Imperceptível

Na falta de dicionários, lia listas telefônicas. Às vezes, lia os nomes como versos; às vezes, como se gente viva e conhecida.

Lembrava-se das viagens que imaginara ter feito Antonieta de Medeiros Albuquerque por Paris depois do último bombardeio e as lágrimas das pessoas lendo Éluard, mas na tradução a quatro mãos de Bandeira e Drummond.

Antonieta pensando em português enquanto caminhava em Montparnasse, onde só se pensa em francês e ao som das taças dos cafés. Antonieta afetando o vento de Paris dizendo em meia boca: vida besta.

As palavras de Antonieta sumindo à medida que os olhos escorregavam para Antonia Soares do Carmo, cujo sobrenome era mais português que os poemas de Fernando Pessoa escritos em inglês. O português do nome de Antonia era salgado de mar aberto, coisa que o poeta não viu jamais em sua vida, apenas imaginou ao anoitecer de um dia em que sentia-se tão diferente de si que inventou outra pessoa. Sentia-se ou sabia, eu não sei.

Antonia Soares, como Bernardo; e depois “do Carmo”, como a igreja.

Quando eram nove horas da manhã, perguntava aos relógios até que horas mais os nomes lhe ocorreriam em sua forma viva. Havia que retomar os afazeres, as leituras sérias e os cuidados com a higiene.

É meia-noite e o silêncio dos nomes está tão fechado quanto a lista telefônica. Num papel branco, marcando uma página importante, o número 67279877 sublinhado, e esse silêncio em que ela vasculha o ambiente como se soubesse que é vista também, mas imperceptível.

Os olhos da cobra verde

Não sei se nesse plano da existência (espero que sim), sonhei que acordava em 2023. No escuro, tocava it’s a long way muito, muito, muito alto. Ensurdecedoramente. E a gravação, de um vinil, trancada naquilo de um ‘a-lo-long’ sem fim. No celular, a data e a hora indicavam que era muito cedo, em torno das quatro da manhã. Alguém trocara meu pin code e eu não conseguia tirar daquilo ali. Pensei em jogar o telefone fora, mas lá tinha coisas que não podia perder assim sem tentar salvar. Tateando, no escuro, encontrei uma cômoda ornada com filetes em relevo e puxadores pingentes. Guardei no fundo de uma gaveta, sob blusões pesados de lã, o telefone – o mesmo no qual no dia anterior tinha lido coisas incompreensíveis e incoerentes. E Caetano continuava cantando, travado no seu ‘a-lo-long’. O lugar não parecia a minha casa, mas a de um amigo remoto na qual passei a noite depois de uma festa em 1986. O lugar era pacato. Havia sido decorado por sua mãe, uma senhora cuidadosa que enchia tudo de peças de crochê. Busquei a janela e abri a persiana sem muito esforço. Do outro lado da rua, um apartamento num prédio de três andares ressoava o disco do prisma, do Pink Floyd, e vultos circulavam sem parar. Voltei-me para dentro e pensei que aquilo não podia ser 2023, como dizia o relógio do telefone. Eu havia entrado é num túnel do tempo, lisérgico e em espiral como o do enlatado da tevê. A tevê era a mesma da casa do meu avô, de bobina e em preto e branco, mas tinha controle remoto e liguei no botãozinho da Netflix. Uma smart tv a transístor e de tubo. Uma raridade que deve valer milhões no Mercado Livre. De automático, ligou na TV Globo e o Cid Moreira e o Sérgio Chapelin deram aquele boa noite inigualável. Começou o último capítulo de uma novela de Janete Clair protagonizada por Regina Duarte em que ela encenava uma paranormal e tinha um olhar dúbio, indecifrável, de namoradinha do Brasil e, ao mesmo tempo, alguém com ares de psicopata. Fui até a tevê para ver se conseguia trocar de canal no seletor manual. Girei três vezes e meia e caiu no Netflix. O menu de navegação só tinha reprises de novelas e de filmes coreanos e séries espanholas. A pandemia interrompera todas as gravações e a tevê aparentemente só exibia reprises. Voltei à janela e, ao longe, um rumor de desmoronamento e explosões. Os vultos que estavam no apartamento do edificiozinho em frente continuavam a passar para lá e para cá ao som do Pink Floyd balançando os braços para o alto, dançando. Eu, sem saber que lugar era aquele e quem havia sido eleito um dia antes, só ouvia o Pink Floyd misturado ao Caetano Veloso cantando um eterno ‘a-lo-long’ ao som de um berimbau repetitivo. Sair para a rua apenas precipitaria o fim que sem dúvida chegava. Fui à cômoda onde guardara o telefone e olhei de novo a data. 2023. Fui ao espelho e tinha a cara de quem tinha 16 anos. Cabelos pelo ombro e barba mal feita e sem saber o que fazer da vida. Não tinha casado, não tinha diploma, não tinha filhos e nem emprego e o mundo havia pulado anos para frente, mas me trazendo de volta ao tempo de antes. Voltei à cômoda e peguei do telefone que, súbito, destravara. Então ouvi meu nome do lado de fora da rua e uma antiga namorada, a primeira de verdade, de olhos verdes e louca o suficiente para me levar consigo, me fez segui-la. Pulei da janela e a segui sem nunca mais ver seus olhos. “É a resistência”, ela dizia. Por ela, eu iria a qualquer lugar. E já não tinha mais nada para fazer onde estava a não ser as reprises e calendários esquisitos. Os olhos da cobra verde.

Todavia

a cidade vai descansar
nessa noite, até os pés
das formigas pisaram-na
demais nestes dias

minhas mãos? trastes
que caíram mais cedo
do seu abraço
e ninguém viu

não vamos mentir
à lembrança de tudo
nos restou do pássaro
nem o pio

por isso deixo a poeira
sentar em meu colo
estou tão desocupado
quanto um piano solo

nem lugar para buscar eu tenho
para onde é que eu iria?
fiquei sem rastro algum do espaço
eu não sabia

quanta inércia que eu penso
ficar tão quieto quanto possível
voar? não quero,
mas o inacessível

mas aqui mesmo, nessa praça
catei os galhos e me esqueci
do que fazer ao fogo
sem companhia

parece que conheço tudo
do que preciso, mas é mentira
viver é ter um amor
e todavia

Cosmogonia

estrelas confusas batem-se no céu desde abril
quasares, mininovas
esperam a translocação da galáxia
noutro lugar melhor
livre da poeira que resta à toa
no cosmos

quem é, entre estas, cometa
e pode mesmo morrer por conta própria
sem incendiar o planeta?

e quantas desejariam o adorno
gasoso, fugaz, de anéis?

vamos a maio e nada do céu mudar
de aparência e, pensando bem,
o que mudaria em essência?

fixos no horizonte, iguais a camelos
nas dunas de um deserto imenso
ou um rinoceronte ao espelho

duros como pedra, intransigentes,
noturnos, e assim mesmo tão gastos
como penitentes

nessa noite em que acordei tão cedo
botei os joelhos na lua
e fui buscá-lo de volta
antes que o matem mesmo
dragão