A emoção na narrativa paralímpica

Chega enfim a paralimpíada (ou paraolimpíada, como querem alguns) e algo como uma lei de cotas midiática se estabelece nos meios de comunicação do país inteiro, seja nos tradicionais como nos novíssimos. Compreende-se. Não é mesmo sempre que estas quase 13 milhões de pessoas com deficiência surgem nas manchetes e reportagens Brasil afora, como se repentinamente saídas do avião invisível da mulher-maravilha.

Pessoas com deficiência via de regra são muito pouco notadas na mídia por possuírem uma vida corriqueira como a de qualquer outra pessoa e têm sido bem mais notabilizadas por encarar sérias e reais dificuldades ao tentar levar suas vidas do que por dedicar-se a atividades em tudo normais, como as atividades esportivas. A partir de amanhã (07/09), entretanto, o Brasil sediará pela primeira vez – assim como foi com os Jogos Olímpicos – um evento esportivo da maior grandeza e qualidade, envolvendo pessoas que vêm elevando a prática esportiva a patamares insuspeitados, isso também da mesma forma que os jogos olímpicos regulares.

É bem possível que o espetáculo real, no qual os esportistas realizam o melhor que podem para competir, seja fotografado, filmado ou reportado aqui ou ali como uma espécie de projeção enviesada. A isso deve compreender-se também. É muito natural que quando pessoas normalmente invisibilizadas ou retratadas permanentemente através de muitos estereótipos surjam publicamente isso venha a acontecer, tanto por uma questão de autoimagem quanto de identidade social. É como se fosse uma imagem distorcida a qual é muito difícil colocar em foco justamente porque essa tem sido uma das principais formas de identificação das pessoas com deficiência ao longo da história, mesmo na história recente.

Possivelmente trata-se de uma forma de atalhar os caminhos, especialmente porque nenhuma trajetória de vida é inteiramente contada sem um olhar demorado e, na maioria das vezes, busca-se na mídia o flash instantâneo, a conquista e, quase obsessivamente, o pódio e a medalha. Informações sobre quem a pessoa é, sua formação e sua trajetória individual muitas vezes são substituídas por um resultado redentor e, pelas próprias características do esporte competitivo, cola-se nos esportistas o maior de todos os estigmas positivos com que uma pessoa com deficiência pode contar: o da superação.

Acontece que a superação é, sim, muitas vezes real, mas, em se tratando do esporte, é exatamente a mesma superação que buscam quaisquer atletas. A superação de aperfeiçoar-se, de partir de condições difíceis, de melhorar e de conquistar. Afinal, seja paralimpídada ou paraolimpíada, é olimpíada e ali não há ninguém entrando para perder, mesmo que uns estejam melhor preparados que outros.

Ainda assim dificilmente não haverá sobreposição desses conceitos ou dessas imagens. Embora isso se deva mais à narrativa que se quer imprimir do que à realidade, será sem dúvida uma coleção de momentos por si só emocionantes. E isso é assim porque o esporte tem essa característica de “lavar a alma”, como se diz. Qualquer esporte é assim. Isso, entretanto, não é o bastante para reconfigurar o status humano de nenhum esportista. Eles continuarão humanos durante e ao fim dos jogos, obviamente. É justo que, em respeito ao seu esforço, não sejam convertidos e sacramentados em exemplo de coisa nenhuma. Nem de superação e muito menos de compaixão.

É importante dizer isso porque o sentimento de compaixão e a empatia muitas vezes operam também essa distorção, a revelia do que a pessoa deseja. Encontrar uma narrativa menos lacrimosa ou que deixe ver a pessoa além dos estereótipos que facilmente nela se projetam não é uma tarefa fácil principalmente porque a emoção costuma se impor durante as competições. Mas não há hierarquia na emoção e certamente a emoção dos competidores que desfilarão mídia e internet afora a partir de amanhã é exatamente a mesma de qualquer outra pessoa, especialmente se de alguém que gosta de esporte e suas diversas modalidades.

A partir de amanhã será possível conhecer um pouco mais desses esportistas todos, suas trajetórias, dificuldades e suas conquistas. Não será mais emocionante por causa da deficiência de nenhum deles e não será menos emocionante que outros esportes, mas também não será esporte olímpico se não tiver emoção e não existe, felizmente, uma categoria que se pudesse chamar de “emoção com deficiência”. Portanto não há razão para suprimir a emoção da cobertura dos jogos, basta ajustar o foco e tentar o máximo possível remover as distorções e preconceitos e perceber a pessoa antes e além de qualquer outra coisa. Não vai funcionar sempre, mas, quando funcionar, será como uma medalha de ouro.

O que me é caro

temas que me são caros na poesia:

essa mesa fora de lugar
que os braços de super-herói
do meu menino
trouxeram de tão longe
como se fosse outra galáxia para ele

esse menino, meu filho,
e suas manias de sobrepor
às coisas o que elas não são

mas eu vou lhe ensinar
sobre a natureza
custe o que me custar

o rumor no céu é trovão
a porta e seu movimento sempre igual
a mesa no seu lugar certo

(o mundo assim não é menos inquieto?)

meu deus como este mundo é chato
ele me diz até com as sobrancelhas

eu, que isso é um segredo nosso
e que por via das dúvidas
ele, e não outros,
me esteja sempre por perto

Pássara

nuvens preocupadas no céu
não ameaçam ninguém

e o vento não as toca
até que elas reclamem

os anjos atravessam-nas
inapreensíveis

(rumo a deus, se ele existir,
ou à estratosfera simplesmente)

mas as nuvens
elas não estão preocupadas com isso

olhar para baixo demais
as têm feito assim: circunspectas

mas a sua natureza é outra (não é?)
é cheia de uma alegre indecisão

os talhos em sua carne não doem
como em nós (sua benção)

mas se elas estão assim
como um bloco de edifícios

eu não desejo a elas
a incumbência de estar para nós

vou lhes dizer de uma vez por todas
que não sejam tolas

e que atenham-se só aos dragões, às almas pássaras
e às borboletas

Furto desqualificado

por mais tempo ao espelho
por mais visitas às vitrines
por mais reiterada que seja
a nossa imagem
não sabemos nunca
o que os outros veem em nós

quer nos minimizem
ou acrescentem
ainda assim persegue-nos
a sensação (ou a certeza)
de sempre nos sentirmos roubados
ou imerecidos

Inocência presumida

gravatas

tenho inveja ancestral dos advogados
que incompreensivelmente conseguem
encontrar benefício na dúvida (como assim, gente?)

e o que dizer dos que têm boa fé objetiva?
ou conformam-se com uma liberdade provisória?
ou veem um ganho de causa até em prisão domiciliar?

é um caso de segurança jurídica
que ofende sobretudo as noções mais primárias
do direito penal subjetivo

(saibam que se dependesse do meu direito penal subjetivo
eu distribuiria condenações ad hoc
ao bel prazer do meu sentimento de vingança…)

o que eu tenho achado um avanço
(no tocante à modéstia pelo menos)
é que se intitulem operadores do direito

parecerão igualar-se aos demais operadores
de caldeira, de teleférico, de elevador,
de nós de gravatas cafonas, sem dolo, e assim por diante

nada disso, ainda assim,
se compara a perceber benefício na dúvida
(ainda que dessas dúvidas percebam seus honorários)

até prova em contrário
amigos meus, não exagerem na advocacia, e ao julgar-me
por isso, lembrem-se sempre da minha inocência presumida!

Antediluviano

devo deixar as cobras aqui
e nem pensar nos insetos
e esquecer que uns têm só por função
revolver o que há de abjeto

devo escolher os mais perfeitos
cabritos, corcéis e coelhos
os de pelo mais liso e brilhoso
eles serão os eleitos

um deles
e isso não me parecerá difícil
(venha aqui, dragão), um só
servirá para o sacrifício

(volte quieto à furna
sequer respire, seja furtivo;
guarde ar – e fogo – por dentro
enquanto durar o dilúvio)

Dissipação

a mais bela melodia
cantada dentro de uma bolha

a esperança que é pretendida
em algum lugar do calendário

os suspensórios de segurar as calças
furtados por uma criança travessa

2

a arte figurativa em moldura barata
o blue num saxofonista rouco

o verão para os patos voarem
a volta ao lugar de onde vieram

os grasnados dos malditos patos
uma pena deles perdida ao acaso

3

os pés pisando essa pena sem vê-la
o som inaudível da pena quebrando

uma fileira de formigas iludidas
outra fileira de árvores tombadas

a casa de inverno abandonada
grama por dentro e por fora

4

a dor da paisagem delira
seu grito é tão pouco melodioso

cantado dentro da bolha toda estourada
ainda mais estridente que os patos

5

a promessa de mudança adiada
uma mala de roupas rasgadas

a casa quente demais nessa estação
a formalidade dos logradouros

a seriedade de uma nacionalidade
a fé estampada na testa

6

outra melodia já não tão bela
um temporal tremendo por vir

a rua por lavar há tanto tempo
o tempo que já não entende a si mesmo

essa pessoa caminhando por muito tempo
a sombra em que ela quer descansar

e quando ela chegou, descansando em seu lugar,
o que a dissipou

05 de setembro, dia da Bandeira

bandeira

05 de setembro não é o dia da bandeira, mas, em 2016,
serão completados 159 anos do falecimento de Augusto Comte,
filósofo francês considerado o “pai” do positivismo,
doutrina política que inspirou os ideais republicanos nacionais
e adorna a bandeira brasileira
(cuja data de comemoração é 19 de novembro)
com o dístico “Ordem e Progresso”
escritos em uma faixa branca e curvada dentro de um círculo azul
que emula o céu e tem o mesmo número de estrelas
que estados federados no Brasil
mais o Distrito Federal no qual se encontra Brasília,
capital do Brasil, quinto maior país do mundo
em área territorial e com população total que ultrapassa já
200.000.000 de pessoas, segundo o IBGE – Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística, criado em 1935, ano em que
Augusto Comte completaria 137 aniversários se estivesse vivo.

No dia 05 de setembro comemora-se o dia da Amazônia,
o dia da Farmácia,
nasceu a beata Teresa de Calcutá
e em 75 dias se comemorará o dia da Bandeira, instituído
em 1889, quando da proclamação da República brasileira. Há
127 anos comemora-se o dia da Bandeira. É menos tempo do
que o perfaz do nascimento de Augusto Comte, “pai” do positivismo.

Dia 05 de setembro comemora-se o dia do irmão, da Amaz0101010101,
do oficial da justiça e para o dia da Bandeira brasi010101010
faltam 75 dias. 75 % 7 = 10,7 semanas para o dia da Bandeira.
Verde, amarela, azul e com o dístico positivista
inspirado na doutrina de Augusto Comte, filósofo que nasceu
em Montpellier há 218 anos, neste 05 de setembro, dia da Ban10101.

Aprendizagem

tramado

agora que tenho as dúvidas controladas
posso ir adiante
um pouco mais

agora que tenho a licença dos meus passos
e que as árvores cessaram sua dança por um instante
eu posso ir

mesmo que o cenário esteja recomposto
numa festa toda ao contrário
e indigesta

mesmo que um rumor e um estrépito
se anunciem ou antecipem
ao caminho

como uma fresta estreita entre armários apertados
como uma nesga de azul no céu amarrotado espreita
o suor rolando até o olho a partir da testa

agora eu posso ir
do tempo imenso que esperei
ao tempo imenso que tem me esperado

entre a multidão no mesmo ou no sentido oposto
seja ela feita de gente
seja ela feita de carne, seja feita de nada

agora eu posso ir
se eu não paro muito
se eu não penso quase nada

posso ir lenta ou rapidamente
olhando com muito cuidado
ou a tudo displicente

agora que tenho as dúvidas controladas
obedeço sem um pingo de juízo
meu próprio jugo

e se isso durar só um momento
agora sei me divertir
enquanto aguento

A gamificação e o futuro da leitura

Banco de livros

Daqui a uns anos mais, não me arrisco a dizer quantos, mas decisivamente não muitos, somente uns poucos curiosos ou uma ínfima elite cultural conseguirá distinguir um mínimo da literatura do inesgotável repositório digital que é recriado diariamente na internet. Talvez fragmentos esparsos ou adaptações resumidas garantam uma fração para lá de imprecisa da permanência futura do cânone literário universal, nacional e regional, mas isto trata-se apenas de uma expectativa sem maiores indícios. Talvez memes engenhosos salvem ainda um pouco menos que fragmentos. E frases completas e não deturpadas igualmente poderiam ser salvas da deslembrança completa da mesma maneira. Mas também é possível que, infelizmente, talvez nada mais consiga operar essa façanha e esse destino esteja desde já inapelavelmente selado.

Minha opinião é de que o maior risco do uso prolongado da tecnologia não é o fim da ficção, mas o fim da necessidade da ficção.

Minha opinião é de que o maior risco do uso prolongado da tecnologia não é o fim da ficção, mas o fim da necessidade da ficção. A despeito disso, publica-se como nunca. E incessantemente. Minha impressão, porém, é de que se publicam livros impressos e digitais na proporção inversa que se criam adultos interessados na literatura. Nos últimos tempos, principalmente depois que se pode observar o comportamento sobre a leitura nas redes sociais, é fácil perceber que o que mais vem proliferando são guetos de interessados restritos e leitores apenas casuais. Leitores regulares de ficção ainda são escassos e sua expansão é quantitativamente inexpressiva. Prova disso é a qualidade das estatísticas de vendas e listas de mais vendidos, praticamente invariável, o que é verificável nos rankings de vendas regularmente publicados pela Publish News. É de ver para crer, para aqueles que insistem na incredulidade a respeito de títulos e tendências comerciais.

Embora se divulgue muito a afirmação de que há no Brasil uma crise permanente na leitura, eu penso que ela não existe propriamente como “crise”, principalmente porque as vendas se mantêm razoavelmente constantes, ou pelo menos que o uso do termo “crise” não explique toda a extensão da problemática. O que parece mesmo estar crescendo é uma crise na capacidade de atenção à leitura, esta, sim, decorrente da proliferação de lazer tecnológico. E, talvez, ainda uma terceira crise que poderia ser localizada na literatura propriamente dita e no sistema literário, que têm se mostrado, juntos ou em separado, incapazes de romper as fronteiras acadêmicas, de fazer-se interessante ao público juvenil e de disputar novos leitores com outras mídias e fontes de informação. Há um risco sério de comprometimento nesse ponto e caso autores e editoras não reflitam sobre a questão, muito pouco haverá a lamentar, possivelmente até mesmo dentro de um curto prazo, na migração de interessados na leitura para o universo de aplicativos e brinquedos eletrônicos.

Há cerca de cinco anos, o norte-americano Philip Roth apostou, em entrevista, que a cultura literária teria seu fim em cerca de 20 anos. Não gosto nem um pouco de ter de concordar com ele, mas a verdade é que cada vez mais eu creio que ele estava apenas querendo parecer pouco pessimista. Entretanto, se foi minimamente realista, restam então cerca de 15 anos até o apocalipse final das letras, pelo menos de como elas têm sido conhecidas e consumidas nos últimos 500 anos.

Como chegamos a isso?”, é a pergunta que continuam a fazer-se os incrédulos. As respostas costumam vir de todos os lados e a partir de motivações bastante específicas, mas via de regra resvalam para a baixa qualidade da educação e a pouca ênfase na formação de leitores. Mas não seria essa justamente uma razão para apostar-se pouco em soluções efetivas e duradouras para a crise da leitura? Atrelá-la a uma educação cambaleante não seria uma forma de comprometê-la ainda mais? Ou seria a própria tecnologia, a mesma potencial causadora do desastre literário, quem poderia justamente salvá-la, a literatura?

Não é nada fácil responder estas questões, até mesmo porque a situação atual não é de uma chegada final, mas de uma transição na qual o protagonismo do livro não está dando lugar ao livro digital, como alguns embates sugerem, mas ao que se tem denominado de “gamificação”. Ou seja, jogos digitais com suposto ou nenhum efeito educacional e a presença cada vez mais massiva de conteúdo digital e interativo no lugar da especulação analítica e do agir reflexivo, mediada pelo livro, seja qual for o seu suporte, impresso ou digital.

Dentro disso que costuma ser denominado por cultura gamer, o indivíduo aprenderia indiretamente e através de experiências sensoriais que procuram que o indivíduo “embarque” virtualmente no objeto de conhecimento a que se pretende conhecer e que se aproprie sem um esforço de todo racional. Nessa perspectiva, a leitura aconteceria apenas funcionalmente, o objetivo em si mesmo seria a recompensa sensorial traduzida em repetidos estímulos àqueles embarcados na experiência lúdico-educacional. Os defensores de sua utilização defendem que essa poderia ser uma forma de atrair e conquistar novos interessados nos bens culturais escritos e na literatura de um modo geral, mas a possibilidade de que os possam afastar ainda mais do livro, seja ele em bits ou em papel, não é nem um pouco exagerada ou descabida.

A questão talvez então fosse estudar as formas pelas quais o ser humano, ao longo da história, vem se relacionando com a leitura. O escritor argentino, naturalizado canadense, Alberto Manguel, no seu Uma História da Leitura, fornece pistas interessantes. Uma delas é ao citar como, por exemplo, no começo do século, os leitores e escritores se relacionavam com o livro e a leitura. Segundo ele, o tcheco Franz Kafka teria dito, em correspondência enviada no ano de 1904 ao amigo Oskar Pollak, que, entre outras coisas “precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios”. Sensação muito distinta que se pode perceber ao verificar que no Brasil, ao longo das últimas décadas pelo menos, prosperam especial e exponencialmente vendas de títulos de autoajuda, num flagrante de que nossos leitores “potenciais” são de um tipo que não deseja ser incomodado pelos livros, mas acarinhado por essa espécie muito particular de escrita.

Tendo de disputar a atenção das pessoas com outras fontes de lazer e informação, a literatura de ficção acaba por competir aos leitores no que parece ser um alto investimento de tempo e de atenção concentrada. E numa época notadamente marcada pelo mais escancarado utilitarismo, é compreensível que as pessoas prefiram fazer opções menos trabalhosas do que ter de encarar, por exemplo, quinhentas páginas de qualquer autor russo do século 19 ou extensas e volumosas obras, como as de Balzac, Proust ou Thomas Mann. Todavia isso nem sempre é uma regra ou obrigação, o que pode ser comprovado pelo autor fenômeno de vendas norueguês, Karl Ove Knausgård, autor do colossal romance autobiográfico Minha Luta. Trata-se, sem dúvida, de um sucesso de vendas, inclusive no Brasil, mas provavelmente dentro daquele percentual de leitores já habituados a leituras extensas. É muito provável, por outro lado, que um novo leitor opte por não começar sua “carreira” com uma série de livros com milhares e milhares de páginas. Talvez antevendo uma possível exaustão e outras emergências e preferências, isso mesmo o faça desistir até mesmo de tentar com os livros pequenos ou qualquer tipo de livro. É uma possibilidade. As alternativas estão sempre à sua mão e costumam atender pelos nomes de smartphone ou de controle remoto.

De outra maneira, o atrativo virtual (não confundir com digital, dada a possibilidade de realizar-se leitura em dispositivos digitais), qualquer que seja ele, parece ser sempre irrecusável, mesmo que consuma horas a fio às vezes sentidas e percebidas como completo vazio ou perda de tempo, nesse processo angustioso que se tornou a vida virtualizada ou gamificada. Talvez a verdade a evitar-se falsear seja a de que já não há nada de errado no mundo contemporâneo quando o virtual se torna mais real do que o próprio real. Numa época em que o que não é “compartilhado” parece não existir e o compartilhamento de bens culturais é tomado como “ostentação” ou “obscenidade”, tudo acaba dificultado para o estímulo à leitura e facilitado para o lúdico, principal potencial dos gadgets.

Pistas mais próximas que a correspondência de Kafka, mantida no início do século passado, podem ser justamente os aplicativos para smartphones. Como, por exemplo, a febre do momento, o app Pokémon Go. As imagens há pouco divulgadas de crianças sírias “interagindo” ou exibindo imagens do boneco Pokémon com a finalidade de serem resgatadas, dentro de uma campanha humanitária, são impactantes, mas duram um momento só, como tudo o que “existe” no mundo virtual. É o tempo de passar os olhos e rolar os dedos e seguir adiante, ao novo objetivo, meta, fase ou o que seja.

Assim como todo e qualquer clamor dirigido ao mundo virtual, seu efeito maior provavelmente seria o de virtualizar e relativizar o seu próprio foco, tornando-o um tipo de estímulo capaz de proporcionar sensações passageiras, comoção ocasional e necessidade de novos estímulos porque o sistema de recompensa é, ao contrário do corpo físico e mental, incansável e insaciável. É por isso que me mantenho um tanto incrédulo quanto ao incentivo que a cultura gamer ou a gamificação educacional pode trazer ao universo da leitura, a não ser que se crie um universo de significação paralela, mas aí não será mais o mesmo nem em relação às dificuldades que representam a compreensão de um texto ficcional e nem ao conteúdo em si mesmo. A leitura, convertendo-se em estímulo, mas a partir justamente de um desestímulo à leitura e ao ato de ler só por ficção, poderia ser tomada como sinônimo de “avanço”. Não há, portanto, chance alguma de se emplacar, por exemplo, uma campanha do mesmo gênero em relação ao resgate de livros ainda que muitos mereçam e muito ser recuperados de tamanho desconhecimento contemporâneo.

Das profecias primitivas às esferas subterrâneas do purgatório medieval de Dante, do terror que inaugurou o imaginário industrial moderno com o Frankenstein de Mary Shelley ao revival do gótico assombroso pré-moderno, do horror de Lovecraft ao cyberpunk do fim do século 20, atravessando o moderno, suas correntes literárias todas e o pós-moderno, sempre o ser humano tem buscado a ficção como forma de sublimar as próprias querelas ou melhor compreendê-las. Mas desde que a subjetividade seja convertida cada vez mais em exibicionismo virtual e fonte de inesgotável autorreferência e narcisismo, a leitura pode passar a representar um tipo de ameaça bem diferente daquele imaginado por Ray Bradbury em Fahrenheit 451, de quando os livros poderiam desestabilizar o “sistema”, mas trazer a possibilidade sempre horripilante de colocar o indivíduo em contato consigo próprio e com pensamentos mais elaborados do que um emoji ou um conjunto deles.

É sempre um risco, mas que cabe a cada um decidir por tentar ou não corrê-lo. Há fortes indícios de que, na história, reservar um tempo regular à leitura ajudou a humanidade a superar dificuldades significativas e que a imersão tecnológica nos tem levado a guerras e conflitos terríveis e supostamente impessoais, como prova o uso de drones, mas quem poderia afirmar que isso tudo é mesmo verdade e não propaganda de improváveis e rancorosos sebos e antiquadas livrarias de bairro? Seja como for, talvez um ou dois livros fossem o suficiente para acabar para sempre com a dúvida.

No caminho de Sefelá

sefela

Germina – Revista de Arte e Literatura

Therefore I will wail and howl, I will go stripped and naked:
I will make a wailing like the dragons, and mourning as the owls.

Micah 1:8

É quase tudo a mesma coisa, pensando bem.
O anelo inútil dos anjos; a esperança sofrida dos crentes;
o desapego trôpego dos bêbados; o desafogo tácito do pranto;
o desespero vago dos sons. E o imperdível número dos astros
cumprindo sua trajetória, até a hora de dormir das crianças.
É quase tudo o mesmo, visto de longe. E a face serena esculpida
sem mármore, na carne, é ainda mais bela à distância.

No caminho de Sefelá as corujas bicam meus braços.

Depois, quando daquele lado estiver Zaanã e forem outros
os escravos, e os barcos partirem para além, eles levarão
na sola dos pés um pouco dessa areia para moldar
a tristeza dos olhos dessa mãe, e as esperanças famintas minguando
nos farrapos dos seus trajes esgarçados.

Mas, por enquanto, vou a caminho.

Eu tive conforto. Pouco, mas bom. Dividi meu pão e meu vinho e,
na época de fartura, joguei até às raposas uns pedaços. A floresta nós
acabamos com ela revezando as mãos no machado. Nossa caça
era pobre e quando as crianças começaram a morrer
nós partimos. Estas as nossas razões.

Antes de partir, carreguei as pedras para o interior da casa.

Tentaram-me as palavras simpáticas mais que promessas descabidas;
mais a saúde do rebanho que uma possível riqueza; o sono justo
e um lugar definitivo mais que sacolas de sal; a madeira com que
fazer um barco que o mar aberto.

Trêmulo, sei que a febre retorna.

O verão sempre foi insípido e seco. A lua sempre esteve lá em cima
e, como um pêndulo, sempre voltava. Mas eu nunca mais voltarei.
O inverno nunca fora tão frio.

Dei nome aos ladrões e virei eu mesmo o bandido.

Não toco flauta ou tambor. Já não bebo. O ar me alimenta
e o vento quente diz que eu devo flutuar. É como fazem
as aves para sobreviver. Deixei provisões sob a cama.
Tenho um grito que deseja fazer-se ouvir e isso é o que importa,
por enquanto. A miséria é maior do que previra.

Distribuo ordens que ninguém ouve. Pelo menos as corujas se foram.

Gosto de sentir as pedras nos pés. Gosto do perfume do mar
e do incenso que eu nem lembrava mais. Do olor da terra
túrgida pela manhã e ter de subir bem alto para entender
onde estou e que o futuro é.

As aves já não vêm aqui.

Prefiro que não haja espelhos e que não me digam. O meu estado
fui eu mesmo quem causou. Comunico estas dores às cabras e em
suas pegadas. As cãibras? Não contem a ninguém sobre elas, eu disse.
O melhor de falar com os pastores é que eles jamais nos entendem.

Não deixei para trás um camelo, uma tenda, uma sombra.

Sei cantar como as aves e não o faço. Sei cultivar o trigo e não o faço.
Sei aborrecer os demais e não o faço. Sei agradar os ímpios e não o faço.
Sei insultar quem merece e não o faço.

O peso das minhas roupas eu deixarei nesta enseada.

Quero que saibam o que vim fazer aqui. Vim buscar as pedras da
minha lapidação. Vim riscar meu nome no couro. Vim fazer com que
jamais esqueçam que sou imperdoável, como este deserto vem sendo comigo.
E que fui habituado a perecer e não deixo que me toquem ou alcancem.

Quando deveria fugir, esperei.

Os cravos são ásperos e velhos. A tarde é mais longa que o normal.
Seus pulsos são cruéis como espadas, mas não há espadas em Samaria.
O que me dói,então, que o grito natimorto encerra e define? São os
outros? É o mundo? O futuro? A espécie de sinais que me deixaram
eu entendi como quis. Se este caminho não me leva a Sefelá, eu vi tudo o
que precisava. De longe, daqui, de onde posso ver, é igual a de onde eu
vim.

Deixai-me aqui.

Katanas

katanas

Germina – Revista de Arte e Literatura

traço partes da palavra
__como em lâminas
____com meu nome todo
______e o sangue púrpura do meu corpo
_________dilata e desvia meu olhar do resto

____________sou tudo eu mesmo
______________até que não vaze de mim
________________ar nenhum e eu encontre
___________________no escuro
_____________________o alvo inteiro

_______________________tenho a velhice nos cabelos
________________________e nos dentes
_________________________eu já não posso
________________________demorar o meu olhar
_______________________inutilmente

_____________________é sempre quando preciso
___________________que me faltam armas —
_________________de sobrevivência
_______________só tenho meia chance
_____________sendo honesto

__________meu passo agudo
_______pode falhar a meio caminho
____a idade é que
__plantou em mim
um conselheiro