Instinto e estigma no regionalismo

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 20/03/2021.

Um risco que os escritores nascidos nos vizinhos Uruguai e Argentina nunca correrão é o de abordarem a sua população do interior e verem suas obras guardadas na gaveta taxonômica do “regionalismo”. Para os escritores do Rio Grande do Sul, isso poderia até suscitar inveja se o contraste não constituísse um espelho privilegiado pelo qual se pode notar o distanciamento cada vez mais radical que é travado no campo literário quanto ao impasse da representação rural na literatura rio-grandense, seus temas e dilemas.

Para o Rio Grande do Sul, trata-se de uma caracterização inescapável cujos personagens vão sendo obliterados na literatura aqui produzida. O fenômeno não é recente, vem de algumas décadas, e o desaparecimento paulatino de enredos interioranos ou rurais na ficção rio-grandense se acompanha por outros fenômenos, como a preponderância do meio audiovisual no lazer urbano desde os anos 60, a hegemonia tradicionalista da representação popular e o crescente deslocamento para temáticas cosmopolitas, com o recalque da representação rural aos conteúdos históricos.

Esse desvio vem acontecendo numa perspectiva conflitiva na qual a literatura local ora se debate entre o acesso ao “instinto de nacionalidade”, conforme proposto por Machado de Assis em 1873, ora em sua refutação pela identificação com a literatura do Prata. Considere-se ainda que as relações políticas entre província e metrópole desde 1835 nunca foram das melhores. Tudo isso nunca competiu, todavia, em que os autores rio-grandenses procurassem alijar-se do sentimento nacional, apenas que desejavam manter seus traços culturais e históricos a salvo de uma alienação que, ao fim e ao cabo, foi confirmar-se um século mais tarde, no desenlace contemporâneo desse processo.

Presente desde quando Alcides Maya defendeu na Academia Brasileira de Letras a tese do “federalismo literário”, tal ruptura nunca se confirmou e, no decurso do séc. XX, produziu-se aqui uma literatura motivada na vida rural, do interior, e outra cosmopolita, sediada nos bairros de Porto Alegre, conformada por interioranos emigrados. Apesar de que se consolidasse uma crônica de costumes de tom saudosista, no plano editorial a convivência era pacífica e a redescoberta da obra de Simões Lopes Neto elevou a um patamar superior a dicção rio-grandense, descolando-se a partir daí do criollismo platino.

Nos anos que antecederam a Segunda Guerra, ao passo em que se confirmava um campo literário pelo empenho da Editora Globo e seus articuladores, o eco modernista se fez presente numa geração (a de 30) que apenas mais tarde seria revista. No longo período entre as décadas de 20 e de 60, o apogeu e o ocaso da Globo confundiu-se com o próprio destino da literatura rio-grandense e a fixação do seu “regionalismo” se deu com edições de luxo e populares de autores que inventariavam o seu “instinto regional”. A Coleção Província, sucesso comercial sem precedentes, foi o casamento perfeito de uma necessidade de afirmação identitária, autores produtivos e sistema azeitado.

No entanto, logo a confluência da expansão da televisão, a crise da guerra fria e o interesse crescente da crítica e dos estudiosos em desconstruir o discurso nacionalista vitorioso encontrou no ethos da geração de 60 o ambiente perfeito para frutificar em crise. De posse do instrumental estruturalista e materialista, conforme relembra Alfredo Bosi em Entre a literatura e a história, intelectuais empreenderam a recuperação da crítica presente na geração de 30: Cyro Martins, Pedro Wayne, Ivan Pedro de Martins e Aureliano de Figueiredo Pinto. Suas obras, tributárias da geração de Maya e Simões, revelaram o modernismo rio-grandense com uma forte tintura realista e denúncia social, bem ao gosto dos anos 60.

Nesse momento parecia claro que os autores locais haviam criticado a sociedade de uma forma muito menos idealizada e ufanista como hoje costumam se interpretar o seu trabalho. E mais: mesmo Maya e Simões, os dois principais sustentáculos da estética sulista, haviam mantido o olhar crítico para as condições sociais e políticas pelas quais o poder se organizava no Rio Grande do Sul, numa literatura que o professor Antonio Hohlfeldt veio identificar como mais centrada na figura do peão que na do estancieiro.

Ainda assim, por uma pecha inarredável, os escritores rio-grandenses muitas vezes são localizados no que seria um regionalismo agônico. Porque duvidou-se do afastamento total da literatura rio-grandense em relação ao enfoque proposto no regionalismo romântico, a própria designação adquiriu, pelo menos no caso gaúcho, certa conotação pejorativa. E seus autores também. É algo complexo, pois, se analisada na materialidade, nem Érico nem seus antecedentes colaboraram no recalque ou sublimação dos traços sociais da população. Pelo contrário, basta que se os releia para verificar o quanto trataram seu tempo de forma crítica e realista.

Um pouco por animosidade externa ou pelo crescente desejo por um “instinto de globalização”, aos poucos o que era particularidade, um “regionalismo” inocente, foi se transformando em estigma e o tipo humano da região perdendo a aura heroica para dar vez a uma série de tipos cômicos que a popularização de certa vertente tradicionalista contribuiu muito em consagrar, contagiando o métier literário.

Com a crise cultural fixada na universidade, a presença de um movimento cultural hegemônico e uma caracterização desfigurada, transformada em estereótipo, o pior do homem do campo passou a ser dinamizado como essência representativa e todos os preconceitos afiliados, como o machismo, sexismo, misoginia, etc., elevados à condição de um “novo” pitoresco. Já num cenário de intensa exploração midiática, como um produto cultural exótico sobretudo ao Brasil, a literatura rio-grandense viu-se na situação de obliterar a imagem às vezes reduzida ao grotesco do gaúcho rural. Exemplo dessa caracterização se pode ver no Analista de Bagé, personagem de Luís Fernando Veríssimo e sucesso comercial dos anos 80.

Da década de 60 em diante, em que pese o esforço de casas como a Movimento, a Mercado Aberto, a Tchê e a L&PM, os motivos rurais ou decaíram para o segundo plano ou foram preteridos por enredos desenraizados. Alie-se isso à perda sistemática de relevância da região fronteiriça na economia local e a migração simbólica para a zona industrial e serrana, o panorama literário local fez apenas seguir as inclinações de mercado, excetuando-se os momentos que representam inflexões históricas.

Contraposta à historiografia, a literatura confere com a visada de um momento histórico e realidade, mas sempre sujeita a releituras. Teóricos importantes como Erich Auerbach, Roger Chartier e Paul Ricouer atestam que o valor literário é mais simbólico que factual, um bem cultural que preenche lacunas compreensivas. De período à escola, de estética a projeto, de projeto à pecha, muito se tem confundido entre o que seja um viés regionalista político, como o reiterativo separatismo e, outro, cultural, dado pelas realizações artísticas. Talvez porque os autores rio-grandenses tenham inserido as questões políticas em seus enredos, as duas pareçam situações inextrincáveis. É uma confusão recorrente e que mereceria atenção redobrada dos estudiosos e leitores.

De uma forma natural, pois literatura e história inquirem-se o tempo todo, o “regionalismo” rio-grandense tornou-se cada vez mais um fantasma, como aponta a professora Regina Zilberman, e emblemático de uma crise complexa. Se abandonar a memória e as pessoas que continuam no interior é de uma violência atroz, não é menos violento caracterizá-las pela lente exclusiva da decadência: é evidente que são pessoas que vivem experiências comuns a todas as demais. Se o “regionalismo” pode ser considerado a tábua de salvação dos maus escritores, também costuma ser muito mais exigido no que se refere à originalidade. Autores contemporâneos deveriam pensar muito nisso ou, ainda melhor, não levar os preconceitos assim tão a sério.

Da mesma forma que na vida prática, na leitura faz-se necessário superar a intuição do já visto, do conhecido, para só então obter-se simpatia pelas coisas e por sua narração. Superada a negação inicial, a recompensa reside não na confirmação do esperado, mas no flagrante do próprio espanto. Certo que isso exige o trabalho da atenção, mas o atordoamento que se segue ao descortinar um mundo desconhecido é o trunfo principal da boa literatura. A dificuldade maior reside em que as mediações já consolidadas impõem uma série de preconceitos que encobrem o humano e o reconhecimento que a literatura pode propiciar. Ocorre que os estereótipos competem num estreitamento mental e superá-los requer uma leitura desimpedida ou ao menos esclarecida quanto a essa realidade. Enquanto o caminho orientado ideologicamente conduz à recompensa da confirmação, a boa arte costuma ser a que desorienta o previsível e propicia tanto a reorganização da memória social quanto do auto conhecimento.

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A alma perdida

Acho que somente a um prêmio Nobel o negócio literário permite a luxúria de um livro como “A alma perdida”. Olga Tökarczuk é uma dessas pessoas. Ganhou o Nobel em 2018 e, como tem acontecido no Brasil recente, permanece ainda pouco conhecida do grande público. Talvez porque o Nobel tenha perdido sua relevância e aura, eu não sei, mas também a poeta Louise Gluck, galardoada no ano passado, padece do mesmo sintoma – ser imediatamente alvo de curiosidade geral para, a seguir, voltar a um certo anonimato. Talvez seja uma tendência do mercado editorial essa volatilidade maior de nomes. Há um tempo nem tão distante, uma casa editorial que publicasse um Nobel tinha garantida expressão de vendas por eras a fio. Mas o mundo mudou, os tempos vem mudando, como também disse outro Nobel, Bob Dylan, que sequer o mercado livreiro abastece.

Eu havia lido e assistido a adaptação para o cinema do livro mais conhecido de Olga, “Sobre os ossos dos mortos” e fiquei mesmo muito impressionado. Uma história envolvente e fluida como as dos bons contadores de histórias.

Agora, com “A alma perdida” em mãos, eu entendo a razão: Olga é uma fabulista e aparentemente gosta de nutrir os leitores dessa carência atávica de receber uma mensagem e de deixar-se envoler pela atenção. Fábula para adultos, “A alma perdida” é um produto da luxúria editorial na qual a autora divide as páginas do livreto em igualdade com a ilustradora Joanna Concejo. É até um pouco estranha a experiência de folhear várias páginas sem texto algum, só as ilustrações, e perceber que a história é contada também a partir do trabalho visual, que ele não apenas ilustra o texto, mas substitui o que não é dito por ele – e o completa.

A fábula em si não repete a fórmula moralista que consagrou o estilo através dos tempos, desde Esopo, a quem se atribui a autoria de muitas fábulas que ainda hoje repercutem por si só e em outras narrativas. A fábula contada por Olga não conta uma busca, mas uma rendição do homem ao seu próprio tempo e da recuperação do contato dele com a sua própria alma, como o título diz. De uma vida corriqueira e com um contato cada vez mais precário com a própria intimidade até ao final no qual João, seu personagem, finalmente entende que não precisa empenhar-se numa corrida contra o tempo para evitar sentir o paradoxo do tempo esvaindo-se. Pelo contrário, ele não quer mais sair em viagem o tempo inteiro e buscar-se no mundo.

“E das malas de viagem brotaram grandes abóboras com as quais João se alimentou durante todos os invernos tranquilos que se seguiram.

A alma perdida
de Olga Tökarczuk, (Todavia, 2020).

Nem mais e nem menos

O risco de passar rapidamente os olhos num livro como SUMI-Ê, da Nydia Bonetti, é o de perder a atenção fugaz necessária a sua leitura. É o de querer se concentrar demais e não conseguir fixar a coleção de pedras, troncos, flores, luzes e sombras desse pequeno jardim em formato de livro.

Eu digo um “jardim” não porque se materialize jardim, mas porque é clara a noção de que se está passando por ele, atravessando-o como se num desvão de uma avenida houvesse uma secreta passagem até outra dimensão mais lenta do tempo. É o efeito opiáceo que o livro me oferece: ser ele mesmo estranho a mim e, por isso mesmo, meu também.

É de entender melhor: sei que parece estranha a sensação porque normalmente se acredita aproveitar uma leitura quando se a retém e supostamente aprende ou guarda alguma coisa, acrescenta. É um hábito cumulativo que afeta a maioria de nós, pelo menos os mais embebidos na tradição cultural ocidental. Atenção fugaz parece algo paradoxal, mas é do que se trata mesmo.

Sei que por aí algumas pessoas definem a poesia japonesa ou de inspiração oriental como “minimal”, principalmente os tankas e haikus. “Minimal” também seria a tradição ocidental dos epigramas, embora menos líricos que os parentes orientais. Apesar de conhecer pouco, acho muito bonito.

Ontem finalmente recebi dos correios um livro que comprei no começo de fevereiro, dessa poeta que sigo nas redes sociais desde que a conheci acho que no último ano, ou o mesmo ano continuado agora: 2020. Apesar de não ser uma poeta que eu leia sistematicamente, queria ter pelo menos um de seus livros. Procurei o mais recente, De barro e de pedra (Urutau, 2017) e estava esgotado na editora, não consegui. Fui mais atrás e encontrei para mim um exemplar deste SUMI-Ê (Patuá, 2013).

Pelo livro, fiquei sabendo que o título vem das artes caligráficas japonesas, numa arte instantânea que não admite retoques. Nenhuma explicação seria mais aplicável: não há mesmo o que retocar nesse simpósio de naturezas que ela pincela como se fossem imediatamente desmanchar, mas que, por isso mesmo, fica justamente o tempo que deve ficar – nem mais e nem menos.

“há um lugar onde não estive
e uma canção que não cantei

alguém fez isso por mim”

“o meu colar de conchas secas
é tudo que sei

dos mergulhos que não dei”

SUMI-Ê
de Nydia Bonetti, (Patuá, 2013).

Porto Alegre, 6

Março é quando te crudelizas mais.
Desde que te conheço é assim.
O calor te excede de súbito,
ficas irrespirável.

E desértica, em ruas sem vida,
escorregas sob os pés
e te tornas mais fantasiosa.
Ninguém nunca te disse?

É o que me diz tua bocarra insone,
variando a pele camaleônica,
os olhos esbugalhados
repetindo anúncios que não cumprirás.

Nós dois sabemos que em algum momento
resolveste que era melhor mentir
a aceitar um destino modesto
como o dos teus residentes.

Na minha rua, uma senhora muito
velha está sofrendo há anos
a tua falta de bom senso
e, até agora, nada de ti. Enlouqueceste?

E se me dizes que não tens nada com isso
(como assim, nada com isso?),
eu estranho é o mau jeito
com que acordaste, em 1772.

É o porto para lugar nenhum
que te embaraça os sentidos? É
que o tempo te cerca cada vez mais
e não encontras saída?

Eu te digo, então, que não morreste
e para o futuro te empresto
meses da minha vida
sem esperar que sobrevivas.

Março é do pior calor que há.
É como um suor colado às roupas
e um vento inoportuno, do sul,
viesse te gelar os ossos por dentro.

Teus horizontes,
fímbria da noite e do dia,
sofrem de resgatar a ti mesma
e nossa bestificação.

Depois da chuva, encharcada
e triste como os becos mais alagados,
encontraremos as razões pelas quais
nunca escapamos completamente do teu amor.

E então colocaremos ao sol
o que resto da alegria em teu nome
ou porque enlouquecemos também
ou para que já não te salves de nós.

Brasil, construtor de ruínas

Foi numa entrevista para a Parêntese, concedida ao professor Luís Augusto Fischer, que fiquei sabendo que o mais recente livro da Eliane Brum, Brasil Construtor de Ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago, 2019), não havia recebido sequer uma crítica dos grandes jornais brasileiros, apesar de ter sido resenhado pela New Yorker, pelo New York Times e estar sendo traduzido para diversos idiomas, entre os quais o polonês e o italiano.

A informação em nada me espanta. Apesar dos vários títulos que vêm sendo publicados na intenção de dissecar a história política recente, em sua maioria os livros teóricos têm compromissos nítidos com a sua própria performance investigativa e estão disputando, para além da narrativa, o cenário e destino eleitorais. O livro da Eliane também tem seus compromissos, mas não é por isso que eu acredito nessa refração que o público brasileiro vem tendo em relação à publicação da Arquipélago, editora de Porto Alegre que é a sua “casa”, conforme ela diz.

Eu temo, aliás, que qualquer iniciativa intelectual que vise colocar ao espelho a história recente brasileira venha a passar pelo mesmo. Não é que não estejamos preparados ainda para enfrentar a dissolução da Nova República no bolsonarismo: é que nunca estaremos. É muito terrível ser obrigado a olhar a ruína logo atrás e ainda por cima precisar entender que o futuro breve continua sendo determinado por escolhas comprometidas e/ou já fracassadas.

Como a bíblica família de Lot, pesa-nos a advertência de que, para seguir sobrevivendo em paz relativa, é necessário não olhar para trás, nem examinar os meandros do que competiu a maldição da história toda. Há o risco de congelamento em sal numa recaída simples. E ninguém em sã consciência do seu instinto de sobrevivência gostaria de terminar assim. Ou seja, fugindo ao viés de confirmação de uns ou de outros, qualquer literatura será mal vinda. Bem vinda aquela que permite continuar, ainda que ao custo da denegação da realidade objetiva.

É por afrontar o legado petista e lulista, por enfrentar a sanha justiceira lavajatista e por confrontar a expressão da malignidade bolsonarista que o livro de Eliane vai se convertendo num clássico pouco lido. A sua diferença maior em relação aos livros de ciência política não é dada pela linguagem ou pelo método jornalístico de imersão total pelo qual ela opta, mas pelo distanciamento que lhe confere a isenção ideológica e o exame vis-à-vis dos acontecimentos.

Se é possível que ela incorra em equívocos de interpretação, isso é o que há de menos grave. A história do Brasil recente está mesmo sendo forjada a quente e, no tocante às decisões políticas, vem competindo em desastres humanitários, ambientais e econômicos sem precedentes. Além disso, os cronistas dos jornais e das redes sociais estão também implicados muitas vezes numa rede de enganos e auto enganos que mantêm suas bolhas agregadas e sua narrativa montada, em pé.

Desse consensos não coincidentes não resulta uma ciência política taxativa nem diagnósticos claros do que ainda pode vir a acontecer, mas o ponto de vista de Eliane Brum, como residente no mesmo alto Xingu no qual se estabeleceu o gigantismo destruidor da usina de Belo Monte e como pensadora autônoma, não está colocado como a chave interpretativa por excelência adotada nem por direita e nem por esquerda. É de um lugar oblíquo, do qual permite ver os estilhaços da imagem de uma nação esfacelada em muitos cacos, que o espelho do seu livro alcança ao público. De primeira, não será uma imagem muito clara ou precisa, mas, ao fim, vai se ver que a imagem resulta de uma semelhança incômoda com o Brasil real e isso, afinal, talvez seja o que mais nos aterrorize.

Brasil, construtor de ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro
de Eliane Brum, (Arquipélago, 2019).

Esquiladores

“Nunca le interessou seguir a comparsa?”, perguntou-me a seco o noviço, como se fosse de intimidade, gente do meu sangue ou do meu conhecer. Ali eu estava por comando do padrinho e não apreciava dar respostas a meu respeito. Não bastava que lhe entregasse a borrega pronta pra carga das tesouras? Agora o que mais queria saber de mim esse daí?

“Nunca.. Sou das casas.”, resmunguei bem quando levava a mão no quarto de uma outra, lanuda, uma corriedale sebenta que, na brasa certa, perfumaria até o pago vizinho. Mas uma borrega assim o patrão deveria reservar pra cria, só num ato de desespero le passaria a faca. Ou então em reunião de domingo, quando algum parente se apachorrasse no casarão a modo de desassossegar a peonada da casa e impedir que a Jandira arredasse o pé do fogão.

Ah, Jandira! Pedaço de torresmo apertado.. Faz pouco a vi passando com um tacho pras goiabas e figadas. Doçura que ela passaria daqueles olhos melados de pronto ao açúcar que se emenda nos bocados que ela saber fazer igual a ninguém mais. Os outros só sabem de ouvir dizer, mas eu, que me assentei como sota por confiança do padrinho, sei porque ela me alcança de vez em quando uns apanhaditos nuns potes de matéria plástica que agora andam chegando com tudo por aqui, comida, remédios e o que mais. Esse o nosso namoro.

“Devia… O amigo é bem bueno de martelo!”, disse-me no que não soube interpretar como elogio sincero ou adulação. Tem dias que o guri anda me cercando, querendo saber de quem é quem, do quanto é quanto, do porque de cada por quê. Eu com a minha carranca quieta pensei que o afugentaria, mas que nada… Agora vive a querer saber de tudo, até mesmo da Jandira, o desaforado.

O noviço esse é mais um a esticar o olho comprido a cada vez que ela passa ao longe, todo mundo estica, mas o certo é que se eu arranjo mesmo um ranchito pra nós, o padre da vila nos faz o ofício de casar direito, que eu faço é muita questão. E ter uma vida direita, de trabalho, retidão. Mas o guri, é claro, olha pra ela como fêmea, não vê a mulher nem muito menos a pessoa. E porque ele olha pra ela, eu também olho pra ele e assim parecemos um rodeio parado numa tronqueira, que nem o gado, examinando-se.

“E aquela cabocla, que parece? É Jurandira que chama?”, indagou com ares de inocente ignorância. “Jandira”, corrigi de pronto. “Que tem ela?”, aticei o linguarudo a dar com os dentes na língua enquanto olhava o velo pela metade no lombo da borrega aos seus pés, esperando o fim daquela prosa que os demais nem podiam ouviar, pois o patrão sintonizara o rádio sobre um tonel alto ali de modo a entreter a comparsa inteira. Por ali, dos nove homens mais o noviço, todos eram sabidos de alguma conversa das redondezas e gostavam de prosear, mas a programação e o noticiário da cidade calava a todos, subitamente interessados em coisas como carnaval, futebol, telenovela. Menos o noviço que então continuou seu inquérito e sentenças: “Lindaça!”

“Mas não é pro teu bico!”, adverti e ele riu meio debochado, como se quisesse mesmo é testar meu interesse nela. Mas falei mais alto ainda que o rádio, alterado, e os outros levantaram os olhos em nossa direção. “E já vai terminando essa borrega que o curral tá até a boca!”, concluí e ele fechou o cenho, olhando pra baixo e torceu o nariz pelo corridão que lhe dei.

O calor grande de novembro perto do meio dia me levou à cozinha do mais velho deles, que lhes servia também de cozinheiro, deixando o toc-toc das tesouras pra trás e a montanha de velo e garreio acumulada no galpão por embolsar, eu e o guri, nos embolsadores emparelhados bem ao lado do portão. Tomei com o homem um ou dois mates e decidi almoçar por minha conta, sem a conversalhada dos esquiladores. No meu quartinho, tomei do carreteiro encostado, acresci um punhado mais de arroz do pote e, coisa de nunca, levei a mão na caninha que alguém esqueceu por ali. Azeda, não me entrou lá muito bem, mas sequei o que havia na garrafa pensando que a Jandira talvez não se desse tanto ao respeito e se aparecesse demais agora que a comparsa se instalara. Que tanta curiosidade tinha, afinal, a chinoca, se já nos havíamos até prometido? Ora, o que faz a aguardente com um hombre, não é mesmo? Leva a confabulações sem sentido, talvez…

Sesteado, mal sesteado, acordei-me com a têmpora latejando e o suor escorrendo no pescoço empapando a camisa. E pensar que agora ainda iria me enfurnar que nem tatu num embolsador mais quente que um fogaréu. Chegando lá, quedelhe o noviço? Desgraça de guri.. Bueno, como preciso começar de algum lugar, vou eu mesmo embolsando os pacotes de lã branca e pisoteando aquilo até firmar o garrão… Dali, ouço a comparsa se arranjando no galpão ao lado e o rádio naquela hora tocando, felizmente, umas rancheiras das buenas que até me passaram um pouco o incômodo da canha em mau horário.

“Buenas!”, ouço do lado de fora e finalmente é o noviço que apareceu. “Onde andava?”, pergunto-lhe enquanto sigo no pisoteio. “Ah, fui ali na sanga lavar os pés e afiar umas tesouras…”, respondeu-me. “Menos mal…”, comentei. “E quem tava lá?”, indagou numa simulação dele mesmo me responder e continuou: “A Jandira…”

No mesmo instante, senti que não gostaria de saber o que mais ele me diria, mas o atrevido continuou: “Ela levou panelas pra ariar e me ofereci pra le ajudar, mas fique tranquilo que moça direita como aquela nunca eu vi. Não me deu confiança e me despachou pra longe com um corridão que senti medo até…” E ia contando devagarinho de modo que eu conseguia lá dentro da estopa escura imaginar a cena e pensava que se fosse ele ali dentro e eu ali fora, não me custaria nada esticar a adaga pra dentro até encerrar aquele falatório. E foi tecendo elogios e me dizendo da minha sorte de um casamento feliz que com certeza, de acordo com ele, nos destinaria o futuro. Funcionou, pois me acalmei e ainda mais porque a esquila já andava em vias de acabar e desse modo aqueles aporreados todos se iriam pra bem longe da Santa Eulália, que voltaria ao seu sossego habitual.

Passou a tarde, não restou uma felpa mais a embolsar e os rebanhos todos do padrinho foram devidamente depilados. As ovelhas ficavam meio feiotas rapadas, mas, assim, o verão lhes seria possível. O meu também, porque o entrevero todo de gente que se junta apenas por evento às vezes vai de encontro a maus elementos. Não que tivesse visto algum suspeito, mas sempre tem um mais quietarrão que a gente imagina o que tenha de oculto naqueles silêncios sem fim. No outro dia cedo já não estariam mais ali e pra logo haveria um truco ou uma bisca pra pescar dos mais animados algum trocado de aposta. Mas não me aprocheguei ao assado que montaram no costado do ombu e me aquietei cedo. A dor de cabeça, como um mau pensamento sem expressão, voltara e fizera com que me deitasse com as galinhas. Nem me dei conta que, estranho, a Jandira não passou pra dar seus boas noites. Só no outro dia fui notar, mas aí já era tarde.

Foi o chefe da comparsa quem me segredou no primeiro mate, antes da alvorada, que viu o noviço, mais cedo, tomar o rumo da estrada, não sabia pra que lado, e com a Jandira no seu costado. A informação me entrou mais amarga que a erva uruguaia do mate, mais que carqueja verde, entrou como um veneno e cogitei de encilhar o baio e me tocar atrás deles. “Mas ela saiu sorridente…”, advertiu o velho gaúcho, como se dizendo que não estava indo obrigada, de modo algum..

Os demais esquiladores fingiam não ouvir a conversa, mas me olhavam de um modo compassivo e parecia que as conversas paralelas eram todos de um consolo que me ofereciam. O velho me fez sentar e contou histórias da sua vida e me fez refletir. Refletir e decidir. Perguntei-lhe aonde iriam agora que haviam acabado com a Santa Eulália. “Vamos à Santana, coisa ligeira, e depois Melo, no Uruguai…”, disse-me o esquilador com seu chapéu coco e barba espessa. Logo eles começaram a juntar as coisas e em breve partiriam num F600 dos mais bem cuidados, posse do chefe da esquila. Deixei que arrumassem suas coisas e tratassem de partir, pois precisava acertar a lida com o padrinho, igual a todos os dias. E foi o que fiz. O padrinho, quando soube do que me acontecera, lamentou minha má sorte e até me tentou consolar, mas nada mais podia fazer por mim. Ninguém podia. Talvez só eu mesmo e foi o que fiz ao me adiantar à saída da comparsa, na porteira do corredor, e levar o pouco que era meu numa mala de garupa, um par de botas, roupas gastas e duas bombachas de serviço, pra subir na carroceria e realizar outro sonho de guri: atravessar finalmente a fronteira.

Contos do sul

Acho que foi em 2020 que o prêmio Jabuti instituiu como categoria especial o romance de entretenimento. Eu achei a medida estranha e ainda não me convenci da sua necessidade, afinal, não me parece que existam romances que não sejam entretenimento. Ou melhor dizendo, se existem, é porque, por tabela, existem os que não são.

“Do” que seriam esses outros romances? Instrução? Esclarecimento? Ciência? Eu não sei, realmente não entendo e, como não tenho grande interesse nos regulamentos do concurso, também não me demorei procurando entender. Nem vou.

Todavia, com a transparência obtida pelas redes sociais, não demora muito para que qualquer pessoa interessada descubra perfis dos seus escritores diletos ou não tão diletos. Por ali, se pode saber das muitas motivações dos escritores em relação às suas obras. Incrivelmente, são muito mais amplas do que propiciar “entretenimento” – ainda que no nascimento do romance em geral essa tenha sido a ideia central e prática familiar das mais comuns, antes que houvesse mesmo energia elétrica nas residências, que dirá internet e redes sociais.

Há poucos dias revivi uma experiência que há muito não tinha, a de realizar a leitura como se na ausência absoluta dessa parafernália toda. Digo “como se” porque se trata de uma sensação. Na verdade, li o livro na forma e-book, via Kindle, que comprei de uma auto publicação da própria autora na livraria Amazon. A autora é a Simone Saueressig, escritora com vasta bibliografia, ainda que, ao que me parece, muito pouco difundida na proporção que sua criação mereceria. Este, aliás, parece ser um drama comum a todos os escritores que no tempo contemporâneo não se comportam como sociólogos ou cientistas políticos e têm seu trabalho reduzido pelo sistema literário a mero “entretenimento”. É uma situação ridícula mesmo, mas não é de rir.

Eu não posso falar de todos os livros de Simone porque li poucos ainda, contos dispersos como o que ela enviou no passado à Sepé e gostei muitíssimo. Minha experiência enquanto leitor de literatura “fantástica” é bem precária. Li esparsamente e nem sei se consigo delimitar direito o que há entre “fantástico” e o “realismo mágico”. No Brasil, como em toda a América Latina, o “realismo mágico” se fez muito visível pelo menos até a década de 70, limiar de 80, do séc. XX. A literatura fantástica muito menos, mas teve um incremento significativo a partir da década de 90, embora autores canônicos a tenham praticado esparsamente desde o séc. XIX. No entanto, como movimento, os anos 90 liberaram das correntes o estilo, mesmo que para voltar a aprisioná-lo logo a seguir numa subclassificação no meu ponto de vista absolutamente preconceituosa. O tal “entretenimento”.

Chame-se do que for, o livro de contos da Simone que acabei de ler – a coletânea “Contos do Sul” – é, como disse, um livro de transporte mental, como são os bons livros de fantasia. Os contos do livro são de uma ambientação precisamente imaginada e isso favorece muito a projeção das histórias assombrosas que ela conta de um “sul” rugoso, com elementos folclóricos e imaginativos interagindo na esfera de uma narrativa linear e realista. Talvez por também não valer-se de experimentações linguísticas ou uma concepção arrojada esteticamente, seus contos induzam a que se pense estar em contato com uma literatura antiga – o que não significa “velha”, mas atemporal e anacrônica no bom sentido -, de quem não se prende a articulações temporais e suas (in)determinações históricas.

Essa a minha impressão externa.

A interna, como disse, foi a de reviver a experiência da leitura da infância, surpreendente, a luz de velas ou lampião, quando personagens não tinham mais a ganhar no mundo do que a aventura de estar vivo. Eu, que vinha do enfaro de certa leitura, deliciei-me e devorei o livro como se fosse eu mesmo o monstro sedutor da “cisterna” ou, de outra forma, eu que fui devorado e não percebi ainda.

Contos do Sul
de Simone Sauaressig, (Ed. do autor, 2020).

Carnaval canibal

A grande covardia destes tempos bem aventurados, a mais intolerável delas, na minha opinião, é a psicofobia. O mundo está mindfulness demais para a minha cabeça. E os próprios estados mentais são muito mais evitados do que qualquer outro preconceito exterior.

É tal a obsessão pela produtividade que o ócio banal foi abolido e o próprio lazer agora é computado em perdas e ganhos. Fulano viu quantas séries, Sicrano leu quantos livros, Beltrano ouviu quantas músicas, foi a quantos shows, foi a quantos carnavais na Bahia, testemunhou quantos defuntos célebres. É um modo de vida computacional no qual não se pode perder tempo com o que não seja coincidente a um estado mental onipresente, na realidade impossível. Mas não importa. Importa mesmo é viver com uma margem de lucro emocional diante ao tempo, aos demais e à própria vida.

É tamanha a psicofobia que sentimentos normais do ser humano de repente foram debulhados em características “tóxicas” ou “desejáveis”. Desejável é a euforia. Tóxica a depressão. Mas é delirante a possibilidade de surfar impunemente nos estados emocionais. Drogue-se disso, medite-se aquilo, beba-se, compre-se, viaje-se, alivie-se num sistema infindável de compensações e sublimações.

Não sou psicanalista, mas é evidente que as pessoas precisam e têm direito a ter momentos de melancolia. Mas justamente porque a tristeza e a melancolia são estados aparentemente não compartilháveis da existência, solitários, debita-se a elas a noção de negatividade. E no mundo virtual isso fica ainda mais agravado, pois aqui o que se evidencia é o triunfo e, como se uma superfície lisa livre de rugosidades e asperezas, a alienação de um para o seu semelhante.

A positividade é tanta que o luto foi abolido, inclusive o luto social. Não há perdas. Não há frustrações. Não há nem deficiências. A diversidade mesma, que deveria ser um valor da diferença, acaba forjada como um lustro de despersonalização. De equalização bionormativa. E esse vocabulário todo cada vez mais faz parte de um idioma indesejável do qual o saudável é manter distância regular com o salutar e carnavalesco hábito da euforia. O que poderia ser mais melancólico?

Nem a pandemia e a notícia de tantas mortes é capaz de levar a pensar que essa película de resistência é muito mais porosa e permeável. E de que somos humanos e devemos responder ao mundo do lugar da humanidade já é coisa do passado. Mesmo a dor é rentável como simulacro e a positividade – apesar de que ninguém vá admitir isso jamais – sim é que se transformou numa doença cuja solução passa, infeliz e fatalmente, pela melancolia.

Às vezes o que me parece é que vivemos (brasileiros) já em cuidados paliativos há muito tempo. E há mais tempo ainda os brasileiros inspiram cuidados. Mas quem se importa? Nem nós mesmos…

Ou já estamos na etapa da negação do sofrimento, levando os demais por diante com o nosso próprio “e daí?”, numa espiral de violência e agressividade gratuita. Inspiramos cuidados, sem dúvida. E um pouco de piedade também. No carnaval, ficamos mais nus, mais loucos ainda porque afetados pelo sol abrasador e pelos delírios daí decorrentes.