gritado
ou, de outro modo,
duvido que me salvassem de todo.
Seu limite é duro, preciso,

e servem para aquele momento,
mais nada. Ainda que
não desejasse, mais tarde
estariam todas erradas.