Quimeras, 2

Para esta página,
nem uma palavra a mais.

Para os dias que se seguem,
nada de retroceder.

Para esta vida sem governo,
um parlamento em ruinas,

uma eloquência vazia,
a fuligem das minas.

2

Nada de obter de volta
os velhos caminhos vazios.

Dei parte de um silêncio tamanho
e agora não sei o que sinto,

mas é como estar de volta –
sempre estranho

(como ouvir vozes trocadas
contra a mesma porta).

3

A melhor parte? Perdeu-se
em algo que eu acho que disse

por obra de outra pessoa
num conto ou lenda infantil.

O que eu vejo não tem importância.
De sobra, a memória de herança

(uma poça de álcool queimando
e um vento eternamente frio).

4

Para quem deseja decifrá-la,
a noite sussurra em cifras.

Para quem busca encontrar
algum sentido em tudo,

resta pouco – e ninguém sabe dizê-lo.
Parece que entendi agora

com alguém que passou no escuro,
mas já não está, já sumiu.

5

De volta ou adiante,
há um momento indiferente.

Não há ninguém olhando
e, no espelho,

um rio atravessa ileso
como um chamado de Iara

(o mistério de estar indefeso
à vida e suas quimeras).

A casa do filósofo está a queimar

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 24/07/2021.

Não foram poucos os pensadores do mundo contemporâneo com alcance global que, desde janeiro do ano passado, emitiram opiniões quanto ao impacto da pandemia no mundo político e no mundo das ideias. De Edgar Morin, a Bertrand Brasil (Record) publicou em 2020 “É hora de mudarmos de via: as lições do coronavírus”. Yuval Harari, autor do best-seller Sapiens, teve seus artigos compilados pela Companhia das Letras em “Notas sobre a pandemia”. Slavoj Žižek projetou a reinvenção do comunismo em lançamento da Boitempo: “Pandemia: Covid-19 e a reinvenção do comunismo”. Judith Butler analisou a questão do luto e do acesso desigual à saúde com o seu “Vida precária: os poderes do luto e da violência” (Autêntica). Mas Alain Badiou, Byung Chul-Han, Angela Davis, Theodore Dalrymple, David Harvey, Bruno Latour e outros nomes menos difundidos por aqui também publicaram artigos e movimentaram a vida mental do planeta enquanto o vírus se espalhava em suas mutações, além dos próprios autores brasileiros. Entre todos, todavia, ninguém como o italiano Giorgio Agamben se expôs tanto e foi tão combatido em suas polêmicas. É dele que a Âyiné publica agora “Quando a casa queima”, obra na qual o pensador italiano leva ao expoente máximo a sua compreensão biopolítica (e filosófica) do momento.

Quando um filósofo oferece ao mundo a sua compreensão de um assunto, não há garantia alguma de que será compreendido, bem recebido ou sequer tolerado. Pensar o mundo requer tanto uma visão abrangente quanto um potencial de leitura do qual cada vez mais as pessoas têm abdicado em prol dos filtros que a leitura por meio da internet canaliza às pessoas em suas convicções ou preferências, a depender de como se queira denominá-las. E pensar a contemporaneidade parece cada vez mais requerer um atestado de frequência escolar, mesmo que alguém como o centenário Edgar Morin não se furte nem a pensá-lo e nem a emitir suas impressões sobre o tempo de agora e, como visionário, também o mundo do futuro. Essa, porém, é uma ressalva improdutiva dado que o pensamento acompanha a vida e pode ser dado como sua grande fonte de energia. Ao longo dos últimos anos, Agamben vem se notabilizando pela cimentação de um edifício teórico baseado na ideia do estado de exceção, confluência da biopolítica foucaultiana e das técnicas de controle de Estado cada vez mais amparadas pela indústria tecnológica. A crise do coronavírus e suas medidas de contenção caíram como uma luva, portanto, para que ele desenvolvesse os pensamentos mais polêmicos entre todos os que vêm refletindo quanto à crise e seu enfrentamento.

Embora seja injusto afunilar o trabalho de Agamben unicamente em direção aos seus escritos mais recentes a respeito da pandemia, seu gesto em prol de uma defesa da autonomia da vontade caiu malissimamente mal na opinião púbica planetária porque justamente ao mesmo tempo em que a Itália (e logo depois o mundo inteiro) mesma se via na dificuldade extrema com a crise sanitária, mal tendo como dar conta de seus mortos. Após a publicação do seu polêmico texto inaugural a respeito da crise, A invenção de uma pandemia, o mundo ficou um tanto chocado com as opiniões do italiano ao classificar as medidas de contenção da vírus como “irracionais” e “imotivadas”. Lido com o distanciamento de ano e meio transcorrido e um saldo de quatro milhões de mortes, o artigo soa escandaloso, pois mesmo uma reclamação à liberdade factual foi generalizada como se a pandemia pudesse resumir-se num subterfúgio dos governantes para limitar e condicionar a experiência da vida social sem qualquer prazo ou transigência.

O rigor que Agamben aplicou na interpretação do decreto-lei do governo italiano que deu providências em relação ao surto do coronavírus na Itália, em fevereiro de 2020, por sua vez foi aplicado de volta ao seu próprio artigo. Apesar de que Žižek tenha cogitado inicialmente seguir um caminho semelhante de análise, Agamben não parou de refletir e publicar a respeito do assunto em sua editora, a Quodlibet, e dali espalhar-se ao mundo. Se o caráter suspensivo da pandemia atingiu aos demais pensadores ou levou-os a considerar outros aspectos e derivações do problema, nele se radicalizaram.

Não é de hoje que filósofos que causam escândalo conseguem às vezes serem mais interessantes do que aqueles que simplesmente surfam na opinião pública. Neste caso, Agamben pode ser considerado o único a tomar de uma onda gigante como o surto pandêmico e refletir, diante disso, quanto ao desnudamento total do ser humano em relação ao mundo político. Assim, mesmo que contestado, ele demonstra que o pensamento é sempre uma atividade de risco. O fato de ele jogar-se a um risco não calculado poderia inicialmente tê-lo detido em suas reflexões, porém isso também não aconteceu. Ao longo de 2020 e 2021, ele publicou quase duas dezenas de outros artigos em que prosseguiu discutindo as implicações da pandemia e suas medidas de controle, culminando neste “Quando a casa queima”, que a editora Âyiné agora traduz para o público brasileiro.

Com um título que remete à fábula budista da “casa em chamas”, Agamben desvela um mundo de pessoas conformadas e amedrontadas por um estágio derradeiro do estado de exceção que ele já vinha pensando desde o seu Homo Sacer, de 1995, no qual as pessoas teriam sacrificado voluntariamente a liberdade em prol da sobrevivência mais elementar. E mais drástico é que não haveria nesse sacrifício qualquer recompensa a não ser perdurar. Agamben é o filósofo que afirma que a história não oferece saídas e que o mundo, tal como a casa em chamas da parábola, oferece vida e morte na mesma receita.

Lido rapidamente, o texto de Agamben se parece mais a um esboço poético, uma sublimação extremada do espírito, que a um conjunto pragmático de soluções renovadoras para as condições de vida das pessoas no mundo pós-pandêmico. Essa imaginação, aliás, também já suspensa em vista da obtenção de um controle relativo do surto decorrente mais da técnica das vacinas do que exatamente de uma contenção autônoma das pessoas. O espanto da negligência com a vida só faz sentido quando a vida é mais valorizada que as coisas.

Este é bem o espanto de ver a menos valia que as pessoas parecem dar ao autocuidado e isso não se dá por uma disputa consciente no nível dos conceitos biopolíticos, como quer o italiano, mas pelo que cada um tolera como suportável do controle que o outro, ou o Estado, procura exercer, seja por meio da coerção legal, da reprovação moral ou do cancelamento social. Agamben sem dúvida corre o risco do cancelamento e de receber os qualificativos negativos que já recebeu, mas, por meio do livro em questão, poderá se concluir se ele vai ser consumido pela própria alegoria ou, então, surfar no topo da onda de uma liberdade de pensamento que há tempos os pensadores e humanos mortais vêm penhorando em troca da sobrevivência.

Dedicatórias

Se tem uma coisa que me deixa atordoado ao comprar livros em sebos é me deparar com pequenos cartões, bilhetes e lembranças alheias dentro dos volumes. Não sinto isso e tenho nada contra anotações, grifos e marcas de leitura. Mesmo pequenos rasgões não me incomodam, mas cartões de hotel, invólucros de chocolates e até mesmo pétalas e folhas pequenas me deixam inquieto, como se estivesse invadindo a intimidade de alguém. Parece que os livros são, na verdade, simples adereços e que existem apenas para enfeitar as pequenas relíquias esquecidas ou deixadas em seu interior.

Porque ninguém é imortal ou faraó do Egito antigo, já comprei livros em sebos de pessoas conhecidas. Até mesmo de escritores famosos. Às vezes assinados, noutras autografados e dedicados, precisavam de um destino e, mesmo não sabendo que seria as minhas mãos e olhos, sei que fizeram longas, inimagináveis viagens até que eu flagrasse seus nomes ali dentro. A sensação (absurda, eu sei) é de uma espécie estranha de furto, como se estivesse me intrometendo na memória alheia, reduto último da individualidade. Muitos escritores e colecionadores têm grandes bibliotecas e às vezes, por falta de outra opção, seus livros acabam indo parar nos sebos.

Aqui, em Porto Alegre, já comprei livros que foram de Laci Osório, Manoelito de Ornellas e Caio Fernando Abreu. Também tenho alguns livros com um carimbo não identificado que muito me intriga. Um ex-libris com uma frase em latim e uma criatura mitológica que desconheço. Mas o mais estranho que já me aconteceu foi ter comprado um livro provavelmente presenteado a alguém e que tinha uma dedicatória apaixonadíssima não endereçada e nem assinada. No lugar dos nomes, apenas as iniciais “M L” no cabeçalho e uma única letra “D” no rodapé. Entre um e outro, uma declaração de amor eterno, é claro, e um convite para um encontro num banco de praça, “sob a paineira encachopada”.

Acho que comprei o livro mais pela dedicatória que pelo conteúdo, é provável que sim… Logo ao sair do sebo e procurar o caminho de casa e depois de tanto ficar ali dentro, precisava fumar (nessa época ainda fumava) e, de preferência, acompanhado de um bom café. Ali perto não havia onde encontrar o café, mas a carteira de cigarros consegui comprar numa tabacaria modesta. Pensava em quando teria disposição para abandonar o vício, andava pensando muito nisso naqueles dias, mas não seria naquele momento. “Um dia desses eu paro”, era como eu me auto enganava sobre a resolução, sempre adiada.

Com o cigarro entre os lábios e fumaceando a avenida, decidi atalhar pela Redenção. Ganharia uns bons quinze minutos se o fizesse e ainda aproveitaria o restinho do sol da tarde de inverno. Já não havia tanto por ali namorados fazendo hora, mas, à direita do meu caminho, notei que havia um casal bem jovem que brigava amargamente, entre lágrimas, gestos e as costumeiras e inúteis reparações discursivas. A cena lamentável, de amargar, chegava a pedir que tentasse ajudá-los a encontrar um acordo, mas o bom senso mantinha-me à distância. Se tivesse apressado o passo, poderia tê-la escutado dizer qualquer coisa antes de dar as costas ao jovem e partir rumo a Osvaldo Aranha de onde eu viera. Mesmo assim, o chão de terra teria abafado o impacto de um livro que ela deixou no chão e ele não sabia se a seguia ou se pegava o volume do chão. No fim das contas, não se agachou e foi atrás dela até um pedaço do caminho sem, no entanto, alcançá-la. Depois, parecendo ter caído em si, parou e tomou a direção oposta. Rumo ao chafariz central ou além.

Desacelerando o passo, observei a cena o quanto pude. Os dois caminhos distintos, os destinos de um e de outro também. No meu trajeto, ficara apenas o livro abandonado e, por força do hábito, agachei-me para pegá-lo do chão, quase ao pé de uma árvore de tronco espinhento que havia ali (não posso dizer se uma paineira, porque não guardo nome de árvores). Julgando-o pela capa, não parecia valer mais que o jornal do dia. Mesmo assim, folheei rapidamente sem saber o que fazer com a brochura. Jogaria ao lixo? Correria atrás de um deles para devolvê-lo? Atrás dele? Dela? Não, melhor nada. Talvez o livro fosse aproveitável, porque nenhum livro deve ser julgado pela capa, não é mesmo? Levaria comigo. Algum espacinho haveria para guardá-lo em casa. Na verdade, já tinha tudo planejado: guardaria o comprado junto ao encontrado e leria a ambos, um dia desses, com o mesmo cuidado, pelo menos até onde fosse possível.. Mais cedo ou mais tarde eu perceberia que ilustravam um e outro a mesma dedicatória, apesar de outras iniciais. Sem dúvida não se tratava das mesmas pessoas, mas nenhuma dúvida que do mesmo amor.

Circular Urca

ela tinha um cabelão
e contei uma história
que não lembrava mais
de um pássaro que se acomodou
em meio aos seus miolos moles
uma vez

de um tempo cheio de horas vagas
de quando não havia no que gastar
dinheiro que tb não existia

(na verdade, iguais às sombras
encostadas sob a marquise
à espero do ônibus, na volta:
circular Urca)

ela tinha uns olhos verdes
onde eu nunca mergulhei –
nunca teria mergulhado –
com minha sombra
eu protegia do solaço
a pele branca, por inteiro,
que mormaço..

(outra vez quase afundei
não pq eu soubesse nadar,
mas pq ela estava lá)

e tinha um entusiasmo
que era gigante
cantava comigo qualquer coisa
sem melodia, sem letra
nada que é bom
a gente na hora
pensa que presta

(nessas horas
há um silêncio sempre
que vai se acordando
ao mesmo tempo
abafando tudo –
hoje um estrondo)

2

se eu passar ao seu lado
outra vez
não soe alarmes

(deixa quieto,
fica na tua –
mas não se afaste..)

enquanto há tempo
a manhã perdura –
enquanto há tarde,
noite que baste

com ela o atraso
era um breve torpor,
depois acordava, e passou
sempre cedo demais

foi menos grave ao seu lado
e mais eu sonho por isso
dos sinos que batem
sem muito alarde

não tão mais perto
nem tão mais longe
é que apenas nos seus olhos
eu fiquei sempre acordado

As ideias felizes, 2

Se antes a vida estivesse boa, eu nem atinava de perceber o quão ruim ela anda agora, nesses dias fechados, engavetados, reprisados de outros idênticos. Tem dias que nem mesmo o sol amarelo-azulado do inverno, à contra luz, conduz a minha vontade às ruas. Isso que a planura do Menino Deus quase não sacrifica meus joelhos nem o quadril titânico, onde acabei vindo morar.

Porém agora eu encontrei com o que me ocupar na falta do jogo de canastra dos vizinhos e dos livros e filmes aborrecidos. É que eu não tolero mais encontrar na televisão os atores do TCM, velhos quando eu ainda era um menino, perpetuamente jovens, bonitos e saudáveis. Sem pinos e nem ressalvas especiais na vida.

E também os livros me enfaram de uma tal maneira que nem é bom comentar ou pensar, afinal, vá que se ofendam os fantasmas desses gigantes todos e decidam por me punir de alguma maneira, eu não sei, quitando a minha memória num golpe só, que no fundo eles são bandidos mesmo. Esses sujeitos. É que cansa sobremaneira (se eu te contasse) ter de topar com a sombra dos outros, esses semideuses.

Eu antes preferia as pombas de longas tardes à toa, que pelo menos parecem nunca serem as mesmas. Pombas avulsas em frente ao banco onde vinha tomar meu punhado de sol antes de substituí-lo definitivamente por cápsulas de vitamina e recomendações de mais cautelas e quietudes intermináveis. Eu sei que vai chegar o dia em que vou preferir as cápsulas, mas, enquanto posso, deixo que o sol banhe a estrutura do corpo. Com a fronte protegida de qualquer coisa, é claro. E um comprimido de aspirina no bolso da frente pro caso de um enfarte. Quem é que sabe?

Mas eu vinha dizendo que a vida era suportável, agora melhorou muito com esse trumbico que o vendedor me instalou no aparelho novo, presente dos netos. Diz ele que é de “encontros”. E me deu, de atrevido, um perfil falso. Pra mim, é diversão pra horas e também a coisa de ir pra cima e pra baixo dá uma noção de movimento, de algum movimento nessas tardes pachorrentas, intermináveis.

Agora, quando até respirar virou quase desaconselhável e as figuras vão mudando, como num interminável menu de gente, e se repetindo, eu me confundo a elas e parece que desapareço da mesma forma que no footing do Centro, ainda que não se compare vida de verdade com isso.

Só convite mesmo nunca pensei que pudesse acontecer, de alguém, por me conhecer. A foto que depois troquei não é má, mas tampouco realista. Deveria me sentir um enganador por isso? Não… Também não faço ideia se essa Maria Helena é essa pessoa mesmo, apesar de que, se tem uma coisa que velho não se engana, é o ouvido (apesar da surdez). Mesmo rareando, lá dentro a gente sabe quando a voz se encolhe na garganta, rascante, e atinge as ondas sonoras com seu traço inconfundível de ave antiga, naquela rouquidão que sempre entende de se instalar e inundam as cordas vocais às vezes, e as embaraçam.

A Maria Helena não há de ser golpista e, mais a mais, vai me roubar o quê? Minha niqueleira? Os documentos? O cartão da formidável aposentadoria? Prejuízo sem monta, que me leve tudo se for mesmo mais sábia que eu (o que também não é difícil), e souber que podemos por um momento também congelar o tempo, como num beijo de três segundos, Cary e Ingrid. Ou três vezes três…

E, se for golpe, sequestro, o que seja, pelo menos olhei pra cima um pouco, tirei o mofo e me iludi. Não dizia aquele outro que a vida é sonho? Ah.. Maria Helena, olhe pra mim… O meu estado de nervos. E não repare em nada. Olhe em meus olhos, não seja tola de me comparar. Não é verdade que todo mundo fica perfeito quando não é comparado? Agora, se for pra me roubar, que roube direito, com gentileza. Porque tem muito diferença entre ser enganado ou bem roubado.

Conforme o prometido

Se não tivesse ainda alguma dúvida, o cartazinho esfarrapado colado ao poste nem teria me chamado a atenção. Teria passado os olhos por ele e me fixado no céu azul por detrás do arvoredo da rua. Limpo e azul, céu de um frio tão impermeável que até os passarinhos o evitavam, escondidos nos galhos mais grossos, sem um pio que se ouvisse.

Esperando a vez no dia mais gélido do ano, sem ir pra frente nem pra trás e sem mais o que olhar de tanto tempo ali, não sei como, mas guardei o número comigo, como se ele tivesse sido por mágica impresso por dentro das pálpebras. Logo eu, que nunca fui bom de guardar números.

Mas aquele era um cartaz que tinha tanta eficácia de promessa que eu me vi obrigado a repensar se ainda usaria uma chance mais de vê-la na minha frente. A sua cara mais inconfundível. Desenxabida mor.

Só que, pra cumprir a sua promessa, “trazer de volta”, a criatura ainda precisava ser minha. Ainda precisava ser o “meu amor”, mas será que era mesmo? Amor? E meu?

Eu não sei…

Desde quando a gente sabe, aliás, que deixa de ter o outro, se o outro é sempre mais hábil em esconder isso do coração da gente do que a gente pode perceber?

E pra ser “meu”? Não é preciso mais que eu assim o sinta? Ou que ela, vá lá, que esperança… ela também se sinta assim? Ou basta só a vontade de um e outro dobrando os joelhos, justo, ao sentimento vizinho, mas, ainda assim…

Por essas dúvidas e outras que talvez seja melhor deixar tudo isso de lado. Melhor, muito melhor, é adiantar o passo e deixar anúncio e poste pra trás. Deixar tudo pra trás. Isso sim seria uma solução e nada disso de trazer de volta, nada disso de revolvido, nada disso de requentado.

Além do mais, “de volta” vai quem foi pra voltar dali há pouco e não pra sempre, conforme o prometido. De volta vai quem a quem o destino é o mesmo nosso, ou pelo menos o pretende como seu.

Mas será que não?

“Posso pagar em vezes?”, eu perguntaria quando o nome me atendesse.

Não. Parar com isso, já, meu amigo, digo-me. Oriento-me. E a fila, sem falar nisso, já vai andando mesmo.

Mas, se voltar, de fato, que seja sem promessa alguma. Não mais. Seja naquele vestido de flores escondidas em seu nome, que só eu soube. A única maneira admissível.

Sete dias e, então, na próxima terça-feira, de volta.

E no rádio vai tocar a música do nosso noivado, num bandolim de cordas dobradas como se fosse tocado por anjos – e verdadeiros.

Ou então não pago nada. Ou o dobro, pra que tome distância segura. Desapareça ainda que isso me abandone na desassistência de mim mesmo, que tanto se me dá? Que vai mudar? Não pago nada e ponto. Já me gastei de tudo o que devia e o que não era devido. E tudo anotado aqui ó.

Sete dias é tempo o bastante até pra que eu me ponha longe daqui e, quando ela voltar, eu não esteja mais. E é só por isso mesmo que aceito pagar. Use o que for preciso. Feitiço, vela, mandinga, que me importa… O “meu” amor de volta, contanto que eu não esteja mais aqui.

Quercus faginea, 2

Tirar tudo de cima de mim.
Tudo o que está me dizendo
essa árvore plasmada
em segredos.

Também eu posso
trocar o silêncio da casa
à tua partida.

Ou parece justo
essa tanto de espera
por outra despedida?

2

Sob o peso dos frutos
do passado, tu te aprofundas.

Tuas raízes
entrelaçaram em mim, no futuro
que ainda não vimos.

3

E se me levasses contigo,
concordarias
em aliviar teu jugo?

4

Teu olho pesa ainda
como o primeiro e último juiz.
O único que sabe perdoar sem esquecer.

5

O teu mundo me apequena tanto…

6

Porém, se eu quiser sair, tu não permitas.

Por alguma razão
sanguínea, incompreensível,
acomodei-me em ti.

7

O tempo contigo é livramento.
Nunca foi castigo.

Falso alarde, 2

Quantos estão morrendo
agora, pensa melhor,
quantos morreram antes
no coração que os carregava
indolentemente?

Quantos estão ferindo
ou já feriram, por
espetar na memória
bocados de esperanças
que nem eram suas?

Quantos estão sorrindo
ao encontrar o seu nome
a salvo, ou num escudo
partido, a ilusão
de não estar ali também?

Quantos de nós, ou nós mesmos,
estão morrendo muito antes
do que deveriam
por não aprenderem nunca
a viver do modo que é certo?

Quantos no incógnito
instante e um documento
embebido em fogo
anunciando ao passado,
talvez, quem eles foram?

Do ser apaga-se a essência
com a mesma solenidade
que a nuvem se dissolve
em águas. Como o estrondo
do trovão passado.

Esse rumor de que a manhã
já é tarde é mesmo prenúncio
de outro futuro? Ou é mais
do que pensamos, mas não fazemos,
falso alarde?